Na Hora H

 

JÁ SE PODE ENXERGAR O FUNDO DO POÇO?

ALYSSON PAOLINELLI

Parece que as coisas no País que todos nós chamamos de crise ca- minham para uma nova solução. Solução? Esperamos que sim. O que não pode mais é continuarmos à espera do que ninguém sabe o que. De um lado, a expectativa de que a crise política, ou melhor, os nossos políticos vão se acomodar em novos grupos. O que não pode acontecer é que essas novas aglomerações não sejam capazes de governar. Governar com G maiúsculo. Governar com G maiúsculo é garantir seriedade, honestidade, capacidade de planejar estrategicamente as soluções que o País precisa e, sobretudo, ser capaz de executar o proposto e, esperamos, o aprovado pela população, em que todos possam levar a sério as metas e os resultados a serem alcançados.

Afinal, estamos em um país que tem recursos naturais, competências científicas e tecnológicas capazes de transformar esses recursos em riquezas que o País precisa, sem que haja as degrada- ções, os desperdícios ou abandono indesejáveis. Isso já demonstramos com o nosso setor agrícola, que hoje goza de prestígio internacional, inclusive pelo reconhecimento de que alguns dos nossos biomas antes considerados improdutivos e hoje recuperados se transformaram no grande celeiro mundial.

Esse exemplo só se faz com muito trabalho, fé, confiança e obstinação, para não se perder nas discussões estéreis e até mesmo fúteis, que tentam impedir o avanço do progresso de nossos conhecimentos e inova- ções que estamos realizando e, com isso, dando ao mundo a garantia de uma segurança alimentar para as populações que conseguem aumentar as suas rendas e entrar na economia de consumo. E também aos mais de 2 bilhões de novos seres que são esperados até o equilíbrio populacional do mundo, em torno de 2050.

Esse esforço não pode ser barrado ou impedido por questiúnculas políticas ou ideológicas que no fundo não querem as grandes soluções para os grandes problemas. Será que chegaremos a essa fase ou etapa do nosso crescimento? De fato é difícil. Para isso, é indispensável que a malandragem, a tapeação, o roubo de uma ratazanada que infelizmente ainda persiste no Brasil seja totalmente extirpada. Diante disso, temos de contar com o Poder Judiciário competente, inflexível, isento e que leve até o fim as suas responsabilidades.

O Poder Legislativo tem de demonstrar as sua verdadeira origem em seus distritos eleitorais e que participe honestamente desse esforço de recuperação de sua pátria, tendo na sua representatividade a marca do compromisso que deve ter com os seus lidera dos. O Executivo, a essa altura do jogo, não tem firulas para a plateia. O jogo é duro. As medidas terão de ser adequadas a cada caso, mesmo que impopulares. O que se tem de fazer não é um jogo para se ganhar o Poder, mas sim uma dura peleja de um projeto de Nação.

Onde nós, os produtores rurais, ficamos? Teremos de participar. A começar pela exigência que se não malversem os recursos públicos destinados a uma política agrícola que foi destruída há mais de 30 anos. Esses recursos têm de ser transparentes e não somente como cifras de anúncios de Plano de Safra que não é cumprido e só serve para encher as mídias com mentiras não realizáveis. Esses recursos têm de chegar inflexivelmente ao setor produtivo, permitindo que um milagre da produção se realize pelo pequeno, pelo médio e pelo grande produtores através de inovações bem assistidas e orientadas onde se consigam os necessários aumentos de produção e produtividade. Esse dinheiro deverá servir também para garantir o preço mínimo, como foi em décadas anteriores, para garantir também um seguro de produção e, o que é mais desejá- vel, para que esse produtor não fique ao relento nas intempéries do clima ou do mercado.

A nossa pesquisa hoje vitoriosa na conquista de uma nova agricultura tropical do globo tem de continuar a ser assistida não só com recursos suficientes, mas também e principalmente por um verdadeiro apoio político que estimule os nossos cientistas, professores e doutores a continuar na ingente tarefa de fazer evoluir essa nova agricultura da qual o mundo depende. O nosso relacionamento com o Governo tem de ser em níveis elevados nos quais qualquer dependência seja resolvida para solução dos problemas que ainda vamos enfrentar e nunca, nunca mais em uma relação espúria de faz de conta onde cada um deseja enganar o outro.

As nossas lideranças que estão calejadas vão aos poucos aprendendo que quem faz o Brasil não são governos, quem faz o Brasil são aqueles que são capazes de transformar recursos naturais em riquezas palpáveis, para que todos se beneficiem delas como ocorreu entre as décadas 1980 e 2000, quando o preço da alimentação em nosso País caiu 70%, e cada família que gastava praticamente a metade de sua renda só em alimentação, ao fim desse período, não gastava mais do que 14% a 18%. Esse sim é um milagre que precisamos aprender com quem teve competência, amor pela sua terra e gerou as riquezas que ainda hoje nos mantém com esperança de sermos um país grande.

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura