O Segredo de Quem Faz

 

ECONOMIA aplicada ao campo

Denise Saueressig
denise@agranja.com

Filho de pecuarista e leiloeiro, seria natural se Antonio da Luz trabalhasse no campo. Mas ele admite que nunca gostou de ir para a fazenda em Quaraí/RS, onde passou a infância. Quando os remates do escritório do pai aconteciam, a distração era acompanhar os números das vendas de animais. Logo a diversão foi entendida como vocação e a faculdade de Economia foi o passo seguinte. Mas a ligação com o setor continuou e ele iniciou a carreira aos 18 anos como estagiário na Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul). Agora, aos 35 anos, cursando doutorado na área, Luz é o economista-chefe do Sistema Farsul, onde lidera uma equipe que trabalha em grandes temas que impactam a realidade do produtor brasileiro.

A Granja – Como essa trajetória na Farsul colaborou para a sua formação como economista?

Antonio da Luz - Tive uma oportunidade muito rara, que é iniciar uma faculdade e estagiar em uma assessoria econômica em uma potência como a Farsul, que me permitiu ter acesso a discussões importantes e direcionar meu conhecimento para o agronegócio. Terminei a faculdade na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), fiz o mestrado também na UFRGS e agora faço meu doutorado na PUC/RS (Pontifícia Universidade Católica). Tudo isso enquanto trabalho na Farsul, ou seja, o agronegócio faz parte da minha vida. Entrei como estagiário, fui auxiliar, assistente, analista, economista e sou economista-chefe desde 2009. Presenciei uma fase muito importante do setor, com seu grande crescimento, mas também com seus momentos de dificuldades. Trabalhei intensamente na renegociação das dívidas dos produtores devido à seca na safra 2011/2012, quando os gaúchos perderam metade da produção de soja. Passava muito tempo em Brasília e ajudei a escrever as resoluções do Banco Central que saíram para renegociar as dívidas. O presidente Sperotto (Carlos Sperotto, da Farsul) articulava politicamente, enquanto eu conversava com os técnicos. Se não tivéssemos feito isso não teríamos o agronegócio que temos hoje, não haveria essa capitalização, não haveria crédito. É uma pressão forte, são episódios bem marcantes. Olhamos no olho do produtor e ele não fala nada, mas sabemos que, se ele precisar sair do setor, não terá o que fazer da vida.

A Granja – Os números mostram em 2015 a maior queda no PIB brasileiro em 25 anos, enquanto o PIB agropecuário foi o único que apresentou alta. Podemos apostar na continuidade desse cenário em 2016?

Luz – Acredito que não. A safra 2015/ 2016 vai ser marcada pelo El Niño, que provocou excesso de chuva no Sul, prejudicou o plantio do arroz, atrasou o plantio da soja, mesmo com notícias de recuperação. Também em algumas regiões os 20 dias de janeiro sem chuva complicaram as lavouras. A falta de chuva também atrasou o plantio da soja no Centro-Oeste. Então, é provável que tenhamos uma safra de milho atrasada. Não posso, diante de uma situação dessas, comparar uma safra 2015 que foi dentro da normalidade, apenas com perdas regionais, com essa projeção para 2016. Acho que não devemos esperar um desempenho tão bom em função das questões climáticas. Sem dúvida os produtores fizeram o possível, porque houve aumento de área plantada, mas o cliclima deixará a produção crescer? O produtor ampliou, investiu sua melhor tecnologia, mas temos a variável do clima.

A Granja – No Rio Grande do Sul, a situação mais complicada deverá ser entre os produtores de arroz?

Luz - Em média, os preços de 2015 foram melhores do que os de 2014 para o arroz. Isso dá a impressão que 2015 foi melhor do que 2014. Mas não foi, porque a rentabilidade depende também da sazonalidade, de quando a produção foi vendida. Por uma negligência ou inabilidade do Governo, em 2015, os produtores não tiveram acesso ao pré-custeio. Assim, o produtor que contava com esse recurso, quando não teve, precisou vender sua colheita para fazer caixa. Houve muita venda no período imediatamente após a safra e o mercado ficou superofertado. Uma parte importante foi vendida bem abaixo dos custos em 2014/2015. Na atual safra, quem colher arroz, provavelmente vai vender com uma margem muito apertada, mas pelo menos não terá prejuízo. Mas o produtor que não vai colher, aquele que vai sofrer essa perda estimada de 1,5 milhão de toneladas, terá um problema grave. E provavelmente a maior parte das pessoas que tem essas perdas são as mesmas que mais sofreram com a falta do pré-custeio. O preocupante é ver a formação de um bolsão de endividamento bastante severo em algumas regiões.

A Granja – Qual é o impacto da alta dos custos para os arrozeiros?

