Reportagem de Capa

Agricultura brasileira: o MEIO AMBIENTE agradece

Por uma série de razões, muitas de origem mercadológica e até ideológica, não é raro os produtores brasileiros serem acusados de praticar uma agricultura irresponsável, que promove a degradação ambiental. Ainda que, realmente, são muitos os hectares mal conduzidos e com efeitos danosos a diferentes esferas da natureza, o Brasil pode ser considerado um exemplo de agricultura conservacionista. São muitas as práticas por aqui empreendidas pelos produtores e as iniciativas de instituições em prol da agricultura que faz muito bem ao meio ambiente. E quem ganha é o planeta

Leandro Mariani Mittmann
leandro@agranja.com

Alguém teria as seguintes informa- ções? Quais são as regras, as exi- gências, as leis para as Áreas de Prote- ção Permanentes (APPs) e Reservas Legais (RLs) na agricultura europeia e americana? Ou mesmo argentina ou chinesa? Por aqui, a legislação para as duas siglas já é cotidiana na vida dos produtores rurais, bem clara e rígida a partir da entrada em vigor do Có- digo Florestal Brasileiro (Lei nº 12.651)em 25 de maio de 2012. O compêndio de leis a que eles têm que se submeter para praticar a agricultura em conformidade com a preservação ambiental surgiu após exaustivas e acaloradas – e até ideológicas – discussões pelos mais diferentes segmentos da sociedade, e que quase sempre colocaram em lados opostos os agricultores, amparados pelas suas entidades classistas, e ambientalistas, normalmente representantes de Organizações Não-Governamentais (ONGs).

Nas propriedades rurais brasileiras, a APP é o espaço na propriedade rural que deve ser mantido protegido, coberto ou não por vegetação, e sem exploração agrícola, para preservar os recursos naturais (como a beira de rios), enquanto a RL é o ambiente coberto por vegetação nativa para servir como salvaguarda à biodiversidade da região (dentro do mesmo Bioma), e é de 80% na Amazônia, 35% no Cerrado e 20% no restante do País. Bem, e quanto aos questionamentos do parágrafo anterior? Simples de responder: as agriculturas dos Estados Unidos e dos países europeus, assim como as da Argentina, da China e de outros não se submetem a nenhuma condição de APPs e nem de RLs. Até porque, na Europa, por exemplo, a mata nativa de pé equivale a no máximo 0,2% do seu território, algo ínfimo perto dos 61% preservados no Brasil. Ou seja, como preservar o que nem existe mais?

E essa diferença que rege a produção agrícola aqui no Brasil em comparação a de outros países – estes muitas vezes competidores do Brasil pelos mercados globais de produtos agrícolas – incomoda demais quem é ligado à agricultura brasileira. A inquietação surge em um simples bate-papo entre produtores, em manifestações na imprensa, em encontros como congressos e seminários. "Ao produtor brasileiro são impostas inúmeras restrições ambientais, que muitos afirmam ser importantes ao mundo, como RL e APP. Temos o Código Ambiental mais restritivo do mundo. Nossos competidores argentinos, paraguaios, americanos e os demais não possuem essas restrições legais que são consideradas sustentáveis. Fica a pergunta dos produtores: por que o Governo brasileiro nunca cobra reciprocidade do mundo na questão ambiental?", questiona o produtor mato-grossense Glauber Silveira, presidente da Câmara Setorial da Soja e colunista d'A Granja. (Confira mais na entrevista dele nesta reportagem)

Na visão dele, a questão central é a disputa de mercado, visto que a agricultura brasileira tem obtido uma expansão sem igual no mundo nos anos recentes, e vai necessariamente conquistar o lugar de competidores. Até porque a Organização Mundial para Agricultura e Alimentação (FAO) aposta no Brasil para ampliar significativamente a produção global de alimentos até 2050, quando a população mundial terá passado de 7,5 bilhões para 9 bilhões de pessoas. Apenas o Brasil possui novas áreas aptas para a agricultura a serem usufruídas (sem botar abaixo florestas nativas). "A hegemonia da exportação dos EUA e da Europa se sente ameaçada pelo potencial brasileiro. Tanto que estamos ficando ricos sem desmatar mais nada, e já podemos dobrar nossa produção. Imaginem se pudermos abrir o que a lei ainda hoje permite... seríamos daqui a 30 anos os maiores produtores, e ainda com a maior floresta mundial", acrescenta Silveira.

