Plantio Direto

PALHADA para minimizar a estiagem em Mato Grosso

Silvio T. Spera e Cornélio A. Zolin, pesquisadores da Embrapa Agrossilvipastoril

No início da safra de 2015/2016, o estado do Mato Grosso, principalmente em sua Região Norte, foi atingido por uma impactante redução da quantidade de chuvas nos meses de outubro a dezembro. Essa redução no volume de chuvas, que pode ter atingido valores de até 70% em alguns locais, teve reflexos negativos na produção de soja desta safra. A redução no volume de chuvas, entretanto, não foi uniforme e em alguns locais não chegou a afetar a demanda de água exigida pela cultura da soja. Foi comum observar no Norte do Mato Grosso lavouras de soja, com adequado desenvolvimento vegetativo, ocorrendo próximas de outras com sintomas visuais típicos de falta de água em razão da desuniforme distribuição das chuvas.

No Mato Grosso, nesta safra, ocorreu significativa redução no volume de chuvas, que pode ter atingido valores de até 70% em alguns locais, com reflexos negativos na produção de soja

Verificou-se também a necessidade de ressemeadura de lavouras em alguns locais, enquanto que, em outros, as lavouras tiveram adequada emergência e estabelecimento do estande. Porém, foram também observadas diferenças no desenvolvimento de lavouras de soja de datas de semeadura próximas que, aparentemente, se encontravam sob a mesma condição de redução do índice pluviométrico.

Um dos fatores que podem ter favorecido tais diferenças foi a presença de cobertura do solo com palhada remanescente da safra anterior, principalmente de palhada de milho.

Além de proteger o solo da erosão, a palhada diminui os riscos de compactação e fornece matéria orgânica, reduz a temperatura do solo e a evaporação, que mantém o solo úmido por mais tempo

As lavouras de soja semeadas em solos com quantidade suficiente de palhada geralmente estão menos suscetíveis aos efeitos da escassez de chuva em Mato Grosso. Com os índices pluviométricos nos meses de outubro, novembro e meados de dezembro representando cerca de um terço da média histórica para o período, as consequências de falta de cobertura do solo são visíveis na comparação entre lavouras da região.

Em algumas lavouras sem palhada da safra anterior ou com essa palhada remanescente em pequena quantidade, observou-se que o produtor teve de efetuar o replantio da soja e, em outras lavouras, foram observados danos no estande de plantas. Já em áreas com palhada de milho ou de braquiária, foi constatado desenvolvimento vegetativo da soja com melhor crescimento, mais massa vegetal e coloração verde mais intensa, além de maior quantidade de flores e de vagens.

A palhada, além de proteger o solo da erosão, diminui os riscos de compactação e fornece maior aporte de matéria orgânica, reduz a temperatura do solo e a evaporação, que mantém o solo úmido por mais tempo. Com isso, o sistema radicular da planta se desenvolve melhor e absorve mais água e nutrientes.

A palhada também favorece aumento da infiltração por conta do aumento da rugosidade superficial do solo, que reduz o escoamento da água, isto é, a perda da água por escoamento superficial. Efeitos mais benéficos são percebidos em áreas com rotação ou intensificação de culturas. Em sistemas com soja sucedida pelo consórcio de milho e braquiária, o aporte anual observado em experimento de Sinop/MT é em média de 13 toneladas de palha por hectare.

A sucessão soja-milho, mais comum na região, aporta dez toneladas. Já a sucessão de soja-algodão acumula cinco toneladas por hectare. O valor mínimo recomendado pelo manejo conservacionista é de oito a dez toneladas somando-se os aportes da safra e safrinha.

Experimentos sobre SPD e ILPF têm sido conduzidos na Embrapa Agrossilvipastoril e em outras instituições de pesquisa com objetivo, dentre outros, de avaliar a quantidade de palha produzida

O sistema plantio direto têm três pressupostos básicos: não revolvimento do solo, rotação de culturas e cobertura permanente do solo com palha. A falta de cobertura do solo ou cobertura inadequada, por um período prolongado, tem sido um problema apontado para o adequado manejo do solo de lavouras conduzidas com sistema plantio direto na região tropical do Brasil. Um dos fatores que contribuem para o efetivo sucesso do sistema plantio direto baseiase em rotações de culturas que proporcionem elevada adição de diferentes tipos de resíduos culturais ao solo.

