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Solos ARENOSOS: as tecnologias para altas produtividades

Existe risco, sim, em se produzir soja em solos com argila inferior a 20%, mas há potencial de boas produções, desde que se respeite tal ambiente – ou seja, se lance mão do uso das técnicas e tecnologias corretas. E já está comprovado que no sistema ILP a produtividade da oleaginosa é maior, até para evitar perdas severas em veranicos. A seguir, as dicas para o êxito da soja em solos arenosos

Edemar Moro, coordenador do curso de Especialização em ILPF da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste)

Solos arenosos são aqueles com teor de argila inferior a 20% e teor mínimo de areia de 50%. Quando o solo é classificado quanto à capacidade de uso, surge uma série de restrições à exploração com culturas anuais. As limitações dos solos arenosos se devem, dentre outros fatores, à fragilidade estrutural, à baixa fertilidade e à baixa capacidade de retenção de água. Após o conhecimento das limitações, a primeira impressão é que o risco da exploração agrícola é muito alto e, de fato, é, quando não são aplicadas as técnicas e práticas de manejo corretas e necessárias. Renomados pesquisadores já se posicionaram contrários ao uso de solos arenosos para produção de soja, porém, com as recentes comprovações da viabilidade ambiental e econômica, mudaram de opinião. Não se pretende omitir o risco de uso dos solos arenosos para cultivo da soja. O que se pretende com este artigo é mostrar que o potencial existe, mas é preciso respeitar o ambiente. Quando se trata de respeitar o ambiente, nos referimos ao uso das técnicas e tecnologias corretas. Inicialmente, citam-se as principais premissas para viabilizar a produção de soja em solos arenosos: construção da fertilidade do solo; rotação de culturas; ajuste físico do solo; manutenção de cobertura vegetal viva pelo maior tempo possível durante o ano; formação de palhada para cobertura do solo; conhecimento claro das condições climáticas locais e uso de sistemas integrados de produção. A importância de cada item não necessariamente segue essa ordem, porém, se todas forem observadas, o sucesso será alcançado.

Construção da fertilidade do solo: os solos arenosos apresentam baixa fertilidade natural em decorrência dos baixos teores de argila e de matéria orgânica. Sendo assim, construir a fertilidade do solo é a primeira etapa para viabilizar essas áreas para cultivo de soja. Quando o sistema adotado for o plantio direto, recomenda-se realizar calagem, gessagem e fosfatagem um ano antes do cultivo, para que os corretivos proporcionem o efeito desejado. Na adubação de base, priorizar sempre fórmulas de NPK acompanhadas de micronutrientes, especialmente aqueles em deficiência.

Rotação de culturas: a rotação de culturas é uma das bases do SPD para qualquer tipo de solo, para os arenosos será ainda mais importante. As espécies mais indicadas para a rotação com soja são as gramíneas com alta produção de biomassa, dentre elas as braquiárias. O milho pode ser utilizado, porém, deverá ser consorciado com uma gramínea, para que após a colheita haja palhada para o cultivo de soja. O programa de rotação deverá ser realizado para cada região de acordo com a aptidão e com o mercado para as culturas utilizadas. As espécies poderão ser escolhidas de acordo com os benefícios pretendidos, mas a viabilidade econômica não pode ser deixada de lado. Quando uma espécie é fundamental para o sistema e não apresenta viabilidade econômica em curto prazo, recomenda- se o cultivo em 25% da área, de modo que, após quatro anos, toda a área será beneficiada.

Manutenção de cobertura vegetal viva: manter espécies vegetando durante o ano é fundamental para viabilizar o uso dos solos arenosos. Manter o solo cultivado após a colheita da soja é importantíssimo, pois o solo permanecerá coberto e o residual dos nutrientes deixados pelo fertilizante e pela soja será aproveitado, sobretudo o nitrogênio. Quando são utilizadas gramíneas com grande volume radicular como as braquiárias que crescem a mais de dois metros de profundidade, ocorre ainda a ciclagem de nutrientes que a cultura da soja não aproveitaria. Outro exemplo claro para esse assunto é o consórcio de milho com braquiária. Após a colheita da soja se tem o milho e, após a colheita do milho, a braquiária manterá o solo coberto evitando aquecimento excessivo e a perda de nutrientes. É fundamental manter o solo vegetado para que os nutrientes que poderiam ser perdidos (por lixiviação, fixação e volatilização) sejam transferidos do solo para as raízes e parte área das plantas de cobertura. O pousio, na entressafra, seria a pior opção para o próximo cultivo de soja. Além das perdas de nutrientes, há risco com erosão, menor diversidade biológica e ainda não ocorre ação física no solo proporcionado pelas raízes das plantas de cobertura.

Na imagem, plântulas de soja morrendo por escaldadura, que é a queimadura da região do caule da planta que fica em contato com o solo quente exposto ao solo, visto que não há palha suficiente

O efeito das raízes das gramíneas no sistema é importante e atuará na descompactação e agregação do solo, formação de bioporos que resultarão no melhor desenvolvimento radicular da soja e na melhor infiltração de água no perfil. Isso proporcionará acréscimo na produtividade da soja, especialmente quando ocorrer veranicos.