ndial", acrescenta Silveira. E quando o assunto é a produção agrí- cola empreendida pelo agricultor brasileiro e a sua relação com o meio ambiente, tem outra questão que incomoda demais aqueles que transformaram o Brasil em um dos maiores produtores globais de alimentos: a acusação que a agricultura brasileira produz commodities afrontando a natureza. Seja pela exploração de ambientes naturais que deveriam ser preservados (como na Floresta Amazônica), pela utilização perdulária de água na irrigação, pelo mau uso dos solos agrícolas que acabam por provocar a poluição de rios e, mais recentemente, como a agricultura sendo uma geradora significativa de gases de efeito estufa a partir da emissão de carbono que provoca o aquecimento global. Sim, há muita agricultura praticada nesse País sem nenhuma responsabilidade. Porém, as iniciativas em prol de uma agricultura sustentável são tão consideráveis quanto a importância do agronegócio para a economia do País e também para a geração de alimentos para a humanidade.

SPD, a sigla que faz bem ao solo — São muitas as práticas agrícolas desenvolvidas em solos brasileiros que promovem a sustentabilidade ambiental. A começar pelo método de plantio inventado nos Estados Unidos, mas que por aqui foi aprimorado, e se encaixou perfeitamente ao jeito brasileiro de fazer agricultura, o sistema plantio direto na palha (SPD). A prática que prega o não-revolvimento do solo, a manutenção permanente de cobertura do terreno (com plantas vivas ou palhada) e a rotação de culturas que evita a danosa (para o bolso do agricultor e à natureza) erosão e favorece a vida física, química e biológica do solo. "O sistema plantio direto aumenta de forma exponencial a infiltra- ção de água no solo e não sobrecarrega os aquíferos", começa a lista dos benefícios do sistema o engenheiro agrônomo Ivo Mello, ex-presidente e hoje conselheiro da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha e Irrigação (Febrapdp), um entusiasta histórico do sistema. A consistente cobertura da superfície do terreno impede o impacto da chuva e facilita a infiltração.

O plantio direto evita a erosão, produz a providencial matéria orgânica e promove melhorias nas condições físicas, químicas e biológicas do solo

E a partir de diferentes cultivos, lembra Mello, ocorre a diversificação de "alimentos" aos micro-organismos que dão vida no solo, que são a biodiversidade desse ambiente. "Um bom sistema conservacionista com boa rotação contribui para que a matéria orgânica se armazene no solo", explica. "Matéria orgânica é sinônimo de carbono sequestrado da atmosfera. Gases do efeito estufa como o metano e o dióxido de carbono são matérias-primas para que as plantas, através da fotossíntese, acumulem matéria orgânica nos solos. Mexer, preparar e inverter camadas de solo aceleram a decomposição natural da matéria orgânica contribuindo para incrementar a concentração de gases do efeito estufa na atmosfera".

Portanto, explica Mello, o que o plantio direto com qualidade proporciona é um balanço de carbono positivo em relação a essas trocas entre atmosfera e solos, permitindo que uma maior quantidade de carbono, constituinte principal da matéria orgânica do solo, permaneça por mais tempo enriquecendo e estruturando o espaço das raízes.

No entanto, o "berço esplêndido" do monocultivo da soja, conforme define ele, adotada por muitos produtores em função dos históricos bons preços da oleaginosa como uma prática muito danosa à biodiversidade do solo, não promove os efeitos positivos mencionados. O cultivo continuado da mesma espécie e, portanto, com o mesmo perfil e raízes, tem como consequêcia a compactação do solo (o que prejudica a infiltração de água). Além disso, o milho, a cultura de verão alternativa à soja mais importante, além de produzir muito mais resíduo do que a soja, entrega ao solo uma palhada com características importantes para essa ciclagem de nutrientes proporcionada pelo incremento de matéria orgânica. "Uma rotação com cultivos de verão com valor econômico alternado associada a cultivos de inverno e primavera que proporcionem mais ciclos virtuosos de reciclagem de nutrientes é a ação que mais beneficia o incremento das qualidades físicas, químicas e biológicas de um solo".

