Fitossanidade

 

Pastagens como ferramenta de controle de INVASORAS

Os sistemas integrados de produção podem colaborar no manejo de plantas infestantes resistentes ao glifosato em lavouras de soja e milho, visto o efeito supressivo das pastagens na competição com as daninhas por água, nutrientes e, sobretudo, luz

Eng. Agr. Fernanda Satie Ikeda, D. Sc., pesquisadora da Embrapa Agrossilvipastoril

No cenário atual de várias regiões agrícolas brasileiras, observa-se a ampla adoção do sistema de plantio direto, que vem sendo extensivamente difundido há muitos anos no País, tornando os sistemas de produção mais sustentáveis devido ao menor revolvimento do solo. No entanto, em regiões mais quentes ou de Cerrado, poucas são as alternativas de culturas para formação de palhada no sistema, além de as condições climáticas não serem favoráveis para sua manutenção no solo, dadas as altas temperaturas e as chuvas mais intensas. Nessas regiões, tem sido comum que a palhada formada seja proveniente de restos culturais de milho e da dessecação da comunidade infestante antes da semeadura da soja, sendo pouco usual a rotação de culturas recomendada dentro do sistema de plantio direto.

Essa realidade é decorrente em grande parte do emprego quase exclusivo da sucessão sojamilho em várias regiões onde se tem o plantio de segunda safra, a exemplo do Mato Grosso. Diante disso, acredita-se que uma alternativa viável para a formação de palhada e que pode ser inserida dentro do sistema de produção existente, seria a inserção de pastagens nos chamados sistemas integrados de produção. A camada de palha mais densa obtida da dessecação de cultivares de braquiárias ou mesmo de Panicum maximum estabelecidas em consórcio com o milho de segunda safra ou mesmo de pastagem solteira formada após a soja, além de beneficiar o solo, pode ser uma alternativa no manejo de várias espécies de plantas daninhas.

Já foram registrados casos de resistência em espécies como a buva em razão da falta de rotação de culturas, uso contínuo de cultivares de soja RR e a aplicação exclusiva de glifosato

Da mesma forma, embora praticamente não tenham sido desenvolvidas pesquisas nesse sentido, acredita-se que os sistemas integrados também poderiam colaborar no manejo de populações de plantas daninhas resistentes ou tolerantes ao herbicida glifosato. Dentre elas, já foram registrados casos de resistência em espécies de buva (Conyza spp.) e capim-amargoso (Digitaria insularis) no Sul do País. Isso em decorrência da falta de rotação de culturas, aliada ao uso contínuo de cultivares de soja RR e a aplicação exclusiva do herbicida glifosato.

Entre os benefícios que podem ser obtidos com os sistemas integrados no manejo de plantas daninhas pode-se citar a redução do crescimento ou mesmo da germinação e densidade de plantas daninhas em comparação ao milho solteiro. Esse resultado dependeria da densidade de semeadura (maiores densidades apresentam maior supressão sobre as plantas daninhas), assim como do modo de semeadura das sementes de braquiárias (na linha ou a lanço).

Além disso, o início da ocorrência desse efeito dependeria da profundidade de semeadura das braquiárias (quanto maior a profundidade, maior o tempo de emergência das braquiárias), assim como a época em que ocorre sua semeadura em relação ao milho (na semeadura ou na adubação de cobertura). Dessa forma, ao suprimir a germinação e o desenvolvimento das plantas daninhas, haveria menor produção de sementes para compor o banco de sementes do solo em comparação a áreas com histórico apenas de lavoura.

Esse efeito supressivo sobre o crescimento das plantas daninhas seria consequência da competição por água, luz e nutrientes das pastagens sobre as espécies infestantes. Tal competição ocorreria principalmente por luz e com o fechamento da pastagem. Assim, ao reduzir a luminosidade incidente sobre o solo, haveria redução do desenvolvimento das plantas daninhas. A menor incidência de luz sobre o solo também reduziria a germinação de sementes de plantas daninhas consideradas fotoblásticas positivas, ou seja, daquelas que germinam na presença de luz.

O efeito físico sobre a germinação também seria muito semelhante ao observado com a formação de palhada proveniente da dessecação de braquiárias. Dessa forma, essa supressão poderia auxiliar no manejo de algumas espécies que vem sendo selecionadas com o uso contínuo de glifosato nas lavouras de soja RR como buva (Conyza spp.), capimpé- de-galinha (Chloris barbata), capimamargoso (Digitaria insularis) e, possivelmente, Amaranthus palmeri (espécie recentemente introduzida no País e que se encontra oficialmente controlada no estado de Mato Grosso).

