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O mercado de FERTILIZANTES para a safra 2016/17

Em dólares, os adubos estão de 20% a 25% mais baratos que em 2015. O fosfato caiu 20% desde novembro, enquanto a ureia baixou 30% e o cloreto de potássio, 15%. Aliado à liberação do pré-custeio, o momento é favorável para a aquisição do insumo ainda no primeiro semestre

Carlos Cogo, consultor em Agronegócios, sócio-diretor da Carlos Cogo Consultoria Agroeconômica, consultoria@carloscogo.com.br

Entre 1990 e 2015, a demanda de fertilizantes cresceu a uma taxa de 5,6% ao ano, puxada pela expansão das áreas agrícolas, pelo avanço do cultivo da segunda e da terceira safras e pelo incremento tecnológico do setor produtivo no Brasil, que tem buscado ganhos de eficiência e produtividade, simultaneamente ao incremento da superfície plantada com grãos, cana, hortícolas e frutas. A tendência é que o consumo de fertilizantes no Brasil cresça mais rápido do que no resto do mundo nos próximos dez anos. O Brasil é o único país grande produtor agrícola altamente dependente de fertilizantes, importando entre 70% e 75% da demanda total. O Brasil é o quinto maior consumidor de fertilizantes, mas sua produção não acompanha essa demanda. O País se tornou o segundo maior importador de produtos fosfatados e de potássio.

O Brasil é um dos maiores consumidores do mundo, mas possui uma participação de apenas 2% da produção mundial. A oferta doméstica continua reduzida e o País permanece dependente do mercado internacional. O Brasil vai continuar dependente dos fertilizantes internacionais, uma vez que o aumento na produção depende de novas plantas que demandam muito investimento, coisa que poucas empresas disponibilizam no momento.

Mesmo diante da previsão de investimentos de US$ 13 bilhões até 2018 em projetos para atender a demanda interna por fertilizantes, a taxa de dependência das importações não deve sofrer grande alteração. Para se ter uma ideia do descompasso que marca o segmento, nos últimos dez anos a produção nacional cresceu apenas 4%, enquanto as importações aumentaram 47,2%. Atualmente, 63% das indústrias de fertilizantes encontram-se entre São Paulo, Minas Gerais e Paraná.

É pouco provável que os preços ao produtor rural recuariam com uma maior produção no País, uma vez que esse mercado é referenciado por oscilações no exterior (são commodities). Porém, certamente o movimento conferiria maior garantia de fornecimento e reduziria gastos com demurrage nos portos. A queda internacional nos preços dos principais insumos, especialmente os fertilizantes, deve trazer um cenário positivo para a antecipação das compras no primeiro semestre deste ano. Em dólares, os fertilizantes estão de 20% a 25% mais baratos que o ano passado, o fosfato retraiu cerca de 20% desde novembro, enquanto que a ureia caiu 30% e o cloreto de potássio (KCL) regrediu 15%. Esse contexto, aliado à retração em dólares e à liberação do pré-custeio, diferente do que ocorreu no ano passado, compõe um ambiente favorável para a aquisição dos insumos ainda neste primeiro semestre.

Compra antecipada — A compra antecipada traz benefícios quanto ao frete. Tradicionalmente os produtores utilizam a estratégia de aproveitamento do frete de entrega da soja para retornar com insumos, diluindo assim, os custos logísticos. Optar pela compra no segundo semestre poderá esbarrar em problemas e encarecimentos desse frete.

Entre as principais causas da retração dos insumos no mercado internacional está a queda nos preços do petróleo. Além disso, os preços dos fertilizantes à base de fosfato, potássio e nitrogênio caíram mais de 30% nos últimos meses, após a redução da de demanda sazonal, que elevou os estoques mundiais. É preciso considerar também a queda no preço do frete marítimo. O mercado enfrenta a maior desaceleração desde meados dos anos 1980, com os baixos preços do petróleo e retração da demanda mundial.

Os preços das principais matériasprimas de fertilizantes apresentaram uma queda nominal em dólares nos últimos seis meses, com destaque para o cloreto de potássio, que foi o vilão do setor em 2008, chegando a custar perto de US$ 2 mil a tonelada no exterior, e hoje está na faixa de US$ 270 a US$ 280. A ureia está mais barata por conta dos baixos preços do gás natural e o MAP/DAP também estão mais baratos que no mesmo período do ano passado. Ao contrário do ocorrido na safra passada, a procura por fertilizantes cresceu no primeiro trimestre deste ano, com vistas à utilização na safra de verão 2016/2017. No ano passado, neste mesmo período, o setor de adubos havia relatado atrasos nas aquisições do insumo.

