Feijão

Perspectivas PROMISSORAS para a cultura no MT

Colheita do material BRS Madrepérola na Fazenda Vitória, Sorriso/MT, cultivado na terceira safra (irrigada) com produtividade superior a 45 sacas/hectare

No Mato Grosso, a área com o feijoeiro comum de segunda safra tem aumentado nos últimos cinco anos, assim como o cultivo do feijão irrigado, de terceira safra, realizado pela agricultura empresarial com alta tecnologia, sobretudo nas Regiões Sul e Médio-Norte. Há produtividades de 55 sacas/hectare

Flávio Jesus Wruck, pesquisador da Embrapa Arroz e Feijão Texto e Fotos

Feijão é o nome genérico para um grande grupo de plantas da família das leguminosas (Fabaceaes), que tem como característica marcante a ocorrência do fruto do tipo legume, também conhecido como vagem. Entre a família das leguminosas, as principais espécies de feijão cultivadas no Brasil são Phaseolus vulgaris, ou feijão comum; Vigna unguiculata, também conhecida como feijãocaupi, vigna ou feijão-de-corda; Canavalia ensiformis, popularmente referida como feijão-de-porco, e; Cajanus cajan, conhecida como feijão-guandu.

O feijão comum, objeto deste texto, constitui a base da dieta alimentar no Brasil por ser uma fonte relativamente barata e rica em proteínas, ferro e carboidratos. O consumo médio estimado de feijão é cerca de 15 quilos/brasileiro/ano. Já a preferência do consumidor é regionalizada e diferenciada principalmente quanto à cor e ao tipo do grão. No Mato Grosso, o feijoeiro comum é cultivado nas três safras (1ª safra ou das chuvas, 2ª safra ou safrinha ou da seca, 3ª safra ou irrigada), destacando-se a segunda e a terceira safras com aumento significativo da área cultivada (e da produção) nos últimos três anos agrícolas. Apesar da pouca relevância econômica, a primeira safra tem elevada relevância social no estado, pois é cultivada, notadamente, pela agricultura familiar (assentados na sua maioria), constituindo em uma excelente fonte de proteínas e, também, de renda pela comercialização regional da sua produção excedente.

A área cultivada na safra tem sofrido pouca alteração nos últimos três anos agrícolas, girando em torno de 11 mil hectares (10.800 hectares na safra 2014/15). Decorrente das condições climáticas desfavoráveis (temperaturas elevadas e excesso de chuvas) e da baixa tecnologia empregada (adubação e tratos culturais deficitários, uso de grãos como sementes), a produtividade média alcançada no ano agrícola 2014/15 foi de 1.570 kg/ha (26,2 sacas/ha), dentro do esperado para esse cultivo (1.550 kg/ha). Infelizmente, em função das condições climáticas desfavoráveis e da inexistência de materiais genéticos no mercado adaptados para tal, a potencialidade desse cultivo deverá continuar limitada para a maioria das áreas produtoras do Mato Grosso a curto e médio prazos.

A área cultivada na segunda safra (safrinha) com feijoeiro comum no Mato Grosso tem aumentado consideravelmente, notadamente nos últimos cinco anos agrícolas, atingindo cerca de 60 mil hectares em 2015. A Região do Médio-Norte tem se destacado nesse cultivo com mais da metade dessa área plantada. Apesar de ser praticada, na sua maioria absoluta, pela agricultura empresarial (sojicultores altamente tecnificados), a intensidade do uso de tecnologias nesse cultivo depende muito da expectativa de preço vislumbrada pelo mercado, notadamente o paulista (“Bolsinha de São Paulo”), transformando- o em uma oportunidade de negócios de segunda safra, concorrendo diretamente com milho, feijão-caupi e algodão.

Em função da logística desfavorável do estado e da distância aos grandes centros consumidores, é imprescindível que os produtores utilizem as melhores estratégias de comercialização

Esse fato, aliado à restrição pluviométrica da época, tem limitado a produtividade desse cultivo em torno de 1.300 kg/ ha (21,6 sacas/ha), resultado obtido na safrinha de 2015. Todavia, já foi conseguido em áreas comerciais nos anos de 2014 e 2015, com uso mais intenso de tecnologias, produtividades variando entre 2.100 a 2.400 kg/ha (35 a 40 sacas/ha), evidenciando o potencial desse cultivo para o Médio-Norte e Norte do estado matogrossense.

Como se trata de um cultivo de oportunidade, no qual os produtores mato-grossenses teriam condições de ofertar feijão “novo” (recém-colhido) em pleno período da seca (maio a agosto), é imprescindível que os mesmos armazenem seu produto previamente limpo em sua propriedade e o venda no melhor momento do mercado. Isso exige que o material plantado mantenha sua cor branca (feijão carioca) por um longo tempo (pelo menos seis meses) após a colheita para não perder valor de mercado. Até 2014, os produtores tinham praticamente dois materiais que atendiam esse quesito, sendo um deles “crioulo” que, apesar de ser o mais cultivado na região, apresenta uma série de desafios agronômicos.