Integração boi e lavoura: parceria conveniente — Entre as práticas agrícolas ambientalmente sustentáveis empreendidas pelo próprio produtor e que mais prometem fazer bem à natureza – e ao agronegócio brasileiro – está a Integração Lavoura-Pecuária (ILP) ou ILPF, com a floresta. O sistema possibilita usufruir mais eficientemente os terrenos agricultáveis, o que evita a abertura de novas áreas para cultivos ou pecuária, recupera áreas degradadas há décadas pela pecuá- ria extensiva, melhora sensivelmente as condições físicas, químicas e biológicas dos solos, o que diminui o uso de agroquímicos, e, sobretudo, reduz a emissão de gases de efeitos estufa. E ainda diversifica e agrega renda ao produtor de grãos ou pecuarista. As duas práticas integram o Plano ABC, pelo qual se almeja a adoção de ILP em 4 milhões de hectares, o que significaria a redução das emissões de carbono em 18 milhões e 28 milhões de carbono equivalente (veja quadro nesta reportagem).

João K: “A integração é a melhor maneira de proteger o ambiente e vai ser a maior revolução mundial para produzir alimentos para as novas populações mundiais em 2050”

"A integração é a melhor maneira de proteger o ambiente e vai ser a maior revolução mundial para produzir alimentos para as novas populações mundiais em 2050", decreta um dos maiores especialistas em ILP e ILPF do Brasil, o pesquisador da Embrapa João Kluthcouski, o João K. "Com ILP, o solo fica vegetado o ano todo. E verde, absorve CO 2", lembra ao mencionar que nos pastos novos no Cerrado as raízes das braquiárias novas e vigorosas chegam a cinco metros de profundidade. Essa planta jovem e em crescimento absorve carbono. "40% da raiz é carbono, e fica anos enterrada", sustenta. E no caso de ILPF, o tronco da árvore em crescimento absorbe carbono.

Ben Hur Cabrera, que pratica integração lavoura-pecuária há 13 anos: "Não tem como imaginar o produtor não fazer a integração"

Além isso, com pastagem nova e nutritiva, o boi, que é um emissor importante de metano, fica pronto para o abate na metade do tempo médio – ou dois anos e não quatro. "O boi precoce joga menos metano no ar. E o metano é 32 vezes mais nocivo que o CO 2", acrescenta João K. O pesquisador cita números de estudo do comparativo da emissão de metano em pastagem de qualidade, que seriam 47 gramas/quilo de peso vivo, e em pasto degradado, de 76 g/ kg de peso vivo.

João K resume os benefícios da integra- ção: 1) é agronomicamente muito eficiente, pois recupera o solo; 2) é socialmente justa, pois gera um emprego a cada 100 a 150 hectares ("um pecuarista cuida de mil bois", compara); 3) é ambientalmente favorável, pois não impõe novos desmatamentos; 4) é altamente vantajosa do ponto de vista econômico, pois promove renda ao agricultor ou pecuarista; 5) possibilita o manejo desde a matraca (usada pelo mini agricultor) até o avião (grande produtor). "De 1 a 5 milhões de hectares", diz. "Não tem jeito de não usar", sintetiza João K as vantagens do produtor de grãos agregar a pecuária ao seu negócio, ou o pecuarista investir em cultivos.

E faz uma crítica: "O pecuarista é o nosso problema. Ele é 'tecnofóbico'. 90% da pecuária é extrativista, não modernizada", lamenta. "Pecuarista tecnofóbico" definitivamente não é o caso de Ben Hur Carvalho Cabrera Mano, de Juara/MT. Sua origem é a pecuária, mas há 13 anos investe na ILP e há 5 a 6 na ILPF. "Não tem como imaginar o produtor não fazer (a integração)", ressalta. "Não tem mais degradação de pastagem", conta. "E tem boi para abate o ano todo", revela uma vantagem econômica. Inclusive em épocas em que há menos oferta de animais no mercado e, então, o preço está melhor.

