Agricultura Familiar

 

Fazem bem até para o BOLSO

Engenheiro agrônomo, pós-doutor, Cirino Corrêa Júnior, Coordenador Estadual de Plantas Potenciais, Medicinais e Aromáticas do Instituto Emater/PR

O Paraná possui uma longa tradição no cultivo de plantas medicinais. A camomila foi introduzida na região metropolitana de Curitiba pelos imigrantes europeus há mais de um século, e é cultivada comercialmente há 40 anos, hoje com grande expressão pelo valor econômico-social, número de produtores envolvidos e importância como alternativa de renda para o inverno.

A camomila é cultivada em sistemas de cooperação entre os agricultores familiares e as empresas de beneficiamento, gerando 600 postos de trabalho, em uma área cultivada de 3 mil hectares, que produzem anualmente 1.500 toneladas de flores secas. O Valor Bruto da Produção foi de R$ 12 milhões em 2014.

Ao longo dos anos, o cultivo de plantas medicinais, aromáticas e condimentares conquistou outras áreas de cultivo no estado e incorporou muitas outras espécies, respondendo à demanda de várias empresas paranaenses, tais como Nutrimental, O Boticário e Herbarium.

Paralelamente, os atacadistas de outros estados que no Paraná se abasteciam passaram a solicitar quantidades cada vez maiores. Hoje, o Paraná atende 90% da demanda nacional de plantas cultivadas. Dezenove espécies ocupam 92,5% da área cultivada com plantas medicinais, aromáticas e condimentares, com destaque, além da camomila, para gengibre, capim-limão, maracujá, menta (hortelã), melissa, calêndula, cebolinha, salsinha, alcachofra, estévia, cavalinha e alecrim.

O Paraná é ainda um grande centro de coleta de plantas nativas, tais como espinheira-santa, fáfia (ginseng-brasileiro), guaco, carqueja, chapéu-de-couro, pata-de-vaca, guaçatonga, marcela e cavalinha. Dessas, as três primeiras também têm importante cultivo comercial.

Não só o aumento da demanda é responsável pela expansão da atividade do estado. O estímulo a uma agricultura ecologicamente sustentável por parte do atual Instituto de Assistência Técnica e Extensão Rural do Paraná (Emater) fomentou as iniciativas dos agricultores.

Com isso, foi desencadeado um movimento de organização dos interessados em obter informações técnicas e de mercado desse novo ramo. Profissionais de instituições de ensino, pesquisa e extensão rural, além da iniciativa privada e dos próprios agricultores familiares, vêm desenvolvendo trabalhos conjuntos no sentido de determinar as espécies mais adaptadas às condições edafoclimáticas do estado.

O cultivo diversificado de espécies vai ao encontro das necessidades do mercado e, ao mesmo tempo, está de acordo com o sistema de produção recomendado – sistema orgânico e policultivo. A produção orgânica de medicinais, aromáticas e condimentares no Paraná passou de 60 toneladas em 1995 para as 1.800 toneladas atuais.

Cerca de 80% dos produtores trabalham em escala comercial (produtores efetivos). Os demais, tais como prefeituras, pastorais da criança e da saúde, hospitais e vilas rurais, são produtