Reportagem de Capa

 ARROZ em tempos de El Niño e altos custos

A nova safra de arroz que começa a ser colhida no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina vem pautada pelas perdas causadas pelo fenômeno climático El Niño, principalmente nas lavouras gaúchas. O dólar valorizado favorece as exportações de arroz, mas para muitos produtores, nem os preços firmes no mercado interno devem compensar a alta nos custos de produção impulsionada pelo aumento no preço dos insumos e na tarifa de energia elétrica

Gilson R. da Rosa

Na lavoura do produtor Angelo Dovigi, em Uruguaiana/RS, a água do Rio Quaraí deixou 120 hectares de lavoura de baixo da água, e outros 100 hectares “pareciam nem ter sido plantados”, define ele

O Brasil vai produzir menos arroz na safra 2015/16. De acordo com os dados do relatório de fevereiro da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção esperada é de 11,5 milhões de toneladas, 7,7% a menos que o volume colhido no período anterior. No Rio Grande do Sul, maior produtor do cereal, o desempenho das lavouras também deverá ficar abaixo do estimado pelo mercado, considerando o atraso no início do plantio e o excesso de chuvas nas principais regiões produtoras. A área estimada em 1,08 milhão de hectares é 3,3% menor do que a safra anterior, sendo que a produção total deverá ficar em 7,8 milhões de toneladas, com uma produtividade média de 7,2 mil quilos por hectare.

As lavouras gaúchas foram as mais afetadas pelo fenômeno climático El Niño, apontado como o mais intenso das últimas três décadas. As perdas, segundo o Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), são de 15% sobre a expectativa inicial de produção. “As regiões mais afetadas no estado foram a Depressão Central, a Campanha e a Fronteira Oeste, onde os volumes de chuvas chegaram a ficar até duas vezes superiores às médias históricas”, observa o meteorologista Marco Antonio dos Santos, da Somar Meteorologia.

Na avaliação do presidente do Irga, Guinter Frantz, a queda na produção do estado também resulta de uma soma de fatores como o atraso no plantio e a deficiência de manejo, que aliados à instabilidade climática, resultaram em grandes prejuízos às lavouras. “Com base nesse quadro, deveremos produzir cerca de 1,3 milhão de toneladas de arroz a menos do que na safra passada. Trata-se de um volume muito significativo, mesmo considerando que em anos de El Niño exista uma tendência de se produzir um pouco menos”, estima o dirigente.

Segundo Henrique Dornelles, presidente da Federarroz, nem os preços, que estão em média 15% maiores que na safra passada, deverão compensar o aumento das despesas com a lavoura

Para o presidente da Federação das Associações de Arrozeiro do Rio Grande do Sul (Federarroz), Henrique Dornelles, a safra 2015/16 está sendo muito dura para os produtores gaúchos. “Vamos colher uma das menores produções dos últimos cinco anos. O clima, com chuvas abundantes, influenciou negativamente desde o preparo do solo, atrasando o plantio e prejudicando os tratos culturais. Com isso, o produtor precisou de um maior aporte de recursos financeiros para cumprir o cronograma técnico”, afirma. Segundo ele, nem os preços, que estão em média 15% maiores que na safra passada, deverão compensar o aumento das despesas com a lavoura. “Os custos de produção, puxados pela alta da tarifa de energia e os preços do diesel, dispararam com a alta do dólar e certamente vão comprometer ainda mais a renda do produtor”, acrescenta.

Apesar desse cenário, o dirigente considera que o RS segue mantendo sua relevância na produção brasileira do cereal, que deve chegar a quase 70% do volume a ser colhido no País. “Isso se deve principalmente à redução da intenção de plantio de vários estados produtores, que trocaram o arroz pela soja ou pelo milho para obterem uma melhor rentabilidade. Também deveremos manter o mesmo bom desempenho das exportações das últimas safras. A expectativa é de que até o final de fevereiro (término do ano comercial) tenhamos embarcado 1,4 milhão de toneladas para o mercado externo”, pontua.