Efeito alelopático — Somado a essa competição, como parte da interferência das pastagens sobre a comunidade infestante, pode-se mencionar o seu efeito alelopático negativo sobre as plantas daninhas, por meio da liberação de compostos químicos no ambiente que impedem o desenvolvimento de outras espécies. Dessa forma, estudos conduzidos em laboratório, com condições controladas, demonstraram a liberação dessas substâncias por meio de lixiviados e compostos voláteis oriundos de folhas e, até mesmo de compostos alelopáticos provenientes de exsudatos radiculares de espécies de braquiária.

Como resultado direto das modificações que ocorrem com o emprego de sistemas integrados, verifica-se a alteração na composição da flora infestante em cultivos de soja RR. Desse modo, entre as principais espécies infestantes observadas em lavoura de soja RR em experimento de longa duração com sistemas integrados na Embrapa Agrossilvipastoril e, em algumas lavouras comerciais com soja RR em sistemas integrados no Mato Grosso, encontra-se o capim-colchão (Digitaria horizontalis), o capimpé- de-galinha (Eleusine indica) e o capim- carrapicho (Cenchrus echinatus), assim como outras espécies de plantas daninhas monocotiledôneas.

Tais espécies são comumente encontradas na cultura do milho. Por isso, embora ocorra um efeito de supressão com consequente redução da infestação, salienta-se a necessidade do manejo químico para complementar o controle dessas infestantes, tanto na primeira como na segunda safra. Assim, nos consórcios de milho com braquiárias, pode-se aplicar o herbicida atrazine em pré ou pós-emergência, assim como doses reduzidas de mesotrione em pósemergência das plantas daninhas e das culturas.

Após a colheita do milho e/ou a formação da pastagem (estabelecida em consórcio ou solteira), pode-se manter a pastagem simplesmente para a cobertura do solo ou utilizá-la para o pastejo animal. No caso específico de áreas de ocorrência de Amarantus palmeri, não seria aconselhável o pastejo, dada a possibilidade de disseminação de sementes da espécie pelas fezes do animal. Assim, com a formação da pastagem, caso necessário, pode-se fazer a aplicação de 2,4-D ou metsulfuron-methyl, desde que esse último seja aplicado com 60 dias antes da semeadura da soja. Outros herbicidas registrados para a aplicação em pastagens não seriam recomendados nos sistemas integrados, já que poderiam ocasionar efeito fitotóxico (carryover) na cultura da soja.

Antes da semeadura da soja, a dessecação de braquiária-ruziziensis (Urochloa ruziziensis [sinonímia Brachiaria ruziziensis]) pode ser realizada apenas com uma aplicação de glifosato. Entretanto, no caso de cultivares com dessecação mais prolongada como capim-marandu ou capim-piatã (Urochloa brizantha [sinonímia Brachiaria brizantha]), pode-se fazer uma aplicação de glifosato seguida da aplicação sequencial de paraquat ou paraquat+diuron após dez dias da primeira aplicação para que a dessecação ocorra mais rapidamente, segundo observações realizadas na Embrapa Agrossilvipastoril.

Em relação ao manejo de plantas daninhas na cultura da soja, considerandose a permanência no sistema de sucessão soja-milho, recomenda-se ao menos a rotação de herbicidas com mecanismos de ação diferentes do glifosato. Isso poderia ser obtido com a semeadura de cultivares com resistência a herbicidas com mecanismos de ação alternativos, assim como de cultivares convencionais ou mesmo com a associação de outros herbicidas na aplicação de glifosato com cultivares de soja RR.

Baixo custo — Finalmente, a adoção de sistemas integrados pode ser uma alternativa de baixo custo que proporcionaria a formação de palhada para o sistema de plantio direto na sucessão soja-milho, além de possuir efeito supressivo antes e após a sua dessecação sobre a comunidade infestante. No entanto, a complementação desse manejo com o controle químico se faz necessária tanto na primeira como na segunda safra para que não ocorram perdas no rendimento das culturas por competição com as plantas daninhas. Além disso, salienta-se que, embora os sistemas integrados possam auxiliar no manejo de plantas daninhas, que a rotação de culturas ou ao menos a rotação de herbicidas sejam considerados como práticas importantes a serem adotadas para que não surjam problemas com resistência a médio e longo prazos.