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O TRIGO e suas oscilações safra após safra

O clima no passado recente atingiu em cheio a produção de sementes de trigo, e os impactos se darão na atual safra. Porém, a boa notícia é que o mesmo clima não vai atrapalhar o desenvolvimento da safra 2016

Márcio Só e Silva e Gilberto R. Cunha, pesquisadores da Embrapa Trigo

Aprodução de trigo no Brasil tem oscilado bastante nos últimos cinco anos, com variações desde pouco mais de 4 milhões de toneladas, em 2012, até quase 6 milhões de toneladas, em 2014. Entre os vilões, o clima tem sido o protagonista principal dessa instabilidade, que afeta as tomadas de decisão dos agricultores quanto ao aumento ou à redução de suas áreas de cultivo com o cereal.

Esse dilema tem sido recorrente nas regiões tradicionais de produção do cereal: diminuir ou acelerar, arriscar mais ou menos? Enquanto que nas regiões não tradicionais, como é o caso da Região Sudeste, a inclusão do trigo no sistema produtivo apresentou o maior aumento de área cultivada nos últimos cinco anos.

No Cerrado, o trigo parece que ganhou um lugar permanente no sistema de produção regional, especialmente na faixa de transição entre os climas subtropical para o tropical. Nessa região, o estado de Minas Gerais se tornou a terceira força na produção de trigo no Brasil, deixando Santa Catarina e São Paulo para trás, com um recorde de área cultivada de mais de 80 mil hectares. Trilhando um caminho inverso, no Rio Grande do Sul houve um dos maiores recuos de área dos últimos tempos.

O impacto dessa redução, da ordem de 25%, significa 300 mil hectares de área não ocupada em um sistema produtivo binomial, inverno-verão, sem muitas alternativas economicamente viáveis para a estação fria. A magnitude dessa queda lembra o começo dos anos 1990, quando no governo de Fernando Collor de Mello começou a internacionalização da economia brasileira, com o fim da intervenção estatal no complexo agroindustrial do trigo, que tinha o Banco do Brasil como único comprador e vendedor de trigo no País. Foi, na ocasião, decretado o fim dos subsídios diretos ao trigo, quando o Rio Grande do Sul, por forças de mercado, plantou a sua menor área histórica de trigo nos últimos 50 anos, cultivando pouco mais de 300 mil hectares.

Perdas em 2015 — Segundo dados da Conab, os problemas na safra brasileira de 2015 causaram perdas de mais 1,5 milhão de toneladas de trigo, que, traduzidos em números, deixaram um rastro de prejuízos e incertezas nas diferentes cadeias produtivas do complexo agroindustrial desse cereal no País. No atual cenário econômico ora vigente no Brasil, vimos agricultores divididos, ao Sul do paralelo 24, amargando prejuízos, e aqueles situados ao Norte do paralelo 24, com resultados positivos, obtendo lucro com a cultura do trigo. Quando nos referimos ao paralelo 24, estamos fazendo referência ao trópico de Capricórnio, zona de transição climática no Brasil, localizado ao Norte do estado do Paraná e em parte do Sul do estado de São Paulo.

Para se ter uma ideia melhor do dilema de alguns triticultores do Sul do País, há quem calcule prejuízos na safra de inverno de até R$ 1.000/hectare. Quem pagará essa conta? Torçamos para que a conta corrente da soja seja robusta o suficiente para absorver o impacto desse prejuízo. Esses resultados negativos foram aprofundados, quando se mira para a safra 2016, pelo atual cenário econômico do País, porque os agricultores plantaram trigo com custo de produção defasado, sem o reajuste dos insumos que ocorreram posteriormente.

No decorrer da safra de inverno de 2015, aconteceu o pior que poderia acontecer em um ano de El Niño fortíssimo, com geadas tardias, temperaturas elevadas e excesso de chuva no espigamento e no período de colheita. Na economia, os agricultores plantaram trigo com um dólar em alta e quando colheram veio a surpresa da alta dos insumos e uma conta mais alta a ser paga. Resultado: prejuízos.

Efeito do dólar nos moinhos — Na outra ponta do complexo agroindustrial, os moinhos não tiveram trégua, pois quando se deram conta do tamanho do rombo na safra, resultante de adversidades climáticas sem precedentes, saíram às compras. Com o dólar em disparada, o mercado chegou a perder o referencial de preço. Trigo argentino ou americano? Da mesma forma que o produtor, e fazendo uma alusão a plantar na baixa do dólar e colher na alta, os moinhos amargaram um cenário de alta do dólar e baixa no consumo. Resultado: todo o complexo agroindustrial do trigo amealhou prejuízos.

As expectativas da nova safra de 2016 não são tão alvissareiras quanto gostaríamos, inclusive porque os impactos climáticos atingiram também a produção de semente de trigo que serão usadas na safra que inicia. Não se sabe ainda qual a magnitude dessa possível redução de oferta de sementes de trigo, uma vez que os sementeiros estão em fase de beneficiamento e não possuem os números finais. Porém, estima-se que essa redução na produção de semente poderá ficar na ordem de 20% a 30%.

No Paraná, estima-se que enfrente uma redução de área bem menor do que a do Rio Grande do Sul, ou até mantenha a sua área cultivada na casa do 1,3 milhão de hectares

No Rio Grande do Sul, em função das adversidades climáticas da safra 2015, a disponibilidade de sementes poderá ser menor, forçando, em função disso e de outros fatores, uma certa tendência de redução de área plantada nessa safra, que, mantida a mesma redução do ano passado, estima-se a possibilidade de o cultivo girar ao redor de 600 mil hectares em 2016. O Paraná provavelmente deverá seguir na liderança nacional como maior produtor de trigo, mesmo estimando-se que tenha uma redução de área bem menor do que no Rio Grande do Sul, ou até mantenha a sua área cultivada na casa dos 1,3 milhão de hectares.

Crescimento de área — O Sudeste e o Centro-Oeste devem seguir em rota de crescimento de área cultivada com trigo, embora em menor magnitude. Os números definitivos vão depender das opções de plantio dos agricultores e suas escolhas pelo milho safrinha e outras culturas de safrinha, como sorgo e feijão. O fato consumado é que a Região Sudeste se consolidou nacionalmente como um novo polo de produção, com trigo de excelente aceitação pela indústria moageira nacional. E o El Niño? Será que continuará impactando a nossa produção nacional de trigo em 2016? A notícia boa para os triticultores do Sul é que o atual El Niño está perdendo força e deverá encerrar o seu ciclo de vida até o começo do inverno deste ano.

Os principais institutos que lidam com previsões do fenômeno El Niño/La Niña-Oscilação Sul são categóricos em afirmar que até o fim do outono/começo do inverno deveremos ter uma transição de El Niño para uma fase neutra ou, até mesmo, apesar das incertezas, a possibilidade da volta de um evento La Niña a partir da primavera ou começo do próximo verão. Nesse sentido, as notícias para a triticultura brasileira, especialmente o trigo produzido no Sul, as notícias são alvissareiras, pois não são projetadas excepcionalidades climáticas como ocorreram na safra de 2015. Eis, por ora, a notícia boa: fim do El Niño a vista!