Agricultura Familiar

 

Pecuária leiteira em meio à POUPANÇA VERDE no Oeste catarinense

Zootecnista e Dr. em Zootecnia Felipe Jochims, felipejochims@epagri.sc.gov.br, e Eng. Florestal, Dr. em Engenhara Florestal Paulo Alfonso Floss, pfloss@epagri.sc.gov.br, pesquisadores da Epagri - Cepaf (Centro de Pesquisa para Agricultura Familiar)

A estrutura fundiária da Região Oeste de Santa Catarina, majoritariamente composta por pequenas propriedades e mão de obra familiar, necessita de uma elevação dos índices produtivos dos sistemas de produção locais de modo a gerar renda para garantir a qualidade de vida das famílias do meio rural. No entanto, isso deve estar necessariamente acompanhado da prudência e sustentabilidade ambiental, o que está estreitamente relacionado com a solidificação de sistemas produtivos de baixo custo (econômico e ambiental), aumentando a eficiência produtiva da área.

Nesse contexto, a produção animal a pasto e em sistemas perenes, o bem-estar dos animais, a qualidade do produto e a sustentabilidade da produção têm ganhado especial importância. Nesse sentido, destacam-se os sistemas silvipastoris, nos quais mais de uma atividade é explorada na mesma área, respeitando os preceitos fisiológicos e as interações dos componentes envolvidos, aumentando a eficiência e a intensidade de uso da terra. Localmente, esses sistemas são utilizados majoritariamente com gado leiteiro, em manejo rotativo dos animais nos piquetes, que são plantados com pastagens perenes de verão. Esses sistemas podem utilizar diversos formatos e espécies de plantas, variando conforme os objetivos da propriedade onde ele está instalado. Se o objetivo da propriedade for produção de leite, por exemplo, uma quantidade menor de árvores deverá ser plantada para otimizar a produção forrageira no sistema.

Implantação de sistemas — Os sistemas silvipastoris podem ser implantados de três formas: sistema novo, arborização de pastagens e desbaste de maciço florestal. A implantação de sistemas novos é o ideal, principalmente pela possibilidade de planejamento e dimensionamento do sistema. Devese levar em conta na implantação das linhas de árvores: o relevo, a posição solar e a distância entre as linhas.

Os outros dois tipos são mais comuns de serem observados, principalmente pelo sistema de produção já adotado na região (leite com base em pastagens). Na arborização de pastagens, normalmente, o componente florestal é implantado nas delimitações existentes dos potreiros (cercas), aproveitando a estrutura das divisões que eram utilizadas. Isso gera um grande número de combinações possíveis quanto a espaçamento de entrelinhas, relevo, disposição solar, entre outros atributos. O desbaste de maciços florestais para implantação de pastagens é outra prática comum, mas na maioria dos casos essas áreas possuem prioridade na produção de madeira, em que o produtor mantém número excessivo de árvores, o que prejudica o desenvolvimento das forrageiras.

Manejo do sistema e principais espécies — Para que o sistema funcione, além da definição dos objetivos a serem alcançados na propriedade, o manejo correto dos componentes do sistema é de fundamental importância. Usualmente, quando o objetivo da propriedade é a produção animal, sendo o componente arbóreo o objetivo secundário de exploração, a recomendação para a implantação é de 25 metros para as entrelinhas de árvores, com linhas simples e com as árvores plantadas com dois metros de espaçamento na linha, evitando sombreamento excessivo na pastagem. Devido ao rápido crescimento, as espécies do gênero Eucalyptus são as mais utilizadas na região. Para melhorar a uniformidade das árvores, o uso de clones sempre é recomendado.

No momento do plantio, as árvores devem ser isoladas do contato com os animais (com cerca elétrica) permanecendo assim até atingirem quatro metros de altualtura. Anualmente, no inverno, deve-se fazer a desrama (retirada dos galhos), removendo 1/3 da copa das árvores para melhorar a qualidade da madeira e para que o nível de sombra não ultrapasse 30%. No terceiro/ quarto ano, realiza-se o primeiro raleio das árvores, retirando até 50% das árvores, mantendo os melhores indivíduos.

Para as pastagens, sempre se procuram espécies adaptadas ao sombreamento e que tenham boa qualidade e boa aceitação pelos animais, como é o caso da grama missioneira-gigante (Axonopus catharinensis), que vem ganhando espaço nesses sistemas. No entanto, atualmente, as plantas mais utilizadas são do gênero Cynodon (tiftons, jiggs e estrela-africana) pela rusticidade, agressividade e relativa adaptação à sombra. Além dessas, Panicuns e Brachiaria também são utilizadas. A leguminosa que vem apresentando resultados promissores é o amendoim-forrageiro (Arachis pintoi).

O sistema silvipastoril usualmente é manejado de uma maneira rotativa, com ocupação dos piquetes pelos animais de um dia de pastoreio e 29 dias de descanso para a recuperação do pasto (30 piquetes é a média na região). O rotativo é utilizado para facilitar o manejo do pasto e evitar o superpastejo, no entanto, nada impede que o sistema seja manejado de forma contínua, desde que o manejador esteja ciente das dificuldades.

O ponto mais importante no sucesso do manejo do pasto é a lotação animal, pois esse deve respeitar o tempo fisiológico das plantas para sua recuperação e o ajuste da carga deve ser adequado. Cargas excessivas e muito tempo no mesmo piquete causam intensa remoção de folhas da pastagem, reduzindo a capacidade das plantas em captar radiação para fotossíntese, consequentemente degradando a pastagem. As diferentes gramíneas têm diferentes características de manejo, e então o ponto de pastejo pelos animais deve ser conhecido e respeitado pelo manejador do sistema.

Vantagens — Em função da maior complexidade do sistema, é possível alcançar níveis mais elevados de produtividade e de eficiência de utilização da terra em comparação às pastagens e o reflorestamento em monocultivos. Esse aumento se dá por várias razões, sendo estas as principais: melhor aproveitamento da radiação solar, aumento na ciclagem de nutrientes, aumento na umidade do solo, incremento no sequestro de carbono, além da melhoria do microclima (para a pastagem e animais), reduzindo extremos climáticos. Além disso, o sistema tem potencial para controlar a erosão e gera uma receita financeira adicional com a produção animal em curto prazo e do componente arbóreo de médio a longo prazos.

Resultados quanto a um aumento da produção animal (no caso, leite) ainda estão sendo avaliados e, por enquanto, são inconclusivos. No entanto, esse aumento da renda se dá pelo fato de os animais não sofrerem desconforto térmico, evitando perdas no desempenho produtivo e reprodutivo, que podem chegar de 20% a 30% em extremos climáticos, principalmente em situações de calor. Esse controle na qualidade do ambiente é proporcionado pelo componente arbóreo, que gera sombra, consequentemente, melhorando o conforto térmico dos animais. Além disso, gera uma “poupança verde” com a exploração da madeira, o que torna o sistema bem aceito nas propriedades familiares do Oeste de Santa Catarina.