“Em anos de El Niño devese evitar plantar em áreas sujeitas à enchente, próximas às margens de rio ou de barragens, e antecipar o plantio em torno de uma semana”, orienta Rodrigo Schoenfeld, do Irga

Janela de plantio — Além das enchentes, o atraso no plantio também é apontado pela pesquisa como um dos fatores limitantes à produtividade de boa parte das lavouras gaúchas, principalmente na Depressão Central e na Fronteira Oeste. “Estimamos que nessas lavouras plantadas depois do Natal, a produtividade fique na média dos 5 mil quilos por hectare. Se olharmos as primeiras áreas que estão sendo colhidas, semeadas dentro do período recomendados pela pesquisa, que vai de 5 de outubro a 15 de novembro, o rendimento já chega a superar os 6 mil quilos por hectare”, compara o gerente da Divisão de Pesquisa do Irga, Rodrigo Schoenfeld.

O pesquisador recomenda que os produtores passem a dar cada vez mais atenção às previsões da meteorologia e usar essas ferramentas de diagnóstico do clima no planejamento da lavoura. “Em anos de El Niño, deve- -se evitar plantar em áreas sujeitas à enchente, próximas às margens de rio ou de barragens e antecipar o plantio em torno de uma semana. Uma estratégia, se for possível, é dimensionar o uso de máquinas, ou seja, reduzir o número de hectares por linha. É interessante plantar 10% da área por dia, como fazem os produtores com maior rendimento. Mas em anos como este, é interessante que o produtor consiga plantar a sua área em sete dias, aumentando a sua capacidade de plantio para 13% ou 14% da área por dia, mas sempre evitando as áreas de risco”, aconselha. Conforme Schoenfeld, os produtores da Fronteira Oeste são os que melhor utilizaram essas ferramentas de diagnóstico climático no planejamento da safra 2015/16. É o caso do agricultor Evandro Pilecco, de 41 anos, que cultiva 140 hectares de arroz em uma área arrendada às margens da BR 290, em Alegrete/RS, e costuma colher em média 8,6 mil quilos por hectare. “Fiz o preparo de solo bem cedo e comecei o plantio no dia 3 de setembro, praticamente 30 dias antes do período recomendado pela pesquisa. Resolvi antecipar justamente em razão das previsões que apontavam um El Niño bastante severo”, informa.

Ele explica que as chuvas começaram logo após a conclusão do plantio, o que causou certa apreensão ao produtor: “Foram 480 milímetros de chuva em cima da lavoura até o arroz nascer. Fiquei preocupado porque o arroz levou quase 40 dias para nascer, mas depois correu tudo bem, graças também ao fato de só utilizarmos sementes certificadas e tratadas. Comecei a colher no dia 19 de fevereiro e até agora tudo indica que vamos ter uma produtividade acima de 7.800 quilos por hectare”, estima Pilecco.

Além dessa área, Pilecco também é responsável pelo cultivo de 580 hectares de lavoura que pertencem ao tio Gilberto Pilecco. “Hoje deixo tudo ao encargo do Evandro porque ele tem a mão para a coisa. Além disso, trabalhando de forma integrada nas duas propriedades conseguimos racionalizar o uso de máquinas, insumos e mão de obra. Isso também nos proporciona uma redução de custos significativa, que nesta safra estão nas alturas”, ressalta Gilberto.

A expectativa de Gilberto Pilecco é de que sua lavoura renda um pouco mais do que a do sobrinho por ter sido plantada alguns dias mais tarde. “Normalmente, colho em torno de 9,2 mil quilos por hectare, mas nesta safra, devido a esses fatores climáticos, acho que vamos ficar bem próximos a 8,6 mil quilos por hectare, o que ainda está bem acima da média do estado”, complementa.

Apesar do bom desempenho das lavouras, Gilberto Pilecco prevê uma safra menor em termos de rentabilidade. “Os gastos com energia elétrica dispararam. “A conta de luz do Evandro, que era de R$ 6.680 no período entre 12 de dezembro de 2014 e 13 de janeiro de 2015, saltou para R$ 12.786,38 entre 11 de dezembro de 2015 e 13 de janeiro de 2016, um aumento de quase 100%. Já a minha despesa com energia, na comparação com o mesmo período, passou de R$ 17.261,09 para R$ 70.624,5, ou seja, um aumento de quase 500%. Em ambos os casos, o consumo foi praticamente o mesmo. Isso é inexplicável”, lamenta o produtor.

