Segredo de Quem Faz

Comando FEMININO

Denise Saueressig
denise@agranja.com

Com apenas 26 anos, a produtora rural e advogada Thaís Carbonaro Faleiros Zenatti revela com sua história que as transformações incorporadas ao agronegócio nos últimos anos trouxeram uma série de boas notícias para o País. São conquistas que vão além de números e indicadores econômicos e que também mostram sinais de progresso social. Em um meio que tradicionalmente é ocupado por homens, mulheres como Thaís vêm conquistando espaços definitivos de participação e liderança. A advogada natural de Itaporã/MS foi a primeira mulher a assumir um cargo na diretoria executiva da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS). Hoje é a única representante feminina na diretoria da associação, onde responde como 2ª diretora financeira, além de ser 2ª diretora tesoureira da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul). Com tranquilidade, Thaís acredita que a conduta profissional e o conhecimento são essenciais para derrubar qualquer forma de preconceito.

A Granja - Como iniciou a ligação da sua família com o meio rural?

Thaís Carbonaro Faleiros Zenatti - O campo sempre fez parte da história da minha família. Meus avós maternos, descendentes de italianos, desde muito novos já desenvolviam atividade agrícola no interior de São Paulo, e de lá vieram, na década de 1950, para o então promissor estado de Mato Grosso, iniciando aqui o plantio do café, principal grão do País na época. A produção era pequena, apenas se revertendo à subsistência da família. Na década de 1970, na cidade de Itaporã, no recém-criado estado do Mato Grosso do Sul, meu pai e dois irmãos de minha mãe se uniram para, juntos, construírem uma bela história em parceria com o campo, com atuação na agricultura, pecuária, prestação de serviços e no comércio.

A Granja – E qual é a estrutura dos negócios da família atualmente?

Thaís - A parceria dos dois irmãos e um cunhado se transformou no Grupo Jangada, uma empresa tipicamente familiar. As atividades do grupo começaram na década de 1970, em Itaporã/ MS e, atualmente, envolve propriedades rurais onde são desenvolvidas a agricultura e a pecuária. A empresa também atua na prestação de serviços de beneficiamento, armazenamento e comercialização de grãos, tratamento de sementes e venda de produtos agrícolas.

A Granja – Como você define a sua ligação com o campo? E quais são as suas funções nos negócios da família atualmente?

Thaís - A ideia sobre o campo que meus pais e tios passaram para suas crianças foi de que ele era um local em que se podia encontrar a paz. Inúmeras são as lembranças de momentos incríveis que passei na fazenda durante minha infância, brincando com animais, em cima de máquinas agrícolas, dentro de rios ou colhendo frutos das árvores. O campo é apaixonante! Quando já madura, percebi que o campo, sem nunca deixar de escapar por ele o amor, também se tratava de uma forma de sustento, com trabalho e dedicação diária. Hoje faço parte do Conselho de Família do grupo, integro os Comitês de Gestão de cada empresa e presto serviços na esfera jurídica.

A Granja - Como surgiu a oportunidade de assumir o cargo na Aprosoja?

Thaís - O convite para assumir a Diretoria Financeira da Aprosoja/MS veio em 2013, por meio do Maurício Koji Saito, atual presidente do Sistema Famasul. Na época, ele estava compondo a chapa que iria presidir, a fim de concorrer no processo eleitoral da associação, e foi quando me convidou para acompanhá-lo nessa missão como sua diretora tesoureira. A chapa foi eleita e a gestão foi durante o biênio 2014/2015.

A Granja - Quais foram os sentimentos por ser tão jovem e a primeira mulher a assumir esse tipo de cargo na associação?

Thaís - O primeiro pensamento que me surgiu quando recebi o convite foi: “quanta responsabilidade!”. Como seria capaz de exercer tamanha função sendo ainda jovem e com pouca inserção no meio sindical? Sabia que poderia existir alguma dose de resistência, mas, como fruto do trabalho sério e dedicação constante, pude driblar todas as incertezas e questionamentos e, com tranquilidade, posso dizer que o papel foi cumprido.

A Granja - Como você avalia o aumento da participação das mulheres no meio rural? Você ainda percebe preconceito? E o que é necessário para superar esse preconceito?

Thaís - Certamente ainda existe preconceito no setor, mesmo que de forma mais sutil. Em um ambiente cuja atuação histórica é predominantemente masculina, a resistência por “eles” em relação a “elas” ainda se faz presente. Entretanto, a alternativa para driblar essa dificuldade é a conduta profissional e o conhecimento. Os números mostram que há um constante avanço da atuação das mulheres em todos os segmentos da agropecuária. Atualmente, são mais de 3,5 milhões de mulheres atuando no agronegócio, contribuindo diretamente para a expansão do setor. Esse resultado demonstra a capacidade de trabalho da mulher, que tem confirmado sua força empreendedora na cidade e no campo. É evidente que, devido à maternidade e à cobrança social, a busca para se alcançar o equilíbrio no trinômio família/pessoa/ trabalho é muito mais desafiadora para as mulheres, as quais, inclusive, não devem perder a feminilidade característica. É preciso ter coragem, perseverança, trabalho duro e resiliência como fatores-chave para conquistar os avanços necessários.

