Plantio Direto

 

A evolução do plantio direto no CERRADO

Engenheiro agrônomo e M.Sc. Ronaldo Trecenti, especialista em Integração Lavoura-Pecuária-Floresta e Sistema Plantio Direto, Consultor ILPF Projeto ABC Cerrado – Senar/CNA, Vetor Consultoria, ronaldotrecenti@hotmail.com

Oplantio direto (PD) chegou ao Cerrado pelos agricultores oriundos da Região Sul do Brasil, principalmente pelos gaúchos e paranaenses, que migraram para a região no final da década de 1970 e no início da década de 1980 atraídos pelas oportunidades de expansão das áreas de cultivo, com incentivos de crédito rural, especialmente nos programas e projetos de colonização. Os projetos destaque eram o Programa de Crédito Rural Integrado (PCRI), o Programa para o Desenvolvimento do Cerrado (PoloCentro), o Programa de Assentamento Dirigido do Alto Paranaíba (Padaf), o Programa de Assentamento Dirigido do Distrito Federal (PAD-DF) e o Programa de Cooperação Nipo-Brasileiro para o Desenvolvimento do Cerrado (Prodecer), proposto e criado pelo governo brasileiro na gestão do então ministro da Agricultura Alysson Paolinelli.

No Rio Grande do Sul, as primeiras iniciativas com o PD foram realizadas no final da década de 1960 e no Paraná aconteceram no início da década de 1970, onde, em 1972, o produtor Herbert Arnold Bartz adotou o PD em Rolândia, seguido por outros dois pioneiros, Manoel “Nonô” Henrique Pereira (in memorian), em Ponta Grossa, e Franke Dijkstra, em Castro. Em 1990, a área com PD no Brasil atingiu 1 milhão de hectares, mas no Cerrado era praticamente insignificante.

O ano de 1992 foi decisivo para a expansão do PD, tanto na Região Sul, onde o Clube da Minhoca, de Ponta Grossa/PR deu origem à Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha (Febrapdp), quanto no Cerrado, onde foi criada, em Rio Verde/ GO, a Associação de Plantio Direto no Cerrado (APDC).

No Sul, o cultivo da soja no verão e do trigo no inverno favoreceu a formação de palhada e o perfil inovador dos Fotos: Ronaldo Trecenti A utilização do milheto para a formação de palhada cultivado em sucessão à soja teve papel fundamental para a viabilização do PD no Cerrado produtores foi decisivo na adaptação de máquinas para realizar a semeadura nos restos de cultura. A indústria rapidamente incorporou as inovações na linha de produção das máquinas, que somada à utilização do herbicida de ação total glifosato deu grande impulso à expansão do PD. No Cerrado, as primeiras iniciativas com a utilização do PD surgiram em Goiás, com o produtor Eurides Penha, em Rio Verde, seguido pelo produtor Ricardo de Castro Merola, em Santa Helena de Goiás, e pelo engenheiro agrônomo John Nicolas Landers, em Morrinhos.

O clima do Cerrado é caracterizado por uma estação chuvosa, que vai de novembro a abril, quando são realizados os cultivos econômicos e uma estação seca, que vai de maio a outubro. Nas décadas de 1980 e 1990 predominava o cultivo de variedades de soja de ciclo tardio e médio, o que desfavorecia a sucessão de culturas, principalmente com o milho e com o sorgo, culturas que possibilitam boa formação de palhada. A utilização do milheto para a formação de palhada, cultivado em sucessão a soja, teve papel fundamental para a viabilização do PD. Porém, a utilização contínua de grão-semente, ou semente crioula do pasto italiano, como era conhecido o milheto trazido pelos colonizadores da Região Sul, provocou a sua degeneração genética e consequentemente a baixa produção de biomassa.

Nesse período merecem destaque as ações de melhoramento genético realizadas pelo engenheiro agrônomo Luiz Albino Bonamigo, da Bonamigo Sementes, em Bandeirante/MS, criando as cultivares BN- 1 e BN-2, e as ações de fomento e distribuição de sementes realizadas pelo engenheiro agrônomo Márcio João Scaléa, da Monsanto. Em 1995, a APDC, liderada pelo John Landers, com apoio da Cooperativa Agropecuária da Região Distrito Federal (Coopa-DF) e das empresas de máquinas e de insumos, realizou em Brasília o 1º Encontro Regional de Plantio Direto no Cerrado (ERPDC). Mas as experiências dos produtores com o PD na região à época ainda eram insuficientes para motivar seus pares para o adotarem.

Encontro de PD na região pela primeira vez — Em 1996, a APDC, com apoio dos Clubes Amigos da Terra (CAT) criados no Cerrado, fez a proposição para a Febrapdp de trazer o Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha (ENPDP) para a região, em um evento onde produtores bem sucedidos com a adoção do PD na Região Sul pudessem contar suas experiências e motivar produtores do Cerrado. Para a realização do então 5º ENPDP, em Goiânia, foi articulada uma parceria entre a Febrapdp, a APDC, a Federação de Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), a Embrapa Arroz e Feijão, a Embrapa Cerrados, a Embrapa Milho e Sorgo, a Embrapa Soja, a Embrapa Trigo e com diversas empresas do setor agropecuário.

