Crédito

 CRÉDITO escasso, mas ainda existente

O ano iniciou com forte retração nas vendas de máquinas, mas as instituições financeiras investem em condições especiais para o produtor que pretende ir às compras

Denise Saueressig [email protected]

Afalta de confiança sobre os rumos da economia brasileira está fazendo com que os produtores coloquem o pé no freio na hora de decidir por novos investimentos. A constatação é da indústria de máquinas e implementos agrícolas, que viu as vendas despencarem neste início de ano. Os números da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) mostra que a comercialização de tratores teve queda de 57,9% em janeiro, em comparação com o mesmo mês de 2015. Entre as colheitadeiras, a redução foi de 12,2% no mesmo período. No total, entre máquinas agrícolas e rodoviárias, as vendas tiveram decréscimo de 53,2%.

O começo do ano tradicionalmente é uma época de menor movimento, em função das férias e da retomada gradual das atividades, mas o percentual de encolhimento surpreendeu, admite a vicepresidente da Anfavea, Ana Helena de Andrade. No entanto, na opinião da executiva, há boas razões para acreditar que o cenário não deverá continuar assim nos próximos meses, especialmente a partir do segundo trimestre. “A produção no campo deverá ser recorde e o dólar alto favorece os preços das commodities. O que existe neste momento é uma crise de confiança entre os produtores, em que questões subjetivas têm maior influência do que as objetivas”, afirma. “O produtor sabe que o investimento em maquinário é imprescindível

Ana Helena de Andrade, da Anfavea: expectativa é de mudança no cenário, especialmente a partir do segundo trimestre para garantir a produtividade, e há um limite para postergar esse investimento”, acrescenta a executiva. A expectativa da Anfavea para o decorrer de 2016 é de números bem próximos aos do ano passado, com um pequeno incremento em torno de 2% nas vendas de máquinas agrícolas e rodoviárias.

Em 2015, o segmento registrou queda de 34,5% nos negócios, que somaram 44,9 mil unidades. A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) trabalha com projeções parecidas. Apesar do fraco desempenho na largada de 2016, a estimativa para este ano é de estabilidade em relação a 2015, na avaliação do presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Abimaq, Pedro Estevão Bastos. “Os fundamentos do setor indicam que não há motivos para uma retração expressiva nos negócios”, observa o executivo, lembrando que a queda no mercado no ano passado ficou próxima dos 30%.

João Carlos da Silva, do Bradesco: equipe especializada vai atender os produtores na Expodireto Cotrijal

Hora de aproveitar os recursos — Ao produtor que está pensando em adquirir um novo equipamento, a recomendação é para que não adie mais a decisão. O conselho é válido porque a indústria considera provável que os recursos do Moderfrota (Programa de Modernização da Frota) terminem antes do final de junho, quando encerra o atual Plano Agrícola e Pecuário. “Poderá haver um remanejo ou aporte de recursos caso seja necessário, mas não temos como ter certeza de que isso vai ocorrer, assim como não sabemos quais serão as condições do novo Plano Safra”, destaca Bastos. Para o período 2015/2016, o Moderfrota foi anunciado com R$ 3,44 bilhões de limite orçamentário, com taxas de juros que variam entre 7,5% e 9% ao ano. Segundo o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o total comprometido até janeiro era de R$ 1,99 bilhão.

A linha voltou a ser requisitada pelos produtores desde o término do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), em dezembro. O Moderfrota também é considerado mais estável e atrativo do que o Finame Agrícola, por exemplo, que tem custo financeiro definido pela Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), que é reajustada a cada três meses. “É importante lembrar que os produtores também contam com outras opções de financiamento, como o Mais Alimentos e o Pronamp”, acrescenta o dirigente da Abimaq.

O BNDES está trabalhando com proatividade para que não faltem recursos para o produtor rural efetivar seus investimentos, garante o gerente da Área de Agropecuária e Inclusão Social do banco, Tiago Peroba. “Estamos em constante contato com os bancos públicos, privados, das montadoras e das cooperativas para acompanhar a demanda, que sabemos que é forte por esses recursos”, ressalta.