Cabrera elenca algumas das vantagens do sistema, praticado em 700 a um mil hectares por ano nos 9 mil hectares que ele e a família produzem soja, milho e arroz: 1) diminuiu a operação de máquinas, o que, além de reduzir custos com diesel e desgaste, evita a emissão de poluentes; 2) a palhada conserva o solo e melhora suas qualidades; 3) o sistema bem praticado diminui o ataque de pragas e, portanto, a aplicação de defensivos tóxicos à natureza; 4) diminui a necessidade de fertilizantes químicos; 5) as árvores melhoram o bem- -estar animal e o desempenho em ganho de peso. O produtor revela que, em razão do El Niño, choveu menos na região, e foi flagrante a diferença dos efeitos na estiagem em terrenos descobertos e naqueles com boa cobertura. "Nas áreas em que estavam bem protegidos, a quebra de produção foi muito menor", avalia.

Iniciativas institucionais — São incontáveis as iniciativas em prol da preservação ambiental na agricultura brasileira. Seja em nível nacional, por parte de entidades e instituições classistas e do Governo federal, ou de governos estaduais, prefeituras, cooperativas e também de empresas privadas. A abrangência e a repercussão são globais, com efeitos na garantia de mercados internacionais, ou mesmo apenas locais, uma simples mas fundamental preservação de nascentes de água que dão vida a um riacho que cruza uma propriedade. A ONG internacional The Nature Conservancy elaborou em 2012 um amplo relatório em que descreve as iniciativas brasileiras em prol da produção sustentável de soja – o trabalho "Soja: Boas Práticas Agrícolas e Certifica- ção Socioambiental", lista 32 ações entre programas socioambientais e certificações que regiam, à época, a produção brasileira da oleaginosa.

Certamente uma iniciativa que colaborou decisivamente para o Brasil se tornar o segundo maior exportador de soja e derivados foi a Moratória da Soja. A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e a Associação Nacional de Exportadores de Cereais (Anec), com a parceria de Ministério de Meio Ambiente, Banco do Brasil e as principais ONGs ambientalistas, como Greenpeace e WWF-Brasil, estabeleceram, dez anos atrás, um controle rigoroso para evitar que fosse produzida a oleaginosa em solos desmatados da Floresta Amazônica. A partir de imagens e satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), é feito o monitoramento de onde sai a soja adquirida pelas principais empresas exportadoras, as tradings, que também são exigentes em relação ao trabalho degradante.

Dos 33 milhões de hectares cultivados com soja no País, menos de 10% localizam-se no Bioma Amazônico. E dessa área, apurou-se, apenas entre 0,7% e 0,8% é plantada em terreno desmatado – produção que não encontra comprador. Os números são de 2014, pois o relatório de 2015 está para ser anunciado. "O Brasil quer chegar ao desmatamento zero em 2020, 2025, o que nós praticamos desde 2006", lembra Bernardo Pires, gerente de Sustentabilidade da Abiove. As empresas são rigorosas ao não adquirir o grão e nem financiam a lavoura de produtor que tenha derrubado árvores para produzi-la. "Com certeza é a soja mais sustentável do mundo. É até covardia o nível de exigências entre a soja produzida no Brasil em comparação aos nossos concorrentes", avalia. "A gente consegue provar para o mundo, principalmente para a Europa, que de fato podem consumir a soja brasileira".

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) empreende programas que buscam orientar os produtores a preservar os recursos naturais da propriedade, e até agregar a renda, como o Projeto Biomas, coordenado pela entidade e executada pela Embrapa, que desenvolve pesquisas e experiências com árvores de acordo com os seis biomas brasileiros – Pampa, Pantanal, Amazônico, Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica. A ideia é ter claro quais são as espécies florestais indicadas para o cultivo nessas realidades, como deve ser o manejo, inclusive em relação aos tipos de solo, e até como o produtor pode obter retorno financeiro com a exploração comercial dessas árvores, sejam exóticas ou mesmo nativas, até via ILPF. O projeto vai ao encontro das obrigações do produtor para com o estabelecimento de áreas para APPs e RLs.

Cláudia Rabello, coordenadora executiva do Projeto Biomas CNA, lembra que é responsabilidade do produtor estabelecer as APPs, o que pode custar para ele entre R$ 8 mil e R$ 10 mil por hectare. "A maioria dos produtores não podem arcar com esses custos", avalia. Portanto, é importante que ele consiga explorar economicamente tal plantação. "O produtor tem retorno econômico na área onde tem obrigação ambiental. É uma alternativa para o produtor. A árvore como um elemento econômico na propriedade", justifica.

