Manejo

 

A IRRIGAÇÃO na integração lavoura-pecuária-floresta

A ILPF irrigada não é o mesmo que a ILPF tradicional mais a aplicação de água. É necessário pensar no sistema como um todo, considerando a água como mais uma estratégia na condução do sistema lavoura + boi + árvores, levando em conta plantio, espaçamento, rotação de culturas e assim por diante

Everardo Chartuni Mantovani, professor titular da UFV, sócio e consultor das empresas Irriger e Irriplus, everardo@irriplus.com.br

A Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) tem sido amplamente divulgada como uma das mais importantes estratégias de agregação de valores na agropecuária brasileira, com fortes impactos positivos nas áreas econômica, social e ambiental. Inicialmente envolvia a prática conjunta de agricultura e pecuária, em um mesmo ano ou em anos subsequentes, permitindo uma simbiose na área nutricional, na área de rotação de culturas e outras atividades, possibilitando otimizar as produções das culturas e do gado. A ILP (lavoura e pecuária) foi inicialmente colocada e adotada como uma estratégia para os pecuaristas e se expandiu e tornou importante estratégia para fazendas produtoras de alimentos. Foi ampliada para possibilidade de inclusão de florestas, gerando a ILPF que conhecemos atualmente.

Apresenta muitas vantagens que têm sido amplamente divulgadas e, que podem ser resumidas em maior sustentabilidade do sistema de produção. Do ponto de vista dos pecuaristas é comum observar a falta de fertilização adequada que, associada a uma taxa de ocupação acima da capacidade de suporte do pasto e que não respeita a disponibilidade de forragem, acaba exaurindo e degradando o pasto. Por outro lado, de maneira geral, a agricultura irrigada tem sido importante estratégia para otimização da produção mundial de alimentos, proporcionando desenvolvimento sustentável no campo, com geração de empregos e renda de forma estável. Atualmente, mais da metade da população mundial depende de alimentos produzidos em áreas irrigadas.

No passado, a utilização da irrigação era uma opção técnica de aplicação de água que visava principalmente à luta contra a seca. Atualmente, a irrigação, no foco do agronegócio, insere-se em um conceito mais amplo de agricultura irrigada, sendo uma estratégia para aumento da produção, produtividade e rentabilidade da propriedade agrícola de forma sustentável, preservando o meio ambiente e criando condições para manutenção do homem no campo, por meio da geração de empregos permanentes e estáveis, estando em perfeita consonância com o sistema ILPF.

No conceito moderno, a irrigação não deve ser considerada isoladamente, mas sim como parte de um conjunto de técnicas utilizadas para garantir a produção econômica de determinada cultura com adequados manejos dos recursos naturais. Portanto, devem ser levados em conta os aspectos de sistemas de plantios, de possibilidades de rotação de culturas, de proteção dos solos, de fertilidade do solo, de manejo integrado de pragas e doenças, mecanização, etc., perseguindo-se a produção integrada e a melhor inserção nos mercados.

A implantação da ILPF não necessariamente precisa do uso da irrigação, até porque apresenta características de melhor aproveitamento das chuvas em função da expectativa de maior conservação do solo, maior aprofundamento radicular, entre outras. Por outro lado, existem vantagens na utilização da irrigação que são importantes. Dentro do sistema ILPF, existe um consenso de que o crescimento sustentável da irrigação necessita de um programa muito bem elaborado de pesquisa e desenvolvimento para o seu estabelecimento e sua consolidação. Assim, o futuro da irrigação em geral e no sistema ILPF envolve produtividade e rentabilidade, com eficiência no uso da água, eficiência no uso da energia, eficiência no uso de insumos e respeito ao meio ambiente.

A importância da irrigação pode ser descrita por inúmeras vantagens, tanto para agricultura tradicional e principalmente dentro da ILPF e, podem ser sintetizada nos seguintes itens:

* maior potencial produtivo em função da diminuição do estresse hídrico indesejado, em função dos períodos secos ou veranicos nos períodos chuvosos, ou seja, seguro contra seca;

* possibilidade de seguir à risca o planejamento de plantio, colheita e rotação, entre outros, pela independência da ocorrência das chuvas, fato que se torna mais importante em uma estratégia de integração, que tem “janelas” de produção bem definidas;

* maior produtividade e melhor qualidade do produto em virtude de o desenvolvimento vegetal ocorrer em condições mais favoráveis, garantindo os níveis de rentabilidade planejada ou de ocupação dos animais;