Devido ao enfraquecimento do El Niño e uma tendência de resfriamento das águas do Oceano Pacífico, os modelos de projeção já sinalizam para uma possível formação do La Niña durante a primavera de 2016. Evandro, por sua vez, está atento a esse período de transição climática. “Eu já estou meio preparado”, diz o agricultor apontando para o açude localizado ao fundo da propriedade. “Em ano de La Niña a gente sabe que chove menos e a Fronteira Oeste é uma região que não tem água necessária. Então temos que armazenar e otimizar o uso da água”, a s s e g u r a o agricultor.

Ano de prejuízos — A Fronteira Oeste foi a segunda região mais atingida pelas cheias no estado, e, ao contrario de Evandro Pilecco, são muitos os produtores que ainda contabilizam os prejuízos na lavoura. O diretor secretário da Cooperativa Agrícola Uruguaiana, Ariosto Pons Neto, estima uma perda de 4% na área plantada com arroz na região. “Se levarmos em conta a área total cultivada, que varia de 100 mil a 105 mil hectares, estimamos algo em torno de 3.400 hectares e 4 mil hectares perdidos com as cheias”, calcula. Conforme o dirigente, cerca de 40% das lavouras foram plantadas fora da época recomendada e podem apresentar queda em produtividade. “Mesmo nas lavouras que foram plantadas na época certa, os tratos culturais não funcionaram e tivemos que fazer tudo por avião, o que acabou encarecendo ainda mais os custos”, pontua.

Para o produtor de Uruguaiana/RS Angelo Dovigi, esta safra já pode ser considerada a pior dos últimos cinco anos. “Por conta da enchente no Rio Quaraí, fiquei com 120 hectares de lavoura de baixo da água. Outros 100 hectares pareciam nem ter sido plantados. Quase todo mundo na região está na mesma situação, mas há casos de agricultores que perderam até 800 hectares. Para esses o ano está praticamente perdido”, avalia. Dovigi, que cultiva em média 550 hectares, conta que nesta safra conseguiu plantar apenas 480 hectares por conta das chuvas. Os problemas, segundo ele, começaram antes mesmo do período de preparação da lavoura. “O preparo do solo e o plantio foram muito difíceis, o que exigiu mais horas de trabalho. Também tive que plantar fora da época recomendada. Mesmo nas áreas que não sofreram inundação, a chuva causou estragos da estrutura da lavoura, como taipas destruídas e tubulações danificadas. Em algumas parcelas, as chuvas deixaram buracos de quase dois metros de profundidade cheios de água escura. Algo que nunca se tinha visto na região”, relata.

A soma desses fatores, de acordo com o produtor, ajudou a encarecer ainda mais os custos de produção, que ficaram na faixa de R$ 38 e R$ 40 a saca de 50 quilos. “Só em diesel, calculo um gasto 30% superior. Com isso, acredito que devo colher este ano umas 20 mil sacas a menos. A única maneira de compensar todas essas perdas com algum rendimento é se os preços chegarem a R$ 60, mas acho muito difícil. Se chegarem a R$ 45 vai ser muito”, lamenta.

Dívidas acumuladas — A situação é ainda mais grave na Depressão Central, região que concentra o maior número de produtores. De acordo com o diretor técnico do Irga, Maurício Fischer, as chuvas acima das médias registradas ao longo de 2015, principalmente em dezembro, provocaram inundações e danos nas lavouras, comprometendo mais da metade da área plantada na região. “Os produtores que registraram prejuízos nesta safra ainda estão pagando endividamentos contraídos na safra 2009/2010, também em decorrência de enchentes”, observa.

Fischer, que acompanha o comportamento do El Niño desde a década de 1950 a partir de informações levantadas pelo Irga, considera este o de maior intensidade registrado até agora. As piores incidências anteriores do fenômeno ocorreram nas safras 1983/84, 1997/98 e 2009/10, sendo que nessa última as perdas foram de 14%. A diferença em relação à atual safra é que o RS já projetava uma área de plantio 5% menor em relação ao ciclo anterior. Isso faz com que uma quebra acima de 15% tenha impacto muito maior”, considera.