A CNA também é participante ativa do Plano Nacional de Agricultura de Baixo Carbono, a partir da orientação e capacitação de federações e sindicatos rurais e entidade filiadas e que congregam milhões de produtores. Pelo Plano ABC, são vários os objetivos a serem atingidos para que a agricultura e a pecuária façam a sua parte na mitigação do efeito estufa. "São tecnologias que já existem e eram usadas em escala menor", lembra Nelson Ananias, assessor técnico da entidade. "A CNA participa e incentiva, entendendo que o produtor é peça- -chave no cumprimento dessas metas", argumenta. A CNA, via entidades filiadas, presta orientações e facilita a elaboração de projetos para que o produtor consiga ter acesso ao dinheiro para financiar as práticas conservacionistas, que, além de tudo, lembra Ananias, possibilitam a diversificação da propriedade e, portanto, agregam renda ao agricultor.

Aurélio Pavinato, da SLC Agrícola, com certificação ISO 14001 em fazendas: “Queremos cada vez mais dar origem a um produto de forma sustentável. Vai agregar à marca Brasil”

Soja Plus — Há também uma infinidade de iniciativas de entidades mantidas pelos produtores. Um exemplo é a Soja Plus, da Associa- ção dos Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso (Aprosoja/MT). O objetivo é prestar aos filiados orientações e capacitação para que eles façam uma boa gestão da propriedade quanto à saúde e à segurança na atividade, para que produzam de forma sustentável dos pontos de vista econô- mico, social e também ambiental. O programa capacita gratuitamente os agricultores a partir da distribuição de cartilhas e realização de cursos, dias de campo, visitas técnicas e monitoramento de indicadores de desempenho. As boas iniciativas dos produtores são compartilhadas com os demais.

O Soja Plus, iniciado em 2011 e que já orientou mais de 1.200 produtores em quatro estados, tem a parceria de outras instituições e entidades. "A questão ambiental já está entre as metas do Soja Plus desde a sua criação e não apenas no cumprimento do Código Florestal. Temos a questão dos resíduos, da conservação de recursos naturais e boas práticas. Às vezes, as pessoas acreditam que falar de sustentabilidade é falar de desmatamento e Reserva Legal, mas não é só isso. É preciso ter uma visão macro da propriedade rural", esclarece Cid Sanches, gerente de Planejamento da Aprosoja/MT.

Gestão Ambiental ISO 14001 — Independentemente de projetos e programas de entidades, instituições, empresas e governos, os produtores também têm buscado melhorias ambientais em seus sistemas. A SLC Agrícola, que cultiva mais de 377 mil hectares de soja, milho, algodão e trigo irrigado em 14 unidades sediadas em seis estados, já obteve para cinco dessas fazendas o Sistema de Gestão Integrada (SGI), que engloba a certificação pelo Sistema de Gestão Ambiental ISO 14001, além da NBR 16001 (responsabilidade social) e OHSAS 18001 (saúde e segurança ocupacional). E a projeção da empresa é que as demais nove unidades conquistem o SGI até 2020.

A quinta e mais recente conquista ocorreu na fazenda Pamplona, localizada em Luziânia/GO, no mês passado, onde são cultivados 18 mil hectares. Para se obter o SGI, foi necessário cumprir (e mostrar para auditoria) rigorosos e intransigentes 1.400 itens, das mais variadas exigências.

Na operação de troca de óleo lubrificante da máquina na lavoura, por exemplo, caso o produto derrame no chão, é necessário recolher a terra em volta do óleo, é preciso fazer a reciclagem do lixo da propriedade e dar destino correto aos resíduos, e o pó expelido no processamento do algodão não pode ser solto no ar, mas sim captado e descartado. O Grupo SLC ainda participa e tem certificações internacionais de uma série de programas de responsabilidade ambiental, como a soja RTRS (Round Table on Responsible Soy), o Algodão Brasileiro Responsável (ABR) e assim por diante.

 

Na verdade, para receber as certificações, a empresa apenas precisou fazer alguns ajustes e adaptações do que já vinha sendo desenvolvido. Naturalmente, a SLC Agrícola cumpre a legislação ambiental brasileira, e destina 111 mil hectares para APP e RL (área quase do tamanho da cidade do Rio de Janeiro). "A certificação bota o carimbo de produto sustentável", sintetiza Aurélio Pavinato, diretor-presidente da SLC Agrícola.