A Granja – Para você, quais os diferenciais das mulheres nas atividades que envolvem o agronegócio?

Thaís - Costumo dizer que a mulher aperfeiçoa os processos de tomada de decisão, injeta criatividade e inovação e aumenta o percentual de solução de problemas. Ainda, enriquece o ecossistema rural como um todo, porque mostra maior empatia com os diversos personagens envolvidos no campo. Ao mesmo tempo, a tecnologia proporcionou à mulher a diminuição do gap, da desvantagem no campo frente ao homem quando o assunto é força bruta. Seja em cima de uma colhedora ou um cavalo, dentro de uma lavoura ou mangueiro, a mulher pode desempenhar a função de produtora rural com maestria.

A Granja – Você fez algum curso ou treinamento além da sua formação em Direito? Pretende dar continuidade à sua qualificação?

Thaís - Logo que terminei a graduação em Direito na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), tive o privilégio de ter sido selecionada para participar do II Programa de Lideranças Rurais do MS - Líder MS II. É um curso de pós-graduação com duração de dois anos, promovido pelo Sistema Famasul, em parceria com a Academia de Empreendedorismo Rural (ERA) e Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP). A turma foi composta por lideranças atuais e por possíveis futuras lideranças estaduais do agronegócio. O aprendizado conquistado foi magnífico. Pude reconhecer que para se tornar uma liderança no setor, a atuação no e para o agronegócio vai muito além da porteira, passando por disciplinas como Economia, Ciência Política, Direito, Administração, entre outras. Além disso, existe dentro do Conselho de Família do Grupo Jangada um trabalho junto a consultorias externas com o objetivo de capacitar os envolvidos sobre todas as matérias que envolvem o processo de sucessão familiar. A formação é constante, por meio de cursos, consultorias e participação em seminários sobre o assunto. Acredito muito na força da sabedoria e do conhecimento. Não se pode parar. Os planos são muitos. Além do Direito, pretendo aprofundar meu conhecimento em Gestão, principalmente a da agropecuária e a de pessoas.

A Granja - Como profissional e liderança no meio, que mudanças você gostaria de ver na agricultura brasileira?

Thaís - Existem alguns pontos da agricultura brasileira que merecem atenção e investimento constantes: capacitação e qualificação da mão de obra dos produtores rurais e de seus colaboradores; melhoria e investimento na infraestrutura do País; incentivos buscando o desenvolvimento de novas tecnologias de produção, a exemplo do que acontece com a adoção da integração lavoura-pecuária- floresta (ILPF), propiciando um leque de atividades maior ao produtor rural e fortalecendo o setor como um todo; aprofundamento do alinhamento institucional entre as instituições da agropecuária, sejam elas do setor sindical, de pesquisa ou governamentais; fortalecimento das parcerias público-privadas, por meio de convênios visando à difusão do conhecimento no setor e, principalmente, à mudança de paradigma social quanto à imagem do produtor rural brasileiro, passando do vilão da natureza para o trabalhador que tem a bonita missão de produzir alimento para o mundo. Por fim, para se alcançar mudanças sólidas e duradouras no agronegócio, acredito muito que a atenção deve ser exponencialmente voltada para a formação educacional das crianças em ensino fundamental, multiplicando o conhecimento aos pequenos. Exemplo de iniciativa nesse sentido é o Programa Agrinho, desenvolvido pelo Senar em parceria com os sindicatos rurais.

A Granja - Como você avalia os desafios de 2016, tanto no campo, envolvendo os negócios da sua família, quanto junto à Aprosoja/MS, participando da representação de produtores do Mato Grosso do Sul?

Thaís - O ano de 2016 provavelmente terá o mais emblemático reflexo das diversas crises que o País tem enfrentado nos últimos dois anos (social, política, moral e econômica). Portanto, será um ano a ser vivido com cautela. Quanto às ações da Aprosoja, elas deverão continuar desempenhando o papel que já vêm fazendo há oito anos: defendendo os interesses e deveres dos produtores de grãos de Mato Grosso do Sul, desenvolvendo ações e projetos que visam ao crescimento sustentável das cadeias produtivas do setor, orientando e incentivando a produção e o consumo de soja e derivados, e estimulando a criação de mecanismos para aquisição de insumos, comercialização, importação e exportação dos grãos, entre outras ações. Para todos os produtores rurais, 2016 será marcado pelo aumento do custo de produção, principalmente devido à alta do dólar, que encarece alguns insumos. Além disso, a liberação de crédito rural ficou mais restrita, diante do considerável aumento do nível de exigência de garantias, sem mencionar que as taxas de juros ficaram mais altas em relação à safra passada. Nesse contexto, o desafio maior será manter a contínua adoção de tecnologia no campo, que é o principal fator responsável pelos sucessivos recordes de produção de grãos no estado e no País. Apesar dessas inúmeras dificuldades, o nosso setor tem sido o responsável pela manutenção do nosso pequeno superávit na balança comercial. E o mérito por isso é todo do produtor rural brasileiro, que é arrojado, empreendedor e aberto a novos métodos de cultivo.