Soja

Mercado para todos

Protagonistas de uma lavoura que não para de crescer, produtores brasileiros investem em estratégias para agregar valor ao grão de soja e atender diferentes demandas, como os produtos convencional e orgânico

Denise Saueressig
denise@agranja.com

Diante de um mercado cada vez mais competitivo, buscar formas de diferenciação pode significar incremento de lucratividade. Cultivada em todas as regiões do País, a soja tem possibilidades que representam alternativas de manejo e resultam em aumento da remuneração pela saca colhida. A biotecnologia está presente em mais de 90% dos 33,2 milhões de hectares plantados com a oleaginosa, mas alguns produtores ainda investem em variedades convencionais e orgânicas. Com propriedade em Tapurah, no Norte de Mato Grosso, o produtor Silvésio de Oliveira chegou a cultivar 100% da sua área com soja transgênica.

Porém, esta já é a terceira safra que destina mais da metade da lavoura para as sementes convencionais. De um total de 1,4 mil hectares plantados com o grão, cerca de 800 hectares foram cultivados sem o uso da biotecnologia.

Segundo ele, três principais razões determinaram a decisão. A primeira foi a resistência ao glifosato verificada nos últimos anos entre as variedades geneticamente modificadas (GM). A segunda é a disponibilidade de materiais convencionais resistentes a nematoides de cisto, um problema recorrente na região. A terceira motivação é o bônus recebido pela saca de soja convencional entregue à indústria. O diferencial de preço já chegou a R$ 5, mas atualmente varia entre R$ 2 e R$ 3. O valor oscila conforme a empresa processadora, a região de atuação e o volume de soja negociado.

Coincidência ou não, Oliveira, que também é presidente do Sindicato Rural de Tapurah, diz que é o terceiro ano que observa as variedades convencionais com produtividades mais altas. Na atual safra, que foi afetada por variações do clima, o rendimento máximo nos talhões convencionais foi de 62 sacas por hectare, enquanto nas parcelas transgênicas ficou em 58 sacas por hectare. Em anos anteriores, quando o clima foi mais favorável, a área convencional chegou ao máximo de 66 sacas por hectare. "O custo entre as duas lavouras não muda muito, mas o grande benefício vem do manejo que possibilita um melhor controle de problemas fitossanitários, como as invasoras", destaca o produtor, citando o capim-amargoso, a buva e a corda-de-viola.

Para que mais produtores tenham motivação para cultivar sementes convencionais, Oliveira defende o estímulo financeiro por parte das indústrias de processamento e a pesquisa para o desenvolvimento de novas cultivares. "Precisamos evoluir para fugir do monopólio na produção de sementes. Acredito que o cultivo de variedades convencionais é libertador para o produtor e estratégico para o País", salienta.

Pesquisador Rodrigo Brogin, da Embrapa: Programa Soja Livre surgiu pela demanda de produtores por uma maior variedade de materiais convencionais

Opção de escolha — O Programa Soja Livre foi criado justamente para estimular e dar suporte à produção de soja convencional. Desde 2010, a iniciativa, coordenada pela Embrapa e pela Associa- ção dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja/MT), trabalha para divulgar materiais não-GM que estão disponíveis no mercado. O projeto conta com a parceria e o patrocínio de empresas, cooperativas e sementeiras, como TMG, Força Total Sementes, Coodeagri e Caramuru. "Com a chegada da biotecnologia, a produção de sementes convencionais foi bastante reduzida, e passamos a receber essa demanda por parte dos produtores. Agora contamos com uma oferta interessante de materiais novos e produtivos para as lavouras nãoGM", afirma o pesquisador da Embrapa Soja e coordenador técnico do Soja Livre, Rodrigo Brogin. "É importante dizer que ninguém é contra a transgenia. Acreditamos que uma tecnologia ajuda a outra", acrescenta.

Cid Sanches, da Aprosoja/MT: lavoura de soja não transgênica é um diferencial importante do Brasil em relação aos outros grandes produtores mundiais

Mato Grosso é o estado com a maior área plantada com soja convencional no Brasil. Os números variam de um ano para o outro e ficam entre 10% e 15% do total semeado com a oleaginosa. O cultivo também está presente em áreas de Goiás, Rondônia, Paraná e Mato Grosso do Sul. "É uma lavoura que normalmente dá mais trabalho ao produtor, mas além do bônus recebido pela saca, a grande vantagem é a rotação de variedades que funciona como uma ferramenta eficiente de manejo", assinala o gerente de Planejamento da Aprosoja/ MT, Cid Sanches. Para ele, a capacidade da indústria em realizar a segregação dos grãos é essencial para a continuidade e ampliação do programa.

