Coopavel

O que não faltou foram tecnologia e INOVAÇÃO

Apesar de as grandes empresas de máquinas vinculadas à Anfavea não comparecerem em razão de um impasse com a organização do Show Rural Coopavel, a feira de Cascavel/PR apresentou muitas atrações aos visitantes. E o público foi recorde em 28 edições

Leandro Mariani Mittmann leandro@agranja.com Texto e fotos

A 28a edição do Show Rural Coopavel foi a vitrine para exposição de muitas tecnologias, inovações e técnicas de empresas privadas e instituições públicas

Afeira que abre o calendário das megafeiras agrícolas de cada ano reuniu um público recorde. Os cinco dias do Show Rural Coopavel, na primeira semana de fevereiro, em Cascavel/ PR, tiveram a visita de mais de 235 mil pessoas, maior marca até hoje em 28 edições do evento. Nesta edição, por causa de um impasse sobre a data do evento, as grandes montadoras vinculadas à Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) – como Massey Ferguson, John Deere, New Holland, Case IH e Valtra – não compareceram, e o amplo espaço ocupado por elas foi tomado por outras empresas, e puderam mostrar ao público sedento por inovações o melhor que tinham a oferecer.

Independentemente das ausências, o que nenhum dos visitantes pôde sair reclamando foi da diversidade de tecnologias apresentadas. Pelas empresas de máquinas e equipamentos, além das companhias de defensivos (e as principais inovações destas empresas estão nas seções Gente em Ação, na página 56, e Novidades no Mercado, página 68), também pelas empresas públicas de pesquisa como a Embrapa e o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), e de assistência técnica, como a Emater paranaense, que mobilizaram dezenas de profissionais para atender a milhares de visitantes. A cena mais comum nos espaços ocupados por estas três instituições foi a de um técnico rodeado de produtores em mini-palestras sobre uma infinidade de assuntos.

Como o agricultor Nery Scheidt, com o filho Alexandre e o amigo Abílio Luft. Scheidt, que produz milho e soja em Capanema/ PR, estava muito interessado no assunto integração lavoura-pecuária no espaço da Embrapa, onde foram atendido pelo pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo Walter Fernando Meirelles. A braquiária e seu manejo na lavoura de grãos foi o tema da explanação. “Tenho 35 vacas de leite e estamos querendo testar a integração lavoura- pecuária”, relatou Scheidt. “Vou fazer uma pequena área para ver como se comporta”, complementou o agricultor, que explicou necessitar da braquiária para fazer uma palhada mais volumosa, em meio ao milho. “A ideia inicial é uma área para conhecer a tecnologia”, orientou o pesquisador.

Albino e o pai Romano Poposki foram ao Show Rural para conhecer as inovações, e relataram perdas históricas para a chuva

O agricultor Albino Poposki e o pai Romano, de 79 anos, que produzem soja, milho, trigo e canola em 181 hectares em Francisco Beltrão/PR, compareceram à feira para conhecer novas tecnologias. “O que tem de novidade está aqui”, resumiu Albino o que a feira oferece. Os produtores relataram os altos custos de produção desta safra e as perdas históricas para a chuva. “Tivemos os maiores índices pluviométricos da história”, relatou Romano. “Apodreceu”, sintetizou os efeitos da chuva. Pelos cálculos deles, as perdas ficaram entre 1.000 e 1.200 sacas de soja. “Não teve como colher”, revelou Romano, que disse ter visto quatro grandes enchentes em 63 anos de agricultura, mas jamais uma na época próxima à colheita.