O setor, por meio de suas entidades representativas, como a Federarroz e a Federação da Agricultura do RS (Farsul), vem negociando com o Ministério da Agricultura um tratamento diferenciado aos produtores atingidos pelo excesso de chuvas, com a renegociação de dívidas e alongamento do prazo para pagamento do custeio atual e também dos anteriores. O relatório final das perdas e prejuízos na lavoura de arroz do RS, elaborado pelo Irga, foi entregue ao secretário de Política Agrícola do ministério, André Nassar, para que, ao lado do levantamento de estimativa de safra da Conab de fevereiro (os números publicados em janeiro ainda não contabilizavam as perdas com o arroz) sirva como subsídio para que o setor possa buscar junto ao Governo Federal medidas de apoio à comercialização e ao pré-custeio da próxima safra.

Essas medidas, na análise do presidente da Federarroz, Henrique Dornelles, podem resolver ou pelo menos atenuar a situação daqueles produtores que perderam pouco ou terão a produtividade de suas lavouras comprometida. Mas, segundo o dirigente, o Governo também deverá levar em conta a situação dos agricultores que perderam tudo. “O secretário André Nassar esteve no estado em duas ocasiões e já tem uma verdadeira dimensão da situação da lavoura de arroz do RS”, revela Dornelles.

Lavoura de bons exemplos — A Zona Sul e a Planície Costeira Externa foram as regiões do estado menos afetadas pelas adversidades climáticas que marcaram o desenvolvimento da safra 2015/16. “As lavouras estão bonitas e a nossa expectativa é de manter a média de produtividade em 8.500 quilos por hectare”, garante o produtor de arroz e de sementes certificadas Irga/Basf Arnaldo Eckert, de Tapes/RS.

Eckert cultiva 800 hectares de arroz no sistema pré-germinado e outros 1.200 hectares de soja no sistema de rotação. Segundo ele, apenas 300 hectares são próprios, o restante da área é arrendada. Há 15 anos, passou a agregar a criação de gado à atividade agrícola, consolidando em sua propriedade a integração lavoura e pecuária (ILP). “O produtor tem que pensar para frente. É importante se manter informado, atualizado e atento às novas tecnologias. Eu, por exemplo, planto arroz há 57 anos e ainda estou aprendendo”, pondera.

Ele conta que começou a plantar a oleaginosa no sistema de rotação há 17 anos. “Fui um dos pioneiros na região. Na época, me chamavam de louco, mas hoje a soja é uma realidade. Colho 5 mil quilos por hectare, bem acima da média estadual. Inicialmente, meu objetivo era agregar renda à propriedade, reduzir custos e controlar o arroz vermelho. Em uma área de 2.500 hectares cheguei a ter 200 hectares comprometidos em razão do arroz vermelho. Eliminei o problema com a rotação. Hoje planto soja só para dar um intervalo na área cultivada porque o arroz vermelho não tem mais vez com a gente”, garante.

Para armazenar tanta produção, Eckert conta com sete silos com capacidade para 200 mil sacas, além de um galpão de sementes. “São esses investimentos em novas tecnologias e infraestrutura que, aliados à gestão bem conduzida da propriedade, nos permite atravessar os períodos de crise com certa tranquilidade. Hoje, com esses custos insuportáveis, puxados pelas altas do diesel, da energia elétrica e da mão de obra, seria inviável fazer todos esses investimentos. Ainda mais com os preços defasados em quase dez anos”, observa.

“Ano impraticável”, define o pequeno produtor Anilson Burigo, de Jacinto Machado/ SC, ao explicar que a saca ao preço de R$ 43 não vai compensar a alta nos custos

Santa Catarina — Em Santa Catarina, segundo maior produtor, o excesso de chuvas no final de 2015 atrapalhou o plantio e os tratos culturais das lavouras. Os dados levantados pela Conab indicam que a safra no estado deverá apresentar uma redução de 0,2% na área plantada, com um leve aumento de 1% na produtividade e, por conseguinte, aumento de 0,8% na produção, estimada em 1.065,7 milhão de toneladas. A produção de arroz no estado também sofreu variações em decorrência dos eventos climáticos recentes. O representante da Federação da Agricultura do Estado de Santa Catarina (Faesc) no Ministério da Agricultura, Rui Geraldino Fernandes, aponta as Regiões Sul e Alto Vale do Itajaí como as mais afetadas. “As atividades referentes ao plantio desta safra atrasaram em quase 30 dias devido às constantes chuvas, sendo necessário o replantio em algumas áreas, o que aumentou os custos dos produtores”, explica. Fernandes prevê uma safra dentro da normalidade, com preços na faixa de R$ 42 e R$ 43.