"Queremos cada vez mais dar origem a um produto de forma sustentável. E a certificação representa isso. Vai agregar à marca Brasil", acrescenta. "O objetivo é impactar as gerações futuras, sendo nós líderes mundiais em eficiência no negócio agrícola e respeito ao planeta". A SLC Agrícola é a primeira do setor no Brasil a obter as três certificações.

Outra iniciativa em favor da produ- ção agrícola preservacionista igualmente premiada foram as ações de Renata Alves Pereira Ribeiro, que com o marido cultiva soja, milho, sorgo e feijão na propriedade de 900 hectares entre Rio Verde e Montividiu, em Goiás. O dedicado trabalho deles para produção e preservação venceu o 8º Prêmio Gestão Ambiental Rural promovido pela cooperativa Comigo, em 2015. Plantio direto, rotação de culturas, uso racional de defensivos, licenças ambientais (inclusive para os dois pivôs, que ocupam 224 hectares) e proteção de nascentes foram considerados. "Foi o trabalho de muito tempo. Não tive que modificar nada", comenta Renata sobre a obtenção da premiação, que passou pelo crivo de cinco engenheiros agrônomos da cooperativa que visitaram agricultores de 13 municípios.

"Quando se trabalha com o meio ambiente, você é o beneficiado", lembra a produtora, que justifica no empenho em produzir com respeito à natureza a razão da premiação. "O importante é fazer a sua parte", fala, ao mencionar que a propriedade foi adquirida pelo pai em 1985, e agora é a vez dela de preservá-la, talvez para os filhos Guilherme, 12 anos, e Gabriel, 9, se eles ficarem no campo. "A gente pensa em deixar para eles. Não é para nós. É para o planeta. A gente precisa mudar é dentro de casa mesmo. Não pensar só no que você vai ganhar", considera a engenheira agrônoma por formação. "Se não for com amor, não vai para a frente. Eu faço porque gosto". E Renata deixa uma dica oportuna: "Se só pensar em si, vai ficar essa bagunça que está o Brasil hoje". O raciocínio dela e de todos os que se empenham por uma agricultura conservacionista lembra o seguinte provérbio indiano: "Não herdamos a terra de nossos ancestrais. Nós a pedimos emprestada de nossos filhos"


"O Brasil tem moral de sobra em sustentabilidade"

Glauber Silveira, produtor no MT, presidente da Câmara Setorial da Soja, diretor da Aprosoja e colunista d'A Granj

A agricultura brasileira tem feito sua parte para a preservação ambiental? Por vezes, o setor é acusado de destruidor da natureza...

Uma das perguntas que sempre faço aos "ongueiros" (integrantes de ONGs ambientalistas) é quanto uma floresta adulta incorpora ou captura de carbono da atmosfera? Muito pouco, afinal, para se captar carbono, a planta tem que estar crescendo. No caso de uma floresta adulta, isto já não acontece. Não que a floresta não deva permanecer ali, adulta.

O que quero dizer é que uma agricultura feita com responsabilidade, dentro das tecnologias de manejo de baixo impacto, promoverá um saldo ambientalmente positivo. Ao produtor brasileiro são impostas inúmeras restrições ambientais, que muitos afirmam serem importantes ao mundo, como Reserva Legal (RL), Área de Preservação Permanente (APP), etc. Temos hoje o Código Ambiental mais restritivo do mundo. Nossos competidores argentinos, paraguaios, americanos e os demais não possuem essas restrições legais que são consideradas sustentáveis. Então, fica a pergunta dos produtores: porque o Governo brasileiro nunca cobra reciprocidade do mundo na questão ambiental? O Brasil precisa continuar cobrando que a sustentabilidade seja vista como deve ser, com três bases fundamentais: a ambiental, a social e a econômica. O Brasil tem moral de sobra em sustentabilidade. Resta saber se erguerá a cabeça com orgulho ou continuará se subjugando a uma meia dúzia de ONGs que representam os verdadeiros vilões.

Muito se fala que as ONGs teriam outras intenções, como barrar o crescimento da agricultura brasileira...