Nery Scheidt, de camisa rosa, estava muito interessado no assunto ILP, e recebeu orientações do pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo, Walter Fernando Meirelles (de chapéu)


AS NOVAS VARIEDADES DA EMBRAPA

A Embrapa e a Fundação Meridional, sediada em Londrina/PR, aproveitaram a feira para lançar três cultivares de soja: a BRS 1010 IPRO, a BRS 388RR e a BRS 399RR. A BRS 1010 IPRO tem como diferencial o alto potencial produtivo associado aos benefícios da tecnologia Intacta RR2 PRO, que reúne características como a resistência ao herbicida glifosato para o manejo de daninhas e também e à toxina Bt, que permite o controle das principais espécies de lagartas. A variedade é de ciclo precoce, com excelente produtividade até em áreas com presença do nematoide de galha Meloidogyne javanica., e é indicada para Santa Catarina, Paraná e São Paulo.

Já a BRS 388RR é para os estados de Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Goiás. É uma cultivar transgênica com tolerância ao glifosato, possui tipo de crescimento indeterminado e grupo de maturidade relativa 6.4, ou seja, para entrar em sistemas com safrinha de milho. Entre seus diferenciais estão a resistência às doenças cancro da haste, podridão radicular de Phytophthora e mosaico comum da soja.

A BRS 399RR apresenta alto potencial produtivo além de boa sanidade, possui crescimento indeterminado e está no grupo de maturidade 6.0, ou seja, pela precocidade, favorece a semeadura da segunda safra de milho. É indicada para regiões de Santa Catarina, Paraná e São Paulo, e possui resistência aos nematoides de galha Meloidogyne incógnita e Meloidogyne javanica e às raças 3 e 14 do nematoide de cisto, além do Rotylenchulus reniformis. Já a Embrapa Arroz e Feijão apresentou seis variedades de feijão, com grãos do tipo preto, carioca e especial.

O lançamento foi a cultivar de feijão do grupo preto, a BRS Esteio, que apresenta alto potencial produtivo, com superioridade média de produção de 8,1%. De ciclo normal (de 85 a 90 dias, da emergência à maturação fisiológica) e arquitetura de planta ereta, a cultivar é adaptada à colheita mecanizada direta. A BRS Esteio foi testada e aprovada pela indústria, apresenta caldo encorpado com grãos macios de cor achocolatada.


Produção sustentável — A Emater paranaense recebeu milhares de agricultores, sobretudo os familiares, em um amplo espaço para mostrar, na prática, maneiras de eles agregrarem renda à propriedade e/ou melhorarem as atividades já desenvolvidas. “A produção sustentável, produção com qualidade e renda, foi o foco da Emater”, sintetizou a participação da entidade Renato Jasper, gerente regional da Emater. Temas como sucessão familiar, agroindústria, fruticultura, hortaliças, plantas medicinais, apicultura, artesanato, como expor e vender produtos e muitos outros com enfoque no ganho de renda pelos pequenos agricultores foram abordados pelos técnicos da Emater junto aos visitantes. “Se melhorar a renda da família, isso faz até que o filho retorne (da cidade)”, justifica Jasper.

Segundo Renato Jasper, gerente regional da Emater, a instituição ensinou ao pequeno agricultor maneiras de aumentar e/ou agregar renda à propriedade

A Emater voltou a divulgar as vantagens do projeto Plante Seu Futuro, desenvolvido em 150 propriedades paranaenses, que funcionam como unidades de referência para se comprovar ser possível reduzir significativamente o uso de defensivos – sem prejudicar a sanidade das lavouras. O projeto, conduzido pela Emater e parceiros, mostrou ser viável reduzir em 55% o uso de fungicidas e inseticidas em lavouras de soja, e retardar em até 60 a 70 dias a primeira aplicação, apenas a partir do correto manejo fitossanitário da lavoura. A Emater mobilizou mais de 70 pessoas para receber os interessados, que não foram poucos, segundo estimativa de Jasper: “Metade do pessoal que vem no Show Rural passa pelo estande da Emater”, avaliou.