Encontro de PD na região pela primeira vez — Em 1996, a APDC, com apoio dos Clubes Amigos da Terra (CAT) criados no Cerrado, fez a proposição para a Febrapdp de trazer o Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha (ENPDP) para a região, em um evento onde produtores bem sucedidos com a adoção do PD na Região Sul pudessem contar suas experiências e motivar produtores do Cerrado. Para a realização do então 5º ENPDP, em Goiânia, foi articulada uma parceria entre a Febrapdp, a APDC, a Federação de Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), a Embrapa Arroz e Feijão, a Embrapa Cerrados, a Embrapa Milho e Sorgo, a Embrapa Soja, a Embrapa Trigo e com diversas empresas do setor agropecuário.

Em 1996, o Brasil contava com aproximadamente 4,5 milhões de hectares com PD, dos quais 1,5 milhão estava no Cerrado. Nos anos seguintes, houve uma intensificação das ações de divulgação do PD promovida APDC, por meio da publicação do jornal bimensal Direto no Cerrado e da edição do Fascículo de Experiências, e também pela realização dos ERPDC a cada dois anos, nos anos ímpares, para não concorrer com o ENPDP, contando com o suporte dos CAT, da Embrapa, das empresas do segmento agrícola e das Fundações de Apoio à Pesquisa, com destaque à Fundação MS e à Fundação MT.

Em função da demanda por informações de PD e da necessidade da troca de experiências, alguns CAT passaram a realizar encontros locais, merecendo destaque o CAT de Rio Verde e Sorriso/MT. O desenvolvimento de pesquisas com o PD ganhou grande impulso com a adesão das unidades da Embrapa, puxadas pela Embrapa Agropecuária Oeste e seguidas por Embrapa Cerrados e Embrapa Arroz e Feijão. Animada com toda essa sinergia, a APDC fez a proposição para a Febrapdp de realizar o 6º ENPDP, novamente no Cerrado. E então, em 1998, o evento foi realizado em Brasília, com mais de 3 mil participantes, com demonstrações de campo na Coopa-DF.

Programa de capacitação técnica — Diante das dificuldades de transferência de tecnologia de PD, em 1999, a APDC criou um programa de capacitação técnica através da parceria com os CAT e as empresas de máquinas, implementos e insumos. Foi realizada mais de uma centena de palestras e dezenas de cursos, com destaque para a capacitação de extensionistas das Ematers e similares.

Para reforçar a importância das ações de capacitação/motivação dos técnicos multiplicadores, em 1999, o estado de São Paulo contava com apenas 50 mil hectares com PD. Então, a Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), em uma iniciativa liderada pelo professor Ricardo Pereira Lima de Carvalho, enviou 80 extensionistas a Brasília para um curso de imersão. Em 2000, o 7º ENPDP foi realizado em São Paulo e no mesmo ano a Secretaria do Estado da Agricultura e Abastecimento, por meio do Fundo de Expansão da Agropecuária e da Pesca (Feap), liberou linhas de crédito para o financiamento do maquinário necessário ao plantio direto, com a garantia de assistência técnica da Cati, resultando em um salto da área com PD para 1 milhão de hectares, em 2001.

Em 2003, a Embrapa Arroz e Feijão, liderada pelo pesquisador João Kluthcouski, o João K, em parceria com a Fazenda Santa Fé, em Santa Helena de Goiás/ GO, de Ricardo Merola, lançou a tecnologia do plantio consorciado de milho/ sorgo com braquiária, o hoje tão conhecido e reconhecido Sistema Santa Fé. Daí em diante, o PD deslanchou, e em 2006 o Cerrado já contava com 15 milhões de hectares. Hoje existem vários sistemas de consórcio, como o Santa Brígida e o São Mateus, e estão em fase final de validação o Santa Ana e o São Francisco.

Goiânia+20 — Com tanta inovação e com o risco efetivo de erosão provocado pela destruição dos terraços nas áreas antigas com PD no Brasil, especialmente no Cerrado, a APDC, a Febrapdp e o CAT Rio Verde, em parceria com a Faeg e a Embrapa, e com o apoio da Universidade Federal de Goiás, a Universidade Estadual de Goiás, o Instituto Federal Goiano, entre outros parceiros decidiram realizar o 15º ENPDP (www.15enpdp.com.br) novamente no Cerrado, em Goiânia, de 20 a 22 de setembro. O evento está sendo chamado de Goiânia+20 em uma alusão à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a “Rio+20”, realizada no Rio de Janeiro, em 2012.

Espera-se que neste ano o Cerrado atinja a marca dos 25 milhões de hectares com o PD, que o 15º ENPDP possa contribuir para o aprimoramento e à melhoria da qualidade do hoje então denominado sistema plantio direto. E também que os produtores possam se tornar cada vez mais produtivos, competitivos e sustentáveis, para continuar contribuindo para alimentar a população brasileira e mundial, conservando os recursos naturais e a biodiversidade do País.