Eduardo Almeida Reis

 

NOVIDADES

EDUARDO ALMEIDA REIS

Véspera do Natal, fazenda dos outros. Vaca mestiça holando-zebuína, erada (hoje se diz “melhor idade”), mojo imenso, quatro bicos próximos do chão, vulva inchada, cavador da cauda afundado havia dias. Ciente de que escrevi alguns livros sobre o assunto, o chefe do estábulo resolveu consultar o sujeito hospedado na sede.

Fez melhor. Tangeu a rês idosa até defronte do alpendre onde o consultor entornava uma cerveja de 8% de álcool por volume. Fosse uísque com 40% de álcool por volume, o diagnóstico seria facílimo: “Em matéria de principalmente, não resta a menor dúvida, muito antes pelo contrário, aliás” e o digno chefe de estábulo não entenderia nada. Mas a cerveja é boa conselheira: “Acho melhor chamar o veterinário”.

Profissional que apareceu na manhã seguinte, dia do Natal de 2015, para encontrar o bezerro nascido naquela madrugada. Peso: 60 quilos, filho da idosa euroindiana com o touro Brahman oriundo do rebanho de Ana Maria Braga Maffeis, nascida em São Joaquim da Barra/SP, no dia 1º de abril de 1949, 1,60 metro de altura, excelente senhora que dialoga na tevê com o insuportável Louro José e é mãe – di-lo o Google – de Pedro Maffei Pereira de Carvalho, Mariana Maffei Pereira de Carvalho e de Joana Feola.

Até ontem nesta República Federativa, que vive curto período como estado democrático de direito, não havia leis impedindo que um fazendeiro utilizasse touro Brahman sobre vaca holando-zebuína, mas o tamanho do bezerro, a julgar pela amostra natalina, desaconselha tal cruzamento.

Como também é desaconselhável hospedar velhos chatos na fazenda dos outros, ainda que aparentados com o idoso. Isso porque televisão e família são incompatíveis. Um casal, dois adolescentes, um idoso, um imenso televisor com 140 canais a cabo: parentes que nunca se entendem nem mesmo sobre os melhores noticiários.

Faz tempo que moro sozinho com o televisor LG e minha implicância se restringe aos apresentadores que chamam bandido de suspeito. Suspeita é a mãe do sujeito que descreve o assalto de 20 bandidos a uma agência bancária no interior de São Paulo, chega a polícia, troca tiros com os ladrões e mata cinco “suspeitos”. Tudo filmado pelas câmeras de segurança da vizinhança e da própria agência assaltada.

No finalzinho do ano passado, um estudo distribuído pelo Kantar Ibope Media atualizou os dados de consumo de televisão no Brasil e a relevância do aparelho, no total dos televisores ligados, informando que o brasileiro passa em média 5 horas, 59 minutos e 45 segundos com a TV ligada. Em 2012 passava 5 horas, 29 minutos e 42 segundos. O fato de o aparelho estar ligado não quer dizer que o seu dono esteja assistindo ao programa. Na fazenda em que nasceu o bezerro de 60 quilos, o dono da empresa rural liga o televisor, seleciona criteriosamente um filme, se deita no sofá do salão e dorme de roncar. Sua família e os hóspedes que vejam o tal filme ou se danem.

Como compatibilizar o televisor com a família? É fácil. Basta inventar um aparelho que exiba diversos programas simultâneos e cada um dos moradores só veja o programa que escolheu com o seu controle remoto pessoal, na altura selecionada, usando fones de ouvidos. O imenso aparelho aparentemente desligado, ou exibindo um quadro do Carlos Bracher, do Miguel Gontijo ou do Paulo Villela – grandes pintores, meus amigos – enquanto cada um dos presentes vê e ouve o programa que escolheu.

Parece complicado, mas tudo é possível a partir do momento em que, pelo Skype Translator, você pode conversar com uma chinesa, ela falando mandarim, você português, que o Skype traduz no ato.

Através do milagroso Skype ou do computador em que componho estas linhas, conversas de início de ano são incompatíveis com o pessimismo. Portanto Portanto, vamos torcer pelos preços do leite neste 2016, do leite e da carne, do arroz e dos ovos, pela redução da violência urbana e rural a níveis civilizados, pelo funcionamento do SUS, pela redução da inflação e por um PIB decente, pelas chuvas nos lugares e nas horas certas. São coisas possíveis.

A qualidade, a eficiência, a honestidade dos políticos depende exclusivamente dos nossos votos. Votamos mal e nos queixamos, como se a culpa não fosse nossa. Há novidades na roça, algumas que ainda não entendi como a dos machinhos holandeses que chegam às 13 arrobas com um ano de idade, depois de dois meses bebendo leite e dez meses comendo milho. Carne ótima, processo lucrativo à beira-mar, no Rio, milho plantado em Goiás. Quando entender, explico.