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AZOSPIRILLUM é a inovação tecnológica para o cereal

O uso da bactéria do gênero Azospirillum na cultura do milho promove economia em nitrogênio e funciona até como uma ação de responsabilidade ambiental. Uma pesquisa da Embrapa Soja apontou que a inoculação com Azospirillum nas sementes ou no sulco na semeadura promove o crescimento das raízes – com incremento de mais de 100%

Mariangela Hungria, pesquisadora da Embrapa Soja

Diferenças bem visíveis: raízes de milho inoculadas (à esquerda) e não inoculadas (à direita) com Azospirillum

Com frequência tempos difíceis também representam uma oportunidade para repensar, sair de uma posição acomodada e arriscar novos desafios. E isso vem sendo observado no setor de inoculantes, no último ano. O Brasil importa a maior parte dos fertilizantes químicos, incluindo 70% do nitrogênio (N), 50% do fósforo (P) e 90% do potássio (K), todos cotados em dólar. Nos últimos anos, tem-se verificado, com frequência, recomendações desnecessárias e uso de doses excessivas desses fertilizantes químicos, aumentando os custos do produtor. Talvez o melhor exemplo seja o de algumas sugestões de uso de fertilizantes nitrogenados na cultura da soja, sendo que mais de 100 ensaios de pesquisa realizados em todos os estados produtores do Brasil por mais de 15 anos, além de dezenas de dados obtidos por agricultores, por exemplo, em ensaios coordenados pelo Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb), indicam que o uso de N na cultura da soja é desnecessário, sendo importante apenas adotar boas práticas de inoculação com rizóbios.

Com o aumento no custo da produção, a percepção de que é necessário reavaliar os custos desnecessários é cada vez maior. Assim, desde o planejamento da última safra de verão, as buscas por informações e por inoculantes por parte dos agricultores têm incrementando exponencialmente. Nesse contexto, o uso de Azospirillum em coinoculação com rizóbios nas culturas da soja e do feijoeiro e em inoculação simples no milho da safra verão e, agora, do milho safrinha, aumentou. E para que serve o Azospirillum?

Os mecanismos pelos quais o Azospirillum beneficia as plantas diferem daqueles dos rizóbios, já velhos conhecidos dos agricultores. De modo semelhante aos rizóbios, existe uma contribuição pelo processo de fixação biológica do nitrogênio, mas muito menor, porque não houve uma evolução tão avançada nesse sentido, o que fica evidenciado pela falta de estruturas típicas para o processo biológico, os nódulos nas raízes de leguminosas, que representam verdadeiras “fábricas de nitrogênio”. A principal contribuição das estirpes de Azospirillum utilizadas em inoculantes comerciais no Brasil é pela produção de hormônios de crescimento de plantas, em especial ácido indol acético, e essas bactérias representam verdadeiras “bombas de fito-hormônios”.

Mariangela: a Embrapa Soja já dispõe de mais de 15 anos de ensaios a campo de inoculação com milho com Azospirillum, e, portanto, há segurança na recomendação da tecnologia

Como resultado, a inoculação com Azospirillum nas sementes, ou no sulco na hora da semeadura, promove o crescimento das raízes, sendo que, em alguns ensaios, já verificamos um incremento de mais de 100%. A importância disso é que, sendo a raiz “a boca da planta”, com mais raízes, a planta consegue absorver mais nutrientes e água do solo e, inclusive, aproveitar melhor os fertilizantes, reduzindo as perdas, que podem ser bastante elevadas nas condições do Brasil.

Como exemplo, a eficiência de uso do fertilizante nitrogenado pelas plantas nas nossas condições brasileiras raramente ultrapassa 50%. Então, lá se vai, nas chuvas, poluindo rios, lençois freáticos, emitido na forma de gases de efeito estufa e carregando o dinheiro do produtor, metade do investimento em nitrogênio.