Luz - Quando olhamos os preços nominais do arroz, historicamente eles estão bons, mas tivemos os maiores custos desde a implantação do Plano Real, com alta de mais de 25%. A safra foi caríssima. Antigamente, quando pensávamos em vender a saca do arroz a R$ 42, era um luxo. Agora, empata. E para muitos, nem empata. Não conseguimos repassar esses aumentos provocados por fertilizantes, agroquímicos, câmbio, energia elétrica e óleo diesel. A alta do combustível ocorreu por conta do “petrolão”, pelo saque da Petrobras. Os acionistas exigiram, para que a Petrobras não quebre, o aumento no preço dos combustíveis, apesar de o barril do petróleo estar uma “banana” no mercado internacional. O barril já chegou a custar US$ 140 e hoje está na casa dos US$ 30. O combustível no mundo inteiro está caindo, menos no Brasil e na Venezuela. Também houve aumento da energia elétrica por falta de planejamento do Governo Federal. O produtor pagou o dobro da energia, foi 106% de aumento. E o custo de irrigação, que é água e energia, é o principal custo da lavoura de arroz.

A Granja – Para a soja, qual a recomendação para a negociação da safra, considerando esse momento de instabilidade do câmbio?

Luz – Lembro que em setembro, antes do plantio, fizemos um alerta aos produtores. Falamos que em 2015 houve uma supersafra de soja no mundo. Os Estados Unidos aumentaram em 17% a produção e o Brasil, em 11%. O mundo aumentou em 13% e é muito incomum que isso ocorra. Houve uma superoferta no mercado. Os EUA cresceram, mas eles conseguem escoar a produção com grande eficiência, de maneira rápida e barata.

O produtor brasileiro precisa tirar do meio do lodo a sua safra, que vai balançar por 2,5 mil quilômetros até um porto e aí vai enfrentar uma fila quando chegar ao porto. Os EUA sabiam da supersafra, começaram a diminuir estoques e o preço da soja baixou antes da colheita da supersafra. A chegada de 2016 trouxe uma safra igual nos EUA, com aumento no Brasil e o grão cai para US$ 8,80 o bushel, praticamente a metade do valor que chegou em 2012, quando passou de US$ 16. Além de o preço despencar no mercado internacional, surge a turbulência política no Brasil. Tiraram-se os esqueletos do armário no que diz respeito não apenas à corrupção, mas à política econômica quando se descobrem as pedaladas e a maquiagem da contabilidade criativa. Saímos de um superávit primário falso para um déficit real de R$ 120 bilhões.

Quando se revela isso para o mercado, as agências de risco tiram o grau de investimento do Brasil, porque um país que gera déficit vai quebrar. E quando isso acontece, a taxa de câmbio explode. O mercado percebe o Brasil de verdade. Quando o câmbio sobe, levanta o preço da soja, ao contrário do que ocorre na Bolsa de Chicago. O câmbio aumenta o preço e incentiva a aumentar a oferta. O preço sinaliza para aumentar, mas na verdade deveria diminuir, que é o que os EUA devem fazer na próxima safra. Variações na taxa de câmbio são terríveis para a economia, porque criam ilusão e riscos. Em setembro falamos aos produtores que eles estavam plantando a safra mais cara da história e que não sabíamos como os preços estariam na hora da colheita. Mostramos ao produtor que o valor da saca de soja era R$ 45.

O resto era câmbio. E o nosso controle sobre o câmbio é zero. Então, a recomendação é: travar a venda na bolsa. É onde os produtores norte-americanos fazem negócios há 150 anos. O ideal é travar a soja e o câmbio, com contratos futuros ou com opções. Aí, alguns produtores falam: “Ah, mas não sei fazer isso”. Então, aprende. Ou negocia com uma cooperativa ou cerealista que trava na bolsa. Faça esse negócio com pessoas, empresas e cooperativas sérias. Não vale a pena por causa de R$ 2 arriscar perder R$ 15 ou R$ 20. Recomendo todo conservadorismo do mundo nessa hora. O produtor pode até ganhar muito especulando, mas se perder, vai perder muito dinheiro. A pergunta que precisa ser feita é: você é produtor rural ou especulador?

A Granja – Quando pensamos na safra 2016/2017, qual a perspectiva em relação aos custos de produção?

Luz - Considerando números de fevereiro, haveria um aumento de 16% nos custos da soja. Nossa sugestão é: conheça bem seus custos de produção. Fazendo isso, o produtor terá uma série de acompanhamento. Ele consegue perceber claramente que existe sazonalidades para os produtos que compra. No fertilizante, o melhor momento para comprar tem sido o mês de maio. É preciso aproveitar esses momentos e organizar o fluxo de caixa para ter dinheiro quando os insumos estão em baixa. A lucratividade de uma safra não inicia quando se vende bem, mas quando se compra bem. Este ano não sabemos se maio será o melhor mês para comprar, justamente pela variabilidade da taxa de câmbio. Mas sabemos que nos últimos dez anos o melhor mês foi maio. Em meio à incerteza, eu apostaria naquilo que tenho certeza.