O interesse de compradores estrangeiros na soja convencional também é um incentivo para toda a cadeia. "Já recebemos grupos do exterior que afirmaram não saber que o Brasil cultiva soja convencional. Esse é um diferencial importante diante dos outros dois grandes produtores mundiais, os Estados Unidos e a Argentina, porque existem nichos de mercado, principalmente na Europa, que precisam ser atendidos", reflete Sanches.

Rastreabilidade do processo — A Caramuru Alimentos recebe soja nãoGM de seus fornecedores há 15 anos. Na última safra foram processadas 782.257 toneladas do grão convencional, o equivalente a cerca de 40% do total da oleaginosa recebida pela empresa, que trabalha com a rastreabilidade em todos os processos da cadeia, desde o campo até o porto. Duas unidades da indústria, uma em São Simão/GO e a outra em Sorriso/MT, recebem o grão não-GM, que é transformado em três produtos: proteína concentrada, lecitina e o farelo Hipro, voltado para a fabricação de ração. Os compradores estão principalmente na Alemanha, na França, na Suíça, na Dinamarca e na Escócia.

O vice-presidente da Caramuru, Cesar Borges de Sousa, relata que é preciso manter uma relação muito próxima com o produtor para garantir a permanência da entrega dessa soja, estabelecendo contratos com antecedência. "A safra 2017 deve ser preparada desde já", observa. A empresa mantém uma polí- tica financeira especial com os produtores. Além da bonificação que recebem com a venda, os fornecedores de soja convencional contam com juros menores no financiamento do plantio da safra.

Certificação internacional — Em uma realidade globalizada, em que as atenções se voltam para além dos aspectos econômicos da produção, contar com um certificado internacional pode criar uma distinção importante entre produtores da mesma commodity.

Cre produtores da mesma commodity. Criada em 2006, a Associação Internacional de Soja Responsável (RTRS, na sigla em inglês) integra 11 mil produtores no mundo todo, além de 66 empresas compradoras de material certificado. No ano passado, informa a gerente de Desenvolvimento e Marketing da RTRS, Veronica Chorkulak, foram comercializadas 2,1 milhões de toneladas de soja com o selo da associa- ção, 70% a mais do que em 2014. Produtores receberam em torno de US$ 6 milhões em prêmios no mundo todo. "O Brasil representa mais da metade desse mercado, com 1,2 milhão de toneladas e 432,2 mil hectares certificados. A projeção é que até 2020 o País alcance pelo menos 5 milhões de toneladas", enumera.

No Brasil, 73 propriedades estão certificadas pelos requisitos sociais e ambientais da Associação Internacional de Soja Responsável (RTRS)

Atualmente, são 73 fazendas certificadas no País, enquanto outras aguardam auditoria. Dos 100 indicadores necessários para o padrão, a RTRS exige, no primeiro ano, o cumprimento de 62% das exigências para a emissão do certificado, concedido depois da auditoria externa. O produtor tem três anos, a partir da avaliação inicial, para atender 100% dos requisitos. Todo ano são realizadas novas inspeções nas propriedades.

A certificação garante que a soja seja proveniente de uma produção com menor impacto social e ambiental. "Trabalhamos para que cada vez mais produtores assumam o compromisso de cumprir as leis, cuidar do meio ambiente, seguir as boas práticas e oferecer boas condições de trabalho, respeitando e criando vínculos com as comunidades locais", frisa Veronica, concluindo que as principais vantagens econômicas ao produtor são oportunidades de acesso a mercados internacionais, possibilidade de recompensa decorrente da venda de material certificado e redução dos custos, devido ao maior controle sobre os insumos.

Existe também a possibilidade de venda de créditos, que consiste em uma alternativa à comercialização do material físico. A RTRS concede aos produtores créditos equivalentes ao volume certificado (1 crédito por tonelada de soja certificada). "Esses créditos podem ser comercializados independentemente da cadeia de fluxo de material físico, em que a soja deverá ser vendida como não certificada para evitar a venda duplicada de materiais RTRS", detalha a dirigente. Os custos da certificação são variá- veis e dependem da situação inicial de cada produtor ao começar o processo de adequação da propriedade.