A partir de 2014, empresas privadas incentivadas e apoiadas pela Embrapa passaram a testar e validar outros materiais com essa característica para o Médio-Norte e Norte do Mato Grosso.

Dentre os vários materiais testados, a cultivar BRSMG Madrepérola, lançada em 2012 pela parceria Embrapa-Epamig- UFLA, destacou-se tanto nos cultivos de safrinha quanto de terceira safra (irrigado) para a Região Médio-Norte do Mato Grosso. A validação desse novo material, aliado ao incremento no uso de tecnologias e aos bons preços obtidos pelo feijão colhido nas últimas safrinhas, tem gerado boas expectativas com relação ao aumento da área e da produção desse cultivo no Mato Grosso para os próximos anos, notadamente para as Regiões do Médio-Norte e Norte do estado, mais favoráveis a este cultivo. Muito possivelmente, dentro do médio prazo, o estado deverá ultrapassar o patamar dos 100 mil hectares cultivados na safrinha.

Terceira safra, irrigada — O cultivo do feijão irrigado (3ª safra), realizado pela agricultura empresarial (sojicultores e cotonicultores), empregando alta tecnologia, tem sua área aumentada ano após ano no Mato Grosso, notadamente nas Regiões Sul e Médio-Norte do estado.

Segundo levantamento da Agencia Nacional de Águas (ANA, 2013), o estado contava com mais de 67 mil hectares sob pivôs centrais, dos quais, pelo menos, 60 mil hectares eram ocupados pelo cultivo do feijoeiro comum (Associação dos Irrigantes do Mato Grosso, 2015). Infelizmente, devido, principalmente, à limitação de temperatura, a produtividade média do feijoeiro comum irrigado no Mato Grosso foi de 2.449 kg/ha (40,8 sacas/ha) no ano de 2015, próximo da média dos últimos três anos agrícolas (2.400 kg/ha ou 40 sacas/ha).

De forma semelhante ao ocorrido com o cultivo de safrinha, diversas áreas comerciais de pivô central implantadas com o material BRSMG Madrepérola em 2015, na Região do Médio-Norte mato-grossense, tiveram uma elevação significativa na sua produtividade, que, em alguns casos, ultrapassou os 3.300 kg/ha (55 sacas/ha), atingindo os mesmos patamares das regiões tradicionais de produção de feijão irrigado dos estados de Goiás e Minas Gerais. Esses resultados, ainda que em um primeiro ano de validações de tecnologias, mostraram- se muito promissores, revelando o grande potencial que o Médio-Norte e Norte do Mato Grosso possuem para a produção do feijoeiro comum irrigado (ainda falta testar e validar esse material para outras regiões produtores de feijão comum do estado).

Na Região Norte do estado (Bioma Amazônia), com a limitação legal do uso da área na propriedade em 20%, é fundamental intensificar o uso da terra de forma sustentável. O feijoeiro comum irrigado é uma das opções promissoras para o uso da terra no período da seca, pois tem grande potencial produtivo e nem a água e nem a energia elétrica para irrigação serão fatores limitantes na região. Nessas áreas irrigadas podem ser utilizados diferentes sistemas de produção agrícola sustentável. O sistema com soja na safra, arroz na safrinha e feijoeiro comum irrigado na terceira safra seria um bom exemplo.

Outra opção que também pode ser usada é a entrada do feijoeiro comum irrigado em terceira safra após a sucessão soja-milho. Nesse último caso, o uso da braquiária em consórcio com o milho teria papel importante na formação de palhada para o feijoeiro, além de incrementar matéria orgânica no solo. Ainda o sistema formado por soja na safra, consórcio milheto com braquiária na safrinha e feijoeiro comum irrigado na terceira safra seria outro bom exemplo. Em áreas com problemas de nematoides, o milheto poderia ser substituído por crotalárias no consórcio com a braquiária.

Respeito à janela — Independentemente do sistema utilizado, é necessário respeitar a “janela” de semeadura do feijoeiro comum irrigado definida para o Médio-Norte e Norte mato-grossenses, entre meados de maio e meados de junho. Isso para se evitar o enchimento de grãos em agosto e a colheita dos mesmos já no início do período chuvoso. Além de prejudicar a qualidade do produto, esse atraso aumentaria o período com planta viva no campo, formando uma ponte verde para pragas e doenças entre a 3ª safra e a 1ª safra do ano agrícola seguinte.

Independentemente do cultivo, em função da logística desfavorável do estado e da distância do mesmo aos grandes centros consumidores, somado à volatilidade e à imprevisibilidade do mercado comprador, é imprescindível que os produtores mato-grossenses utilizem as melhores estratégias de comercialização para viabilizar economicamente a cultura no Mato Grosso. Assim, a utilização de materiais genéticos de feijoeiro comum com retardamento do escurecimento dos grãos após a colheita e existência de uma infraestrutura básica de pré-limpeza e armazenamento dos mesmos na propriedade rural é tão ou mais relevante do que os melhores tratos culturais para viabilizar economicamente a cultura do feijoeiro comum mato-grossense.