* de maneira geral, a possibilidade de introdução de culturas caras, minimizando o risco do investimento. No caso de pastagem, é importante destacar variedades ou cultivares de maior valor produtivo e nutritivo como mombaça, tifton, etc., que são mais responsivas em melhores condições hídricas;

* necessidade de área menor para atingir a mesma produção e rentabilidade;

* diversos estudos mostram que a utilização da irrigação na ILPF promove benefícios relacionados à melhoria dos aspectos, como diminuição da erosão, da perda de matéria orgânica e nutrientes e da compactação;

* a irrigação é muito eficiente em otimizar os ativos de uma propriedade, permitindo melhor retorno de capital. Por exemplo, onde o clima permitir, o plantio em qualquer época do ano permitiria otimização do uso do maquinário (plantio, colheita e tratos culturais) pelo escalonamento de tratores, colhedoras e implementos.

Aspectos a considerar para o êxito — O sucesso do empreendimento de irrigação depende de vários aspectos. De maneira objetiva depende da qualidade do projeto, qualidade do equipamento, qualidade da implantação e qualidade do manejo do sistema no campo. Assim, é importante um bom planejamento para tirar o melhor partido da irrigação na ILPF.

Entre as vantagens de irrigar as pastagens está a maior eficiência na sua fertilização pela possibilidade de aplicar água no momento certo, facilitando assim a absorção de nutrientes

Considerando a situação atual da indústria, dos equipamentos disponíveis e das firmas prestadoras de serviços, verifica- se que os três primeiros pontos estão ao alcance do irrigante, dependendo, é claro, do nível de investimentos. Talvez o ponto que exija maiores cuidados seja o manejo da irrigação, isto é, a condução da lavoura irrigada, definindo-se de forma precisa as necessidades hídricas da cultura, bem como a lâmina e a hora mais adequada de realizar a irrigação. Também se incluem aí os cuidados na avaliação, na manutenção e nos ajustes no sistema de irrigação, o controle efetivo da fertirrigação e muitos outros na condução diária da cultura irrigada. Tais cuidados se tornam ainda mais importante na estratégia de ILPF, em que a busca da sustentabilidade é condição básica.

Durante a evolução da agricultura irrigada no Brasil, diversos foram os enfoques. Inicialmente, a única preocupação era o aumento da produtividade. Atualmente, a modernização da agricultura mundial deve ser conduzida, inexoravelmente, pelos parâmetros da agricultura sustentável, com a integração de todos os fatores que interferem na produção. Nesse contexto, é fundamental a utilização eficiente da água e a conservação do meio ambiente, o que vem se apresentando como um dos grandes desafios da agricultura irrigada.

Por último, é importante citar que existe uma ampla disponibilidade de sistemas de irrigação para atender a demanda da ILPF, temos sistemas de aspersão convencional com adaptações e ajustes que envolvem sistemas tipo malha ou fixos e automatizados. O pivô central também tem sido amplamente utilizado no caso de integração sem a presença florestal que inviabiliza a instalação do equipamento pela altura das árvores.

“Atualmente, a irrigação, no foco do agronegócio, insere-se em um conceito mais amplo de agricultura irrigada, sendo uma estratégia para aumento da produção, produtividade e rentabilidade”, explica Mantovani

Por outro lado, no caso de ILP com a fruticultura que começa a ser avaliado, o uso do pivô se encaixa perfeitamente. Uma possibilidade, dependendo das dimensões da área, o uso de sistema de carretel autopropelido pode ser interessante para o caso de irrigações de suporte em épocas muito específicas e limitadas. Também é importante constatar que novos modelos de carretéis têm sido desenvolvidos e comercializados, com maior eficiência de uso da água e energia. Assim, existem diferentes sistemas de irrigação que podem ser utilizados de forma geral, sendo a escolha do mais adequado dependente de uma série de fatores, destacando- se o tipo de solo, a topografia, o tamanho da área, os fatores climáticos, os fatores relacionados ao manejo da cultura, o déficit hídrico, a capacidade de investimento do produtor e o custo.

Concluindo, um desafio importante é a conscientização de que a ILPF irrigada não significa o mesmo que ILPF tradicional ou de sequeiro mais água. É preciso pensar de forma sistêmica, reavaliando em presença de irrigação a estratégia a ser adotada de condução ILPF. É necessário repensar o programa de plantio, o espaçamento, a rotação, as datas de plantio, as cultivares, o nível de adubação, etc. Assim, é necessário associar a experiência adquirida na integração dentro do novo patamar de produção que conta com a aplicação de água no momento certo e na quantidade necessária.