Eduardo Almeida Reis

 CLIMA

EDUARDO ALMEIDA REIS

Em alguns lugares ainda é possível viver a salvo de problemas como a violência e a crise econômica, mas não existe, em toda a Terra, um metro quadrado livre dos fenômenos climáticos. Na roça, então, é que a gente vê a importância do clima para plantar, cultivar, colher, sobreviver, enricar ou quebrar.

Por conta da previsão do tempo, contamos hoje com uma parafernália tecnológica inimaginável há 50 anos, o que não impede que as televisões brasileiras só raramente acertem suas previsões. Explicação: o País é muito grande e certos fenômenos são difíceis de prever e mesmo de explicar, como o vendaval do final de janeiro em Porto Alegre com as consequências que o Brasil inteiro viu pela tevê e milhares de porto- alegrenses sofreram na pele. Portugal tem 92 mil km2 e faz previsões para diversas partes do país.

O Brasil, com seus 8 milhões e 500 mil km2, tem a pretensão de prever o tempo do Oiapoque ao Chuí. O estado de Santa Catarina, com 95 mil km2, é maior que Portugal. E já instalou um radar que permite prever certos fenômenos climáticos com alguma antecedência, dando tempo às autoridades para avisar aos moradores das regiões que devem ser atingidas. Não consegue impedir, mas avisa a tempo.

Na roça de antigamente, as previsões se baseavam na experiência do povo ao longo dos séculos. Céu pedrento é chuva ou vento; andorinha voou baixo, é sinal de chuva. Pedrento diz-se do céu quando nele se destacam cúmulos e estratos. Andorinha voa baixo à cata dos insetos de que se alimenta. Presumo que o fenômeno esteja relacionado com as oscilações da pressão atmosférica e peço desculpas se estou dizendo besteiras, mas o leitor de A Granja pode acreditar que tenho especial sensibilidade para prever grandes temporais.

Passei uma noite em claro na fazenda fluminense com uma sensação estranha. Manhã seguinte, pelo rádio, tive notícia do temporal que desabou “do lado de lá da serra” e matou dezenas de pessoas. Em linha reta, o lado de lá distava dez quilômetros de nossa fazenda, onde não tivemos chuva. Li em algum lugar que Santa Catarina, por sua posição geográfica, é o estado brasileiro mais sujeito aos fenômenos atmosféricos inesperados. Sim, porque no Brasil há regiões imensas desde sempre conhecidas pelas secas e regiões de alto índice pluviométrico, enquanto SC está sujeita às crises de mau humor do tempo.

Quando se diz que a chuva foi de 82 mm, é importante especificar em quanto tempo. Tive pluviômetro na fazenda fluminense e assisti ao estrago de 82 mm em exatas duas horas. Em rigor, é uma camada de água com 8,2 cm despejada em duas horas, mas os 8,2 cm descem para os vales, o escoamento é impedido por obstáculos diversos e a água sobe um, dois ou três metros, alcançando lugares que, pela lógica, não deveria alcançar. Pelo estrago de 82 mm em duas horas dá para imaginar a chuva caída na Serra de Araras em 1967: 275 mm em três horas.

Fala-se em 1.400 mortos, mas a tragédia foi esquecida pela imprensa, que só fala dos 19 mortos pelo lamaçal da Samarco em Mariana e já está se esquecendo dos 918 mortos, há cinco anos, nas serras do Estado do Rio, tragédia que me toca de perto porque morei muito tempo bem no centro da região mais atingida. Grosso modo, Amapá e Roraima somam 1,250 milhão de habitantes. Rio, São Paulo e Minas somam 80 milhões. Admito que o Amapá é importantíssimo porque já elegeu José Sarney senador da República e conta hoje com as figuras solares dos senadores Randolfe Rodrigues e João Capiberibe, que não fariam feio no Senado do Canadá.

Ainda assim, a população do Amapá é mínima quando comparada aos estados do Sudeste e do Sul. Pois muito bem: os apresentadores de nossas tevês dão mais importância à previsão do tempo no Amapá, que tem boa parte de suas terras no Hemisfério Norte, do que no Sudeste e no Sul, e só raramente acertam porque climatologia é ciência complexa. Ainda outro dia, Ruy Castro se queixava: “Moro no Rio e, ao ser acordado diariamente pelo rádio, adoro ser informado da umidade relativa do ar em Roraima ou da possibilidade de pancadas na ilha de Marajó – para saber se vai dar praia chego à janela. E, a tomar um táxi no Leblon, sob uma lua de 40 graus, é refrescante saber, pelo rádio do carro, que a máxima prevista para São Paulo nos próximos dias é de 25.”