Porém, cada tipo de resíduo cultural tem uma dinâmica específica de decomposição, o que é determinante na acumulação de carbono e na mineralização de elementos nutrientes, principalmente o nitrogênio. Embora a decomposição de resíduos culturais aportados no solo seja realizada por microrganismos e a velocidade desse processo de decomposição é determinada por fatores bióticos e abióticos que definem a persistência desses resíduos na superfície do solo. Em manejos conservacionistas de solos de clima tropical, preconiza-se a adição de elevadas quantidades de resíduos culturais, compensando a rápida decomposição, a fim de manter a superfície do solo protegida durante o maior período de tempo possível e para aumentar a matéria orgânica do solo.

O elevado aporte de leguminosas como plantas de cobertura tem sido indicado por favorecerem maior disponibilidade de nitrogênio às culturas semeadas em sequência. No entanto, para a espécie de planta de cobertura atender a demanda de nitrogênio da cultura subsequente, deve haver necessidade de que a liberação de nitrogênio dos resíduos aportados ao solo ocorra em sincronia com a demanda da cultura em sucessão.

Para certa espécie de cobertura atender a demanda de nitrogênio na cultura seguinte, e considerando-se que esse nitrogênio deverá ser liberado dos resíduos no momento adequado de necessidade da cultura, estudos dessas sincronias justificam serem conduzidos, bem como estudos sobre a quantidade de resíduos que devam ser produzidos e a influência da taxa de decomposição e liberação de nitrogênio dos resíduos de diferentes espécies de plantas de cobertura.

Experimentos sobre sistema plantio direto e sobre a estratégia integração lavoura- pecuária-floresta têm sido conduzidos na Embrapa Agrossilvipastoril e em outras instituições de pesquisa com objetivo, dentre outros, mas não o principal, de se avaliar a quantidade de palha produzida nesses sistemas. O efeito do sombreamento e do aporte de folhas e ramos de espécies arbóreas dos sistemas com estratégia integração lavourapecuária- floresta sobre a dinâmica de decomposição da palha das culturas e pastagens é conhecido na região do Cerrado, da Amazônia e da de transição entre esses biomas, no Estado de Mato Grosso.

Outro problema referente ao manejo do solo que tem sido associado à redução na produção de lavouras de soja, milho e algodão no Norte do Mato Grosso é a compactação do solo. A presença de camada de solo compactado tem sido constatada na maioria das lavouras da região. Essa camada tem sido observada abaixo de uma camada de acúmulo de matéria orgânica (e muitas vezes, de palha) e de nutrientes. Essa camada raramente tem ultrapassado a espessura de dez centímetros, sendo normal ter apenas de quatro a seis centímetros. Essa camada superficial de pouca espessura, associada a uma camada compactada logo abaixo, tem gerado um perfil cultural cuja principal característica é o impedimento químico e mecânico ao desenvolvimento radicular em profundidade menor que a da camada superficial de maior concentração de nutrientes e matéria orgânica.

Quando o sistema radicular fica confinado a somente alguns centímetros, a capacidade de absorver água é diminuída em níveis críticos, prejudicando o desenvolvimento das plantas cultivadas. Dados da estação meteorológica da Embrapa Agrossilvipastoril, em Sinop/ MT, na Região Médio-Norte, mostraram que, no período de 15 de setembro até 17 de dezembro de 2015, a chuva acumulada foi de 264 milímetros.

No mesmo período, em 2013, por exemplo, o volume acumulado era de 704 milímetros. Esse volume de 2015 é insuficiente para atender a demanda da cultura da soja, uma vez que os solos dessas lavouras têm se caracterizado por terem uma camada estruturada superficial variando de quatro a dez centímetros que concentra quase que a totalidade dos nutrientes e da capacidade de reter água disponível às plantas.

Essa camada tem espessura estreita demais para armazenar um volume adequado de água suficiente para atender mais de três dias de consumo pela planta. Por fim, como implicações do atraso das chuvas, de acordo com o Instituto Mato-grossense de Economia Agrícola (Imea), estima-se uma redução de 1 milhão de toneladas na produção de soja de Mato Grosso. A previsão é de produção de 28 milhões de toneladas.