A Granja – Qual a orientação para o produtor que está pensando em concretizar um investimento mais significativo, como a compra de uma máquina, por exemplo?

Luz - Não é por causa da crise que ele não tenha que investir e não é por causa da bonança que ele tem que investir. A decisão depende dos custos e das receitas marginais. O custo marginal é o custo de produzir uma unidade a mais e a receita marginal é o que vou obter a partir dessa produção a mais. Ou seja, é preciso olhar nas margens. O que já vi muito acontecer é um produtor que precisa de um trator de 90cv. Só que ele escolhe um trator de 220cv porque vai aproveitar que os juros estão baixos. Só que 130cv não estão sendo remunerados e ele está pagando por isso. Máquinas são bens de capital, logo, precisam estar otimizados para o processo produtivo. Se com determinado investimento o aumento da receita for maior do que o aumento do custo, ele vai aumentar o lucro. O produtor precisa lucrar, sobretudo, na crise.

A Granja – A Farsul vem trabalhando com seus próprios indicadores, como o Índice de Inflação dos Custos de Produção (IICP) e o Índice de Inflação dos Preços Recebidos pelos Produtores Rurais (IIPR). De que maneira essas informações colaboram para o desenvolvimento do setor?

Luz - O agronegócio é um setor muito pouco pesquisado cientificamente e uma das grandes razões é a falta de índices. Quando não existem índices, os formadores de políticas econômicas têm mais dificuldades para olhar os problemas daquele setor. Por isso criamos os índices, para o produtor compreender de forma agregada o que acontece no setor e para que nós, como entidade, possamos ter um diálogo mais técnico com o Governo. Criamos os índices de inflação de custos, de preços recebidos e de comércio exterior. Também estamos criando o índice de confiança do produtor. Trabalhamos também o índice de crescimento de consumo mundial, de projeção da produção para os próximos dez anos, continente por continente, para entender o que acontece no mundo para saber o que temos que fazer para nos posicionarmos melhor, pensando no amanhã. Os investimentos demoram para acontecer. Não podemos olhar apenas para os problemas de hoje. É preciso tentar projetar o futuro de forma global para nos prepararmos para competir. São informações estratégicas.

A Granja – Ouvimos falar nos últimos meses sobre a possibilidade de tributação das exportações no Brasil. Que tipo de impacto essa medida poderia ter sobre o agronegócio?

Luz – Em primeiro lugar, não se tributa exportação, essa medida vai contra as orientações da OMC (Organização Mundial do Comércio). Existem estudos de mais de um século que mostram que os países que tributam exportações vão se afastando do mercado global e se tornam uma ilha de subdesenvolvimento. O Brasil querer tributar as exportações é algo descolado da realidade e não resolve o problema dos estados. Quem disse que vai aumentar a arrecadação? Se acontecer o que aconteceu com a Argentina, provavelmente vamos reduzir nossa produção. Os governadores subestimam o impacto que isso teria na redução da produção e estão subestimando o efeito disso na geração de impostos. Na Argentina, as chamadas “retenciones” foram mantidas com o pretexto de controlar a inflação, manter os preços baixos dos alimentos para o consumidor doméstico, promover a equidade social e proteger e fomentar a indústria local. Um estudo que elaborei sobre o tema mostra que as retenções não seguraram a inflação e, por coincidência ou não, na época em que não existiam, a inflação era baixa. O preço da cesta básica também continuou aumentando.

Em relação à equidade social, segundo o Banco Mundial, na América Latina, a Argentina foi o país que mais reduziu a desigualdade, em 21%. Só que a inversa do Coeficiente de Engel, que é um fator para medir a pobreza, aumentou na Argentina. O país ficou mais igual, mas mais pobre. Sobre a produção de alimentos pela indústria: de 1961 até 2004, a Argentina produzia mais do que o Brasil.

A partir de então, a Argentina passou a andar de lado e o Brasil cresceu. Se olharmos a produção de alimentos depois das retenções, a Argentina cresceu 3%, o Brasil cresceu 23% e o mundo cresceu 16% de 2007 a 2013. Quando olhamos o desempenho da indústria que fabrica óleo de soja, subprodutos da soja e farinha de trigo, todas tiveram desempenho horrível. A área plantada com soja no Brasil aumentou 61% e na Argentina, 23%.

No mundo, aumentou 28%. No trigo, o Brasil aumentou 39%, e a Argentina diminuiu 39%. Eles tiveram a menor área plantada de trigo em 110 anos. Em 2005, para cada máquina vendida aqui, outra era vendida lá. Ano passado, para cada máquina vendida lá, aqui eram vendidas 4,64. Então, é isso que queremos para o nosso País?