Fitossanidade

O inimigo NÚMERO 1 de todas as lavouras

Apenas medidas corretas e no tempo certo e, sobretudo, como ações coletivas, podem diminuir os prejuízos da mais devastadora praga dos algodoeiros, o bicudo. Atualmente dois fatores explicam sua incidência: o cultivo em duas safras e o algodoeiro resistente a herbicidas

José Ednilson Miranda, pesquisador da Embrapa Algodão

Mais de três décadas após a sua identificação no Brasil, o bicudo- do-algodoeiro (Anthonomus grandis) ainda é hoje o maior problema fitossanitário da cultura no País e encontra- se disseminado em todas as regiões produtoras. A grande disponibilidade de alimento e abrigo, em um cenário de utilização de plantas de algodoeiro tolerantes a herbicidas, cultivos de primeira e segunda safra, além da presença de refúgios de vegetação nativa, permite ao bicudo uma alta capacidade de sobrevivência e reprodução no Cerrado brasileiro.

Caso não sejam implementadas medidas corretas e em tempo hábil, pode haver um aumento ainda maior da população da praga nas lavouras de algodão, tornando-a uma cultura economicamente inviável. Levantamento recente mostra que a infestação média de bicudo nas áreas do Cerrado variam de 5 a 9%, o que significa que o nível de controle está sendo constantemente atingido, exigindo um número intenso de pulverizações para o controle da praga. Entre as safras 2012/2013 e 2014/2015 o número de aplicações de inseticidas para controle do bicudo do algodoeiro no Cerrado subiu de 17 para 23 aplicações.

Considerando-se o custo de aplicação de inseticidas para controle do inseto e uma perda estimada de 2% pela ação da praga, apesar dos esforços de controle, tem-se um prejuízo crescente nas últimas safras que já ultrapassa US$ 200 por hectare.

E quais seriam os motivos de tamanho insucesso na tentativa de controle populacional do bicudo? Embora complexa, a resposta envolve várias questões estritamente ligadas ao manejo da praga em grandes áreas. Aqui nos reportamos ao termo derivado do inglês (Area-Wide Pest Management) e que envolve princípios bastante pertinentes para pragas de alta mobilidade, como é o caso do bicudo- do-algodoeiro. Para essas pragas, o manejo em grandes áreas é mais efetivo e preferível a ações pontuais e independentes de cada produtor.

Existem projetos estaduais de controle do bicudo nos vários estados produtores, no entanto, as ações executadas para conter as populações do inseto são assincronizadas e ainda caracterizadas por erros recorrentes, desde a detecção até a efetiva adoção dessas ações. Ações isoladas, desordenadas ou de alcance limitado não são suficientes para reduzir efetivamente as populações do bicudo. Por sua alta mobilidade, o inseto não respeita porteiras, e mesmo que quase todos os produtores de uma determinada região tomem medidas corretas e em tempo hábil para reduzir os níveis populacionais em suas áreas, basta que um e somente um deles não faça o dever de casa e o inseto se multiplicará e causará danos significativos a todos eles.

Da mesma forma, como importantíssima estratégia de controle, a ausência de plantas de algodoeiro no período da entressafra a fim de causar alta mortalidade nos indivíduos da população remanescente de bicudo de uma safra pode ser totalmente comprometida pela germinação de plantas “tigueras”. E também plantas à beira das rodovias de acesso e trânsito de algodão colhido e áreas de confinamento de gado em que se utilizam caroços de algodão, como exemplos bastante comuns.

Fatores críticos — Atualmente dois fatores principais se destacam para explicar grande parte dos problemas enfrentados com o bicudo no Brasil: o cultivo de algodoeiro em duas safras e a permanência de algodoeiro resistente a herbicidas após a colheita. O calendário de cultivo de algodoeiro em algumas regiões do Cerrado não admite o cultivo senão no início das chuvas da primavera, sendo o algodoeiro então a cultura principal de verão.

Outras regiões conseguem obter um primeiro cultivo de verão de soja precoce, por exemplo, seguido do cultivo de algodão de segunda safra. Em um terceiro cenário, uma mesma região pode ter os dois tipos de cultivo. Somando-se a isso a relativa proximidade entre as regiões de cultivo, tem-se um quadro em que as populações de bicudo têm a seu dispor um período de abundância de flores, botões e maçãs para sua alimentação e, o que é pior, sua reprodução.