A Embrapa Soja já dispõe de mais 15 anos de ensaios a campo de inoculação com milho com Azospirillum, nos principais estados produtores. Há, portanto, segurança na recomendação dessa tecnologia. Os resultados indicam que, em expectativas menores de produção, de baixo uso de insumos, pequenas propriedades familiares, milho safrinha de risco, pode haver a diminuição de 50% do fertilizante nitrogenado, enquanto que, para expectativas de alto rendimento, esse corte pode ser de 25%.

Além disso, ao contrário do que ocorre com leguminosas, no caso de Azospirillum não existe incompatibilidade com o fertilizante nitrogenado e resultados positivos podem ser observados mesmo sem a redução do fertilizante (veja gráfico). Tendo mais raízes, a planta também aproveitará melhor outros nutrientes, mas resolvemos focar inicialmente no nitrogênio, que em geral representa o maior custo para a cultura do milho.

Resultados relevantes também foram obtidos com a cultura do trigo. Agora, estamos conduzindo ensaios para verificar quanto os outros nutrientes podem ser reduzidos. Além disso, com mais raízes e absorção de água, temos verificado, consistentemente, maior tolerância à seca, fator muito importante frente às mudanças climáticas globais. Agora, muito importante, é lembrar que microrganismos com habilidades diferentes requerem aplicações diferentes. Fito-hormônios em excesso podem inibir o crescimento das plantas.

Consequentemente, enquanto que para os rizóbios tem-se observado que “quanto mais melhor”, para o Azospirillum a dose utilizada deve ser exatamente a recomendada, caso contrário o resultado pode apresentar inibição no crescimento. Além disso, cabe lembrar que no caso de não-leguminosas sempre será necessário colocar fertilizante nitrogenado.

Aumentou o uso de Azospirillum em coinoculação com rizóbios nas culturas da soja e do feijoeiro e em inoculação simples no milho da safra verão e também da safrinha

É muito interessante como, em experimentos conduzidos nos últimos anos, temos verificado benefícios por aplicações foliares adicionais de Azospirillum em plantas já estabelecidas. Ainda estamos identificando quais seriam os mecanismos das plantas responsáveis por esse efeito, havendo indicações de que eles não se devem às bactérias, mas sim aos seus metabólitos. Essa é outra linha de pesquisa na qual estamos nos empenhando, visando dar respostas em breve aos agricultores.

Muito potencial — O Azospirillum veio para ficar e crescer na agricultura brasileira. Vários grupos de pesquisa estão conduzindo ensaios e verificando benefícios em outras espécies de plantas. Ao contrário dos rizóbios, o Azospirillum não apresenta especificidade hospedeira. Consequentemente, a vantagem é que, ao identificar estirpes eficientes, como foi o caso dessas estirpes que a Embrapa Soja identificou ao conduzir ensaios de eficiência agronômica com as culturas do milho e do trigo, elas provavelmente também podem ser eficientes em outras plantas.

Rendimento de milho variedade DOW 2B 707 HX recebendo 24 quilos de N/ha na semeadura e não inoculado (NI) ou inoculado (I) com Azospirillum e recebendo (+NC) ou não (-N) 90 kg de N/ha em cobertura. Ensaio em Cachoeira Dourada/GO, na safra 2012/ 2013, pela Embrapa Soja (propriedade de Abílio Pacheco)

Não menos importante do que tudo que foi dito é estar consciente dos benefícios ambientais que o Azospirillum traz pela substituição de fertilizantes nitrogenados, altamente poluentes das águas e da atmosfera.

Internacionalmente, considera-se que a síntese e o uso de 1 quilo de N-fertilizante equivale à emissão de 10 quilos de CO2. Sendo muito mais restritivos, temos usado o valor de 4,5 quilos equivalentes de CO2 e, pensando na redução de pelo menos 25% do N utilizado pela cultura do milho em 15 milhões de hectares, fica evidente a grande contribuição que o Azospirillum pode trazer ao Programa ABC do governo brasileiro.

Consequentemente, é necessário identificar mecanismos que premiem o agricultor que adota essa prática. E segue um convite para visualizar e divulgar uma animação elaborada pela Embrapa sobre o Azospirillum no milho (www.youtube.com/ watch?v=Fsbq0N6jzcQ).