O povo brasileiro infelizmente não consegue ver o que tem por trás de toda essa apologia. As ONGs, com competência, vendem muito bem isso. Afinal, quem vai ser contra se preservar a natureza. E nós, os produtores, temos sido falhos na comunicação, em mostrar a importância de se produzir preservando, gerando riqueza, comida para todos em perfeita harmonia com o meio ambiente. Na guerra da comunicação estamos perdendo, afinal, com dinheiro internacional e uma boa pegada ideológica, fica fácil. Se tivéssemos dinheiro ou ao menos união do setor para mostrar o Brasil sério que preserva mais de 60% de suas florestas... Infelizmente, dá mais ibope pregar o caos do que mostrar o Brasil que produz e que tem feito o nosso País crescer.

Mas qual tem sido compromisso do mundo com a preservação do meio ambiente?

O compromisso mundial parece ser eles produzirem lá e os produtores preservarem aqui. Aí ficam os produtores como vilões ambientais, subjugados por interesses internacionais, interesses econômicos que querem que não aumentemos nossa produção. Afinal, a hegemonia da exportação dos EUA e da Europa está ameaçada pelo potencial brasileiro. Sem ter que desmatar mais nada já podemos dobrar nossa produ- ção. Imaginem se pudermos abrir o que a lei ainda hoje permite... seríamos daqui a 30 anos os maiores produtores, e ainda com a maior floresta mundial.

A campanha mundial é que o Brasil seja a reserva florestal do mundo. E alguns entes do Governo brasileiro, aliados a ONGs, têm feito esforço para isso, não só para impedir que se desmate mais, mas também para que áreas produtivas retornem a serem florestas.

E não há nenhuma contrapartida para o Brasil promover a preservação?

Se ao menos o povo brasileiro fosse receber pela floresta em pé, seria até interessante. Mas, infelizmente, o Brasil tem renunciado a esse benefício, já que pelas leis internacionais as reservas florestais instituídas pela lei do país não podem ser remuneradas. Isso justifica o empenho das ONGs que representam os maiores poluidores mundiais, em aumentar legalmente as reservas florestais brasileiras. Assim ninguém precisa pagar para preservarmos. O correto seria termos um código ambiental mundial, único, com as mesmas regras para todos os países. O xis da questão é o seguinte: mais do que ajudar a alimentar o mundo de 2050, no que certamente caberá ao agro brasileiro um papel central, o Brasil é um dos poucos países de clima tropical que reúne as condições necessárias para construir o caminho da agricultura de baixo impacto.


Plano ABC: o mundo espera muito do Brasil

A agropecuária é o setor econômico no Brasil que mais emite gases de efeito estufa, com 61% (era 82% em 2000). E representa 27% do total do Brasil. Na conta entra o uso de energia e a geração de resíduos, não apenas os cultivos e as criações. No entanto, é no setor que se espera a maior contribuição para a mitigação, a partir de uma série de ações, elencadas no Plano de Agricultura de Baixo Carbono, o Plano ABC, lançado em 1º de julho do ano passado (veja quadro com as metas do plano). Algo estimado pelo Observatório ABC em 1,8 bilhão de toneladas de carbono até 2023, ou mais de dez vezes a meta estipulada pelo Plano ABC. Para atingir os objetivos propostos, desde 2013 o Governo Federal destina recursos no Plano Agrícola e Pecuário para o Programa de Agricultura de Baixo Carbono, com juros e prazos facilitados, além de capacitar técnicos para orientar os agricultores.

Conforme um dos maiores especialistas em aquecimento global, o pesquisador da Embrapa Eduardo Assad, a agropecuária é um dos únicos setores da economia que tem condições de inverter a pegada de carbono em curto espaço de tempo. Assad menciona que o “estoque tecnológico” da agricultura brasileira permite triplicar ou quadriplicar a produção sem precisar de áreas de floresta. “Se fizer bem feito (a agricultura), consegue proteger o meio ambiente e os solos seguem se enriquecendo e promovendo a proteção da biodiversidade”, atesta. Para ele, a agricultura não precisa Aurélio Pavinato, da SLC Agrícola, com certificação ISO 14001 em fazendas: “Queremos cada vez mais dar origem a um produto de forma sustentável. Vai agregar à marca Brasil” Leandro Mariani Mittmann despertar na sociedade o maniqueísmo entre o bem e o mal, mas sim viver em equilíbrio. “Tem que mudar o sistema produtivo”, fala, ao mencionar, por exemplo, o uso excessivo de defensivos e outras práticas mal feitas que, por exemplo, não promovem a produção de matéria orgânica no solo, o habitat para micro-organismos.