“O maior problema enfrentado pelos produtores catarinenses continua sendo os custos de produção, que puxados pela energia elétrica e pelo diesel, aumentaram 34%. O agricultor, que já vem endividado das safras anteriores, está descapitalizado. Além disso, o custeio não foi suficiente, obrigando o produtor a apelar para outras fontes de financiamento, como a indústria e as empresas de insumos. Em razão disso, nesta safra, usou menos tecnologia, o que poderá afetar o desempenho das lavouras em termos de produtividade”, acrescenta.

São os pequenos produtores, como Anilson Burigo, de Jacinto Machado/ SC, que cultiva 50 hectares no sistema pré-germinado e colhe em média 160 sacas por hectare (8 mil quilos), os mais prejudicados pelo clima e pela alta nos custos. “Começaremos a colher a partir da primeira semana de março e, naturalmente, a expectativa em relação à safra é muito grande. Se por um lado o clima chuvoso não causou grandes danos estruturais à lavoura, por outro, favoreceu a incidência de brusone. Alguns produtores estão fazendo até cinco aplicações de fungicidas e, na maior parte dos casos, sem muito sucesso. Isso certamente vai impactar na produtividade. Quem plantou mais cedo, por exemplo, está colhendo até 30 sacas a menos que na safra passada”, ressalta.

Burigo reconhece que os preços na faixa dos R$ 42 e R$ 43 dificilmente vão compensar a alta dos custos de produção. “A gente sabe que em tempos de crise não se pode abrir mão dos investimentos, principalmente em tecnologia, mas em anos como este fica impraticável. A maioria faz o básico, o que acaba não sendo suficiente para que se possa fazer uma boa lavoura. Fica muito difícil fazer um bom planejamento. Você precisa colher duas ou três safras bem sucedidas para compensar uma safra perdida”, afirma.

Prejuízo também na soja — A soja, cultivada no sistema de rotação com o arroz, também sofreu prejuízos com as enchentes. “Se o arroz, que ficou submerso por seis ou sete dias já registrou perdas totais, imagine a soja, que não tolera o excesso hídrico. Bastam apenas dois ou três dias embaixo da água para serem afetadas , pois é uma cultura mais sensível a o e x c e s - so hídrico”, compara o coordenador Regional do Irga na Depressão Cent r a l, Pedro Hamann.


26a Abertura da Colheita: lavoura com vistas para o futuro

O presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), Henrique Dornelles, havia deixado claro, desde o início, que a 26ª edição da Abertura Oficial da Colheita do Arroz (na foto), realizada entre 18 e 20 de fevereiro, em Alegrete/RS, não seria resumida a um evento reivindicatório pautado nos problemas enfrentados pelo setor na safra 2015/16. Pelo contrário. Ancorada no tripé inovação, tecnologia e gestão, a programação que abrangeu os três dias do maior evento orizícola da América Latina teve como foco o papel da lavoura de arroz frente a um cenário de constantes transformações. Temas como os novos rumos da pesquisa e a transferência de tecnologia, o uso da água de forma sustentável e as práticas modernas de manejo para obter altos rendimentos com a soja no sistema de rotação com o cereal, mobilizaram a atenção dos mais de 5 mil produtores presentes apenas no primeiro dia.

Um dos painéis mais concorridos do programa foi a audiência pública do Senado Federal que tratou da guerra fiscal dos estados, com a senadora Ana Amélia Lemos (PP/RS) e a participação do secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, André Nassar. A senadora apresentou a Proposta à Emenda Constitucional (PEC) 155/15, resolução que busca a unificação das alíquotas do ICMS, desonerando a cesta básica sem prejudicar a arrecadação dos estados. A guerra fiscal é o principal entrave à competitividade do arroz do RS. Durante a cerimônia que marcou oficialmente a Abertura da Colheita do Arroz, duas colheitadeiras percorreram a lavoura de meio hectare instalada no parque para simbolizar o início das operações de campo no estado.

A solenidade contou com a presença do governador gaúcho em exercício, José Paulo Cairoli, que recebeu de Dornelles um documento pedindo ao Governo do Estado que o executivo acelere a liberação de recursos para o Irga. O secretário de Desenvolvimento Agropecuário e Cooperativismo do Ministério da Agricultura, Caio Rocha, representando a ministra Kátia Abreu, afirmou que o ministério estuda medidas de apoio aos produtores gaúchos que tiveram perdas na lavoura em decorrência dos problemas climáticos. Já o Banco do Brasil anunciou a liberação de R$ 700 milhões, que serão destinados à comercialização e à aquisição antecipada de insumos para a próxima safra.