Houve um grande movimento de vendas em todas as regiões produtoras nos últimos 30 dias (até a penúltima semana de março), principalmente nos períodos em que o dólar permaneceu em níveis bem abaixo do patamar de R$ 4 que norteou os negócios no segundo semestre do ano passado. Em 2015, as vendas para a safra de verão começaram entre abril e maio. A principal razão para a procura é a relação de troca mais favorável ao produtor, que está pagando agora um número menor de sacas de soja e milho para comprar uma tonelada de fertilizante. O mercado está mais demandante em relação a anos anteriores. Enquanto nesta mesma época do ano, os produtores dispendiam 22 sacas de soja por tonelada de fertilizante (base Mato Grosso), atualmente, eles entregam entre 18 e 20 sacas.

A cultura da soja é responsável por 33% a 35% das vendas de fertilizantes no Brasil, e a do milho, por 17%, enquanto a cana consome 15%

A estimativa é de que 35% de todo o fertilizante que será utilizado para aplicação na safra 2016/2017 tenha sido comercializado até o final de março. Além da relação de troca favorável, outros fatores têm dado maior segurança ao produtor para investir neste momento. A boa colheita é uma delas, além do câmbio favorável às exportações e da liberação dos recursos para pré-custeio do ciclo 2016/2017. Em fevereiro, o Governo Federal anunciou a liberação de R$ 10 bilhões, por meio do Banco do Brasil (BB), para a compra de insumos da safra 2016/2017. Até o final de março, haviam sido liberados R$ 3,1 bilhões. Em 2015, o crédito rural ficou escasso por causa de dois fatores: primeiramente, houve a sangria na poupança e os saques do segmento rural foram R$ 3,4 bilhões superiores aos depósitos; em segundo lugar, a restrição orçamentária impediu o Governo de bancar a diferença dos financiamentos subsidiados.

Para destinar mais R$ 10 bilhões ao crédito rural sem necessidade de contrapartida do Tesouro Nacional foi usada uma engenharia financeira que, na prática, dispensou o BB de guardar uma parte do compulsório (poupança rural que não empresta e que é mantida no Banco Central). O BB é o único dos grandes bancos a captar recursos da poupança rural. Os outros só captam poupança para financiamento imobiliário. Quando não cumpria a regra de destinar 74% desses recursos em operações ao produtor rural, era obrigado a deixar o dinheiro no BC, que remunera pela taxa básica de juros, a Selic. Uma resolução do CMN, no fim do ano passado, permite a liberação de parte desse dinheiro para ser aplicado em operações a taxas de mercado, não necessariamente em operações rurais. O ganho dessas aplicações – estimado em R$ 815 milhões por ano – será usado para cobrir os subsídios dados aos produtores rurais, sem necessidade de aporte do Tesouro para equalizar as taxas.

A compra antecipada do adubo traz benefícios quanto ao frete, visto que tradicionalmente os produtores utilizam a estratégia de aproveitamento do frete de entrega da soja para retornar com insumos, diluindo assim, os custos logísticos

Mesmo volume de 2015 — As entregas de adubos neste ano serão iguais ou talvez um pouco maiores ante as de 2015 – quando atingiram 30,2 milhões de toneladas. O ano de 2015 fechou com queda de 6,2% nas entregas. Essa foi a primeira retração de vendas registrada desde 2009. O setor sucroalcooleiro, o terceiro mais relevante para a indústria de fertilizantes, com 15% de participação, pode contribuir com a estimativa de demanda maior em 2016. Os preços de açúcar e etanol subiram muito e esta é a primeira safra com cotações que justificam investimentos.

A cultura da soja é responsável por 33% a 35% das vendas de fertilizantes no País e a do milho, por 17%. As cooperativas são o principal canal de distribuição de defensivos, corretivos, fertilizantes e sementes para os produtores. Conforme a “Sondagem de Mercado do Agricultor Brasileiro”, realizada em parceria pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) e pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na hora de comprar fertilizantes, 48% dos entrevistados disseram recorrer a essas entidades, seguida pelas revendas, com 35%, enquanto 30% afirmaram negociar diretamente com as indústrias.