Já calculou quanto custa a erosão? — Entre as abordagens do Iapar, a importância econômica do controle da erosão. Mais do que argumentar sobre a relevância de se preservar o solo, a instituição apresentou aos produtores os valores monetários que vão embora água a baixo, literalmente. Segundo estudo elaborado pelo Iapar em parceria com Instituto Agronômico, sediado em Campinas/SP, e ambientado em lavouras paulistas, são enormes os prejuízos financeiros do produtor, apenas com as perdas de fertilizantes. A pesquisadora do Iapar Graziela Barbosa lembrou que mesmo com plantio direto, em solos encharcados a água vai escorrer – e levar embora elementos químicos. “A perda pode ser quantificada”, explicou. “O produtor fica impressionado com o valor. Ele não faz ideia do que tem custado”.

A pesquisadora do Iapar Graziela Barbosa esclareceu ser possível quantificar em reais quanto se perde ao não aplicar práticas de contenção da água na lavoura, como o terraço

Atenção para a seguinte equação: com 24% de solo coberto, em 100 hectares o prejuízo é de R$ 28.452,99/ano; com 90% de solo com cobertura, a perda cai para R$ 7.205,55. “Mesmo com plantio direto e com altas taxas de cobertura”, lembrou Graziela sobre perdas. Por isso ressaltou ser fundamental a manutenção de curvas de nível e terraços, barreiras que diminuem o volume e a velocidade da água. E normalmente o produtor não considera os valores que são perdidos. “Esse dinheiro que ele ‘manda’ para o rio, essa conta ele não faz”, advertiu a pesquisadora.

“Ele faz o cálculo só quando compra (o adubo)”, acrescentou. “Na próxima soja ele vai ter que colocar mais adubo porque ele perdeu adubo”. E Graziela ainda alerta para o desastre que é o plantio morro abaixo, praticada por alguns produtores para facilitar o manuseio de máquinas.

A Embrapa mobilizou 40 profissionais de 14 unidades para apresentar dezenas de diferentes tecnologias e técnicas para centenas de visitantes no amplo espaço que a instituição usufrui na feira. Desde lançamento de variedades até orientações técnicas individualizadas sobre os mais diferentes temas, como o controle da ferrugem, a importância do refúgio, as diferentes maneiras para praticar a integração lavoura- pecuária e assim por diante. Os pesquisadores espalhados pelo espaço da Embrapa, tanto externo como interno, foram muito concorridos para dar explicações aos interessados. “A máquina manda na propriedade...”

Divania, pesquisadora da Embrapa Soja, orientou sobre os métodos para controlar a ferrugem da soja, sobretudo para evitar a resistência do fungo aos fungicidas

Estratégias anti-ferrugem — Um assunto que interessa a todos os produtores de soja, independentemente da região do País, foi abordado na Embrapa no Show Rural: as estratégias para evitar que a ferrugem asiática da soja se torne resistente a fungicidas. A pesquisadora da Embrapa Soja Divania Lima lembra que o atual fenômeno climático El Niño ajudou a intensificar a doença nesta safra.

Para tanto, é fundamental seguir o manejo recomendado, como o monitoramento, inclusive no período de carência do defensivo, visto que pode ocorrer reinfestação do fungo Phakopsora pachyrhizi – pelo vento. Além disso, o solo úmido pode impedir a entrada do pulverizador no momento mais necessário e, assim, impedir o tratamento. E para evitar a resistência do fungo ao fungicida, é fundamental fazer a rotação dos três princípios ativos de fungicidas para o controle da doença, os triazois, as estrobilurinas e as carboxamidas – que são a base dos mais de 115 produtos comerciais no mercado.

“Não se deve utilizar o mesmo produto por mais de duas vezes consecutivas no mesmo ciclo”, advertiu Divania. Da mesma forma, sugeriu que não se aplique isoladamente estrobilurinas e triazois. Divania lembrou ser importante evitar o plantio tardio e dar preferência a materiais semiprecoces, além de preferir variedades tolerantes ao fungo. Por fim, disse, acompanhar todas as informações sobre a ferrugem por meio do Consórcio Antiferrugem – www.consorcioantiferrugem.net.