De acordo com o gerente da Divisão de Pesquisa do Irga, Rodrigo Schoenfeld, a área de soja no sistema de rotação com arroz reduziu em torno de 4,3% em relação ao ano passado. “Ela cresceu um pouco no Litoral Norte, avançou na Zona Sul e está estabilizada na campanha. A redução maior ocorreu na Depressão Central porque o produtor corretamente não ousou tanto o plantio em áreas d e r i s c o . Nos últimos quatro anos a área de soja tem se mantido em 30% da área de arroz. O número final desta safra é 273 mil hectares”, detalha o pesquisador.

Novo conceito de produção: é a ILP — O mesmo dólar alto que favorece as exportações acaba pesando no bolso do produtor, especialmente na hora de comprar os insumos. E a tendência é de que permaneçam altos ao longo de 2016, com risco de mais alta no segundo trimestre, justamente o período de compras para a próxima semeadura.

Diante desse cenário, investir em novos conceitos de produção, ou readequar os já existentes, pode fazer toda diferença quando o assunto é a meta e o aumento da rentabilidade de forma sustentável e a custos menores. Nesse aspecto, tecnologias como a integração lavoura- pecuária (ILP), uma prática muito antiga entre os produtores de arroz no RS, vem ganhando força como uma importante estratégia na busca pela inovação da gestão produtiva. No Rio Grande do Sul, um dos experimentos mais interessantes nesse campo da pesquisa, sobretudo por contemplar a lavoura de arroz, vem sendo conduzido na Fazenda Corticeiras, município de Cristal, através de uma parceria público-privada entre Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Embrapa, Serviço de Inteligência em Agronegócios (SIA), Integrar – Gestão e Inovação Agropecuária e o Irga.

O trabalho experimental visa representar e estudar diferentes cenários para os sistemas de produção comumente utilizados nas terras baixas do estado, permitindo a pesquisa, a discussão e a formatação de modelos produtivos integrados de lavoura- -pecuária que agreguem sustentabilidade aos sistemas que produzem arroz irrigado no RS.

O coordenador do projeto, Felipe Carmona, explica que o trabalho realizado até agora aponta para um salto extraordinário nas lavouras de arroz da metade Sul. “A cultura do arroz é baseada na tecnologia de insumos, o que em boa parte dos casos não se traduz em sustentabilidade tanto em nível econômico, quanto ambiental. Entretanto, os resultados obtidos com as pesquisas mostram que estamos caminhando para uma agricultura de processos baseada no plantio direto e na ILP, menos dependente do uso de insumos”, assegura.

Fonte: Irga *Produtividade não estimada


Mercado – leia-se dólar – favorece exportações

A alta do dólar frente à moeda brasileira, ao mesmo tempo em que pesa na compra de insumos, como fertilizantes e fungicidas, acaba sendo um bom negócio para o arroz gaúcho no mercado internacional. As exportações do grão no ano comercial, iniciado em março de 2015, devem chegar a 1,4 milhão de toneladas, até o encerramento do período. Será o segundo melhor desempenho em embarques para o exterior da história do setor no RS. No ciclo passado, a marca atingida foi de 1,07 milhão de toneladas.

O presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Arroz Parboilizado, Marco Aurélio Amaral Jr., estima que até a metade do ano o RS terá exportado de 300 mil a 400 mil toneladas de arroz base casca sem maiores contratempos. “Nesta safra, tivemos problemas com o El Niño, mas temos que pensar nas exportações com uma visão de longo prazo. O estado vai continuar exportando 10% da sua safra, se não mais, independentemente do volume a ser colhido no período. Além disso, os preços estão firmes e o mercado internacional está favorável”, considera o dirigente. O Brasil também vem negociando com a Nigéria para que o RS volte a exportar arroz para aquele país africano após a suspensão de tarifas para importação do produto brasileiro. A Nigéria, que já foi um dos principais clientes do cereal gaúcho há alguns anos, inviabilizou o comércio a partir de 2012 devido à barreira protecionista imposta pelo governo local.