“O plantio direto consegue fixar 500 quilos de carbono por hectare por ano”, estima. No entanto, lamenta que, dos 33 milhões de hectares cultivados sob plantio direto, “10% tem qualidade”, conforme sua estimativa. É que o produtor tem esquecido regras elementares do plantio direto, como a formação de uma consistente palhada, da rotação de culturas e de medidas para evitar a erosão, como o estabelecimento de terraços.

Já as pastagens bem conduzidas sequestram carbono, bem ao contrário dos pastos degradados, que emitem CO2. “Na ILPF, aumenta ainda mais o sequestro de carbono no solo”, esclarece. E, quando é promovida a rotação de bois nas pastagens, há o aumento da lotação de animais por hectare/ano, o que diminui a pressão por novas áreas. De acordo com Assad, dos 170 milhões de hectares de pecuária no País, 48 milhões estão degradados, portanto, pouco produtivos e emissores de CO2. “Em 30 anos, todo o agricultor no Brasil vai produzir em ILP”, aposta.


As seis metas do Plano de Agricultura de Baixo Carbono (ABC)

1. Recuperação de pastagens degradadas

Com o avanço do processo de degradação, verifica-se perda de cobertura vegetal e a redução no teor de matéria orgânica do solo, o que causa a emissão de CO2. Com a recuperação das pastagens, via semeadura, adubação e manejo adequado, inverte-se o processo e o solo passa a acumular carbono. Assim, reduz-se em pelo menos 60% a emissão de CO 2 no sistema. A meta do Plano ABC é induzir a recuperação de 15 milhões de hectares de pastagens.

2. Integração Lavoura-Pecuária (ILP), Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e Sistemas Agroflorestais (SFAs)

O alto teor de matéria orgânica na superfície do solo é um dos principais benefícios do sistema integrado, uma vez que melhora as condições físicas, químicas e biológicas do solo. A adoção do sistema ILP promove fixação de carbono no solo pelo grande aporte de resíduos vegetais que produz. A meta do Plano ABC é levar a adoção da ILP em 4 milhões de hectares, o que corresponde a uma redução de emissões de 18 milhões a 28 milhões de toneladas de CO 2 equivalentes ou mais.

3. Sistema Plantio Direto

No sistema de plantio direto, o solo é revirado o mínimo possível, e a cobertura de palha da safra anterior é mantida e o intervalo entre a colheita de uma safra e a semeadura da seguinte é reduzido ou eliminado. Tudo contribui para a conservação do solo e da água, o aumento da eficiência da adubação, o incremento da matéria orgânica, a redução do uso de defensivos e diesel e fertilizantes químicos.

4. Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN)

A fixação biológica de nitrogênio é o processo pelo qual o gás N2 atmosférico é capturado por bactérias e convertido em nutriente para as plantas. A captura do elemento é realizada por bactérias dos gêneros Rhizobium ou Azorhizobium, que vivem em simbiose com a planta, habitando nódulos em suas raízes. A FBN tem papel relevante na redução da emissão de gases de efeito estufa relacionados à fabricação e ao uso de adubos químicos.

5. Florestas plantadas

A plantação de florestas nas propriedades contempla diversos objetivos, desde promover renda de longo prazo para o produtor até aumentar a oferta de madeira. O compromisso de reflorestamento com espécies dos gêneros de Pinus e Eucalyptus nos próximos dez anos é de 3 milhões de hectares. Então, ao final, a contribuição do setor será de reduzir aproximadamente entre 8 milhões e 10 milhões de toneladas CO 2, sequestrando-o na biomassa das árvores.

6. Tratamento de dejetos animais

A correta destinação dos efluentes originados da criação de animais tem constituído um importante condicionante da regularidade ambiental das propriedades. Os processos de biodigestão e compostagem já são conhecidos e proporcionam a redução de custos de produção, por evitar o consumo de energia e insumos químicos e diminuir os riscos para o ambiente, bem como reduzir a emissão de gases de efeito estufa, além de gerar energia pelo biogás. O Plano ABC se propõe a disponibilizar os investimentos e a infraestrutura adequada e necessária para a adoção dessas tecnologias.