Formação de palhada: os solos arenosos apresentam baixa capacidade de armazenar nutrientes, isso porque os teores de argila e matéria orgânica são baixos. Como a textura do solo é inalterável e o teor de matéria orgânica é difícil de ser aumentando, é necessário encontrar outra forma para estocar e proteger os nutrientes. Para resolver essa questão, nada mais viável que usar as plantas de cobertura para estocar os nutrientes. A formação de palhada é consequência da manutenção do solo vegetado. À medida que as plantas crescem, incorporam os nutrientes absorvidos na massa vegetal. Quando essas plantas forem dessecadas, os nutrientes serão repostos ao solo durante o ciclo da soja. Assim que a soja for colhida, ou ainda antes mesmo de ser colhida, uma nova espécie deverá ser semeada para cobrir o solo e para aproveitamento do residual dos nutrientes deixados pelo cultivo da soja. No Brasil, aproximadamente 9 milhões de hectares pós soja são cultivados com milho safrinha. Porém, quando solteiro, não produz palha suficiente para uma cobertura ideal do solo para o cultivo de soja, além da ausência dos benefícios das raízes da braquiária. Dessa forma ressalta-se mais uma vez a importância do consórcio de milho com capim em solos arenosos, principalmente, quando o milho será destinado à silagem. Quando as plântulas de soja emergem em áreas sem cobertura vegetal, a temperatura do solo atinge temperaturas acima de 60º, ocorrendo a morte das plantas por estrangulamento. Portanto, a regra para solos arenosos é formar primeiro cobertura do solo, e depois cultivar soja.

A foto mostra a capacidade de agregar solo por uma única raiz de braquiária, ou seja, ela cria condições favoráveis para que as raízes de soja se desenvolvam em camadas mais profundas

Microbiologia do solo: quando se faz o ajuste químico e físico do solo com fertilizantes e plantas de cobertura em rotação, o ajuste biológico vem por consequência. Quando se observam os princípios de um bom manejo do sistema de produção, são criadas condições favoráveis à microbiota do solo, e espontaneamente ela ressurge em uma explosão de vida. Em muitas situações até minhocas aparecem, um indicativo de qualidade do solo. No entanto, como a soja é uma planta exótica, originária da China, é necessário o uso de bactérias fixadoras de nitrogênio.

Isso não é novidade, mas muitos produtores e técnicos acreditam que a inoculação da soja em solos arenosos pode ser feita da mesma forma que se faz em solos argilosos, um engano com enormes prejuízos. A melhor forma para o sucesso da inoculação é posicionar o inoculante no sulco de semeadura. Quando for o primeiro ano de soja, utilizar no mínimo dez doses por hectare. Após o segundo ano, aplicar pelos menos sete doses do produto no sulco de semeadura.

Além da inoculação com Bradyrhizobium, a pesquisa já validou a co-inoculação, que é a junção de Bradyrhizobium com Azospirillum. O Azospirillum estimula o desenvolvimento radicular da soja, aumentando a capacidade de absorção de nutrientes. Outro produto biológico nessa linha que já foi lançado como produto comercial é o Bacillus subtilis. Esses produtos à base de microrganismos são de uso fundamental para solos arenosos sujeitos a veranicos, uma vez que são promotores do crescimento radicular e resultam em acréscimos na produtividade da soja.

Conhecimento do clima: a análise de chuvas e veranicos determinará a época de semeadura da soja. Quando os veranicos se repetem sempre na mesma época, será mais fácil superar a limitação climática. No entanto, se o período de deficiência hídrica mudar de um ano para outro, a recomendação é escalonar a semeadura e usar diferentes grupos de maturação da soja. A soja tolera até 30 dias de veranico na fase vegetativa. O escalonamento da época de semeadura e cultivares de ciclos diferentes são importantes estratégias para evitar prejuízos. Como exemplo, cita-se a Fazenda Campina, no município de Caiuá/SP, que possui solos com teor máximo de argila de 14%. Na safra 2014/2015 a semeadura ocorreu entre o dia 1º de novembro a 13 de dezembro, e a variação de produtividade foi de 13 a 74 sacas por hectare. Essa diferença de produtividade teve como fator principal o estágio em que a cultura da soja se encontrava no período do veranico. A menor produção foi observada quando o veranico atingiu a soja na fase reprodutiva.

Sistemas integrados de produção: a melhor forma de se alcançar e atender todas as premissas anteriormente apresentadas é por meio dos sistemas integrados de produção agropecuária, especialmente a integração lavoura-pecuária (ILP). Esse sistema é capaz de ajustar a física de solo com espécies forrageiras e ajustar a química de solo com a aplicação de corretivos e os fertilizantes para a soja. Além disso, o fato de a área permanecer com dois anos ou mais com capim favorecerá a cultura da soja. Isso ocorre por redução da pressão de pragas e doenças e por proporcionar a cobertura de solo necessária ao cultivo de soja em solos arenosos.

Sem dúvidas, o melhor sistema para viabilizar o cultivo de soja em solos arenosos é a ILP. Com a ILP, a produtividade da soja é maior e, em repetidos casos pelo Brasil, a ILP é responsável por evitar a perda total da produção, quando há ocorrência de veranicos severos. Somado a isso, a pecuária é grandemente beneficiada, e o ganho com a produção de carne é tão significativo que, mesmo com grandes perdas de produtividade da soja, é possível lucrar com o sistema. A produção exclusiva de grãos no modelo sucessão soja-milho não é viável para regiões de solos arenosos com baixa altitude e sujeitos a veranicos. Síntese dos fatores de sucesso — O risco existe, mas quando se conhece o ambiente e se faz o uso das tecnologias adequadas, o sucesso é alcançado. As principais tecnologias são as seguintes: construção e manutenção da fertilidade do solo; ajuste físico do solo; manutenção do solo vegetado e da cobertura morta o maior tempo possível durante o ano; escalonamento da semeadura; uso de cultivares com diferentes grupos de maturação e adoção do sistema integração lavoura-pecuária.