Próximo do produtor — Entre as grandes instituições financeiras do País, a ordem é direcionar esforços para atender pedidos e facilitar as negociações que envolvem máquinas agrícolas. Faz parte da estratégia oferecer condições especiais de financiamento, principalmente em eventos do setor, como as feiras agropecuárias. Na próxima mostra do calendário, a Expodireto Cotrijal, em Não-Me-Toque/RS, entre 7 e 11 de março, os bancos prometem atrativos específicos para o público do campo. O diretor de Empréstimos e Financiamentos do Bradesco, João Carlos Gomes da Silva, conta que o banco estará na feira com uma equipe especializada. Segundo ele, recentemente a área voltada ao atendimento da cadeia produtiva do agronegócio foi reestruturada. “O objetivo é atender as necessidades dos nossos clientes, desde a preparação do solo e plantio, até a colheita e comercialização, por meio de soluções customizadas”, assinala.

O executivo lembra que o Bradesco disponibiliza linhas que atendem desde o pequeno agricultor até os grandes grupos empresariais, com destaque para programas como o Moderfrota, Pronamp, Moderinfra, PCA (Programa para Construção e Ampliação de Armazéns), Moderagro, CDC (crédito direto ao consumidor) e leasing com condições especiais de financiamentos para cada perfil de cliente.

Gerson Seefeld, do Sicredi: associados da cooperativa terão R$ 220 milhões em linhas de crédito na Expodireto

No Santander, as máquinas protocoladas durante as feiras são isentas da cobrança da comissão flat. Além disso, no caso de 20% de entrada com recursos próprios do cliente, a própria máquina garantirá a operação sem a necessidade de garantia adicional, explica o superintendente executivo de Agronegócios do banco, Carlos Aguiar. “O prazo de financiamento é de até oito anos para tratores, colheitadeiras e autopropelidos e para os demais equipamentos é de até cinco anos”, complementa.

Para a Expodireto, o Santander tem 267 clientes pré-selecionados em todo Rio Grande do Sul, totalizando um potencial de R$ 267 milhões em crédito pré-aprovado. Especificamente para os negócios que envolvem máquinas agrícolas, o banco destaca o Moderfrota, o Pronamp, o Inovagro e o Finame Agrícola.

Além de trabalhar com as diversas linhas de financiamento disponíveis, o Banco do Brasil desenvolveu um novo modelo de negócios para apoiar o financiamento de máquinas e implementos agrícolas: a Esteira Agro BB. Nesse modelo, detalha o superintendente do BB no Rio Grande do Sul, Edson Bündchen, foi constituída uma equipe especializada para análise de operações e apoio ao relacionamento com as revendas e fabricantes que, ao formalizarem contrato de correspondente comercial agro com o banco, têm acesso às ferramentas de tecnologia e aos treinamentos desenvolvidos para os procedimentos de inclusão e acompanhamento digital das propostas.

“Além dessa sistemática, foi desenvolvida uma solução de aplicativo para smartphones e tablets que permite aos produtores rurais e revendas simularem e encaminharem ao banco, por meio de seus dispositivos móveis, as propostas de financiamento rural”, descreve o superintendente.

Atendimento personalizado — Responsáveis por cerca de 10% das operações de crédito rural no País, as cooperativas de crédito também estão atentas ao momento desafiador dos investimentos no campo. Ainda que o cenário indique dificuldades no financiamento com fontes controladas, o Sicredi estará na 17ª edição da Expodireto com R$ 220 milhões à disposição dos seus associados em linhas voltadas à aquisição de máquinas, sistemas de irrigação e fomento às cadeias produtivas. Segundo o diretor executivo da Central Sicredi Sul, Gerson Seefeld, em 2015, foram protocolados 1.573 pedidos de financiamentos na feira, o que representou R$ 170,8 milhões. Presente na feira desde a primeira edição, o Sicredi registrou, nos últimos seis anos de exposição, mais de 11 mil propostas que representaram quase R$ 800 milhões.

Sicoob não estará presente na feira de Não-Me-Toque, mas mantém operações constantes com programas oficiais para a aquisição de máquinas, com destaque para o Pronaf Mais Alimentos, para o agricultor familiar; o Pronamp, para o médio produtor; e o Moderfrota.

“Também trabalhamos com atendimento personalizado ao produtor e oferecemos uma linha exclusiva para investimento com recursos próprios livres, com origem de um fundo do Sicoob”, relata a gestora de Crédito Rural do Sicoob Central Unicoob, Terezinha Barbosa. A projeção é de liberação de cerca de R$ 6 bilhões em crédito rural na safra 2015/ 2016, volume semelhante ao do ciclo 2014/2015.

Terezinha Barbosa, do Sicoob: operações envolvem programas oficiais e linha para investimento com recursos próprios livres