Além de atender os requisitos, também é necessário bancar a auditoria de certificação e a taxa da RTRS, que é de 0,3 centavos de euro por tonelada comercializada.

Reconhecimento que gratifica — Um dos produtores brasileiros que aderiu às normas da RTRS é Darci Getúlio Ferrarin Jr., de Sorriso/MT. Há pouco mais de seis meses, 1 mil hectares de soja receberam certifica- ção na fazenda Santa Maria da Amazônia. Segundo ele, o processo foi facilitado porque a família, que conduz a DGF Agropecuária, já trabalha há algum tempo com rastreabilidade e certificação na produção de algodão.

Ferrarin Jr. foi presidente do Clube Amigos da Terra (CAT) de Sorriso por quatro anos e, nesse período, participou do projeto que incentivou produtores locais a aderirem à certificação com o apoio de diferentes órgãos internacionais. "É uma forma de organizar a produção e ainda receber reconhecimento por isso", avalia. Atualmente, 21 mil hectares que pertencem a nove fazendas do município fazem parte da iniciativa, mas a expectativa é de que a área passe a 60 mil hectares ainda este ano, agregando um maior número de produtores.

O bônus pela soja certificada é estimado em US$ 0,20 pela saca, mas na opinião do produtor, mais importante do que a remuneração, é a concretização de uma ação sustentável. "É uma iniciativa que não depende de governos para ser realizada e que revela uma gestão madura por parte dos produtores", sustenta.


MANEJO GARANTE RESULTADO DA SOJA ORGÂNICA

Quando se fala em agricultura orgânica no Brasil, o pensamento mais frequente remete às feiras onde são comercializados legumes, frutas e verduras. Porém, também existem produtores que conseguem bons resultados com a soja cultivada sem agroquímicos. Com propriedade em Capinzal/SC, Dionísio Filipini (na foto) é um bom exemplo. Nos 150 hectares destinados ao sistema, o produtor trabalha de forma disciplinada com a rotação de culturas e a permanente cobertura do solo. Além da soja, ele planta milho e aveia-branca e também faz cobertura com outras gramíneas e leguminosas. "Não adianta cultivar orgânicos e não cuidar do solo. É esse manejo que garante alto teor de matéria orgânica e controla as plantas daninhas", ressalta.

Além do sistema orgânico, Filipini também cultiva grãos no processo convencional. "Mas não transgênico", faz questão de frisar. "Aprendi com a agricultura orgânica a trabalhar de maneira mais segura com a agricultura convencional, não adotando produtos agressivos nas lavouras", completa. Na soja orgânica, o produtor catarinense vem obtendo médias de produtividade de 55 sacas por hectare, mas já chegou a contabilizar 75 sacas por hectare. Quando necessário, a ferrugem asiática é combatida com substâncias como o silicato de sódio e o sulfato de cobre. Como repelente dos percevejos, ele utiliza o enxofre e, contra as lagartas, fungos e bactérias. "Consigo reproduzir muita coisa em casa e, assim, reduzo custos. A manutenção dos inimigos naturais também é importante para a viabilidade do sistema e para o equilí- brio natural", revela.

Filipini conta que está sempre pesquisando e aprendendo sobre o cultivo orgânico e, quando pode, viaja para conversar com outros produtores. A soja colhida é vendida para a Gebana Brasil, que paga, pelo menos, 35% a mais pela saca do grão orgânico certificado. Em torno de 100 produtores fornecem a oleaginosa para a empresa, que tem sede em Capanema/PR. No ano passado, foram recebidas 6,3 mil toneladas de soja e 3,5 mil toneladas de outros produtos orgânicos. O farelo, o óleo e a lecitina elaborados têm como destino França, Alemanha, Holanda, Suíça, Finlândia e Estados Unidos. Do total processado, 15% ficam no mercado interno.

Para 2016, segundo o gerente geral da Gebana, Jonathas Baerle, a expectativa é de receber 8,5 mil toneladas de soja e 5 mil toneladas de outros produtos. "Entre os nossos principais desafios estão o controle de plantas daninhas, insetos e ferrugem, além da pesquisa pela geração de sementes não transgênicas e por equipamentos que auxiliem no manejo da soja orgânica", descreve Baerle, lembrando que a empresa presta assistência técnica aos produtores.