Por melhor que seja o controle químico dos adultos de bicudo, se esses adultos conseguirem efetuar a oviposição, a população descendente será exponencialmente maior e, embora novas aplicações de inseticida sejam feitas, o processo tende a se repetir, sendo que a cada nova geração tem-se populações cada vez maiores do inseto, até o final da safra. Outro enorme entrave para controlar a praga se deve ao uso de cultivares geneticamente modificadas para resistência a herbicidas. Dada à facilidade de manejo das plantas daninhas, o cultivo de algodoeiros transgênicos para resistência a herbicidas é prática generalizada nos principais estados produtores de algodão do Brasil.

Ocorre que, além do algodoeiro, existem cultivares transgênicas de soja e milho para esses mesmos herbicidas. Essas práticas estão dificultando o controle de pragas, principalmente o bicudo, pois as plantas voluntárias ou “tigueras” de algodoeiro estarão presentes nas lavouras em sucessão. A persistência de plantas de algodão no meio da soja ou do milho possibilitará a sobrevivência e o aumento da população do bicudo nessas plantas, o que irá reinfestar as novas lavouras de algodoeiro da redondeza.

A tecnologia de algodoeiros transgênicos resistentes a herbicidas deve ser encarada como mais uma ferramenta do manejo integrado de plantas daninhas, e não como uma solução única e definitiva. Para isso, é fundamental que nas culturas da soja, do milho e do algodoeiro sejam usados diferentes herbicidas com distintos mecanismos de ação e, se possível, com efeito residual, além de rotacionar cultivos com culturas transgênicas e nãotransgênicas. Uma destruição eficiente da soqueira, utilizando métodos químicos e mecânicos, reduz significativamente a população de insetos que iria para os refúgios na entressafra e diminui a pressão da praga no início da safra seguinte.

Os ingredientes ativos mais utilizados para destruição dos restos culturais do algodoeiro são o 2,4- D e o glifosato, mas a chegada dos cultivares transgênicos resistentes a herbicidas vem mudando essa realidade, uma vez que se o cultivar de algodoeiro é resistente a glifosato, os restos culturais não serão destruídos por esse herbicida. Os tratamentos mais eficientes para a destruição de soqueira em áreas de produção no Mato Grosso foram os que utilizaram 2,4-D aplicado logo após a roçagem e reaplicado após a rebrota das plantas com flumiclorac, saflufenacil ou imazetapir. Embora uma única aplicação de 2,4-D não seja suficiente para resolver o problema, ela mata uma porcentagem de plantas e enfraquece as demais, proporcionado resultados mais eficazes em uma segunda aplicação de herbicidas.

Um ensaio desenvolvido em Goiás verificou que três aplicações espaçadas entre si em 30 dias, cada qual com 1 kg/ha do equivalente ácido 2,4-D, resultou em 100% de controle. Três pulverizações espaçadas entre si em 30 dias, sendo a primeira com 2,4-D, e depois outras duas com carfentrazoneethyl, paraquat, saflufenacil, paraquat + diuron e glufosinato de amônio, mataram mais que 92% das plantas rebrotadas. Ou seja, para controlar os restos culturais de algodoeiros transgênicos RF são necessárias pelo menos três aplicações de herbicidas, devendo-se a primeira ser com o 2,4-D. Os dois exemplos citados demonstram que o manejo para a destruição dos restos culturais é possível. Entretanto, é necessário mais que uma simples roçagem e aplicação de herbicida, como também a observação rigorosa das condições climáticas no período que antecede as aplicações e dos fatores ligados ao metabolismo da planta.

O grau de infestação depende diretamente do manejo dado pelos produtores nos períodos de pré-safra, safra e pós-safra. Nas regiões em que o controle adequado e em tempo hábil é uma constante, baixos níveis populacionais são registrados. Por outro lado, em áreas de manejo inadequado, verifica-se alta densidade populacional. A organização do setor cotonícola, que possibilitou o ressurgimento da cultura no Cerrado após ter sido praticamente dizimada pelo inseto no Semiárido, agora deve estar direcionada para o controle efetivo do bicudo no Brasil. Para que possamos vencer o inimigo número um da cultura do algodão são necessárias políticas públicas, educação fitossanitária e comprometimento de toda a cadeia produtiva e dos segmentos apoiadores do setor, como a pesquisa, a extensão e a fiscalização. Os contextos ecológico, ambiental e econômico devem co-existir enquanto definidores de ações de controle, cuja dimensão extrapola os limites da propriedade. Isso significa que toda e qualquer medida de controle populacional da praga deve estar alinhada por diretrizes definidas regionalmente e cuja adesão deve ser total, bem como a eficiência na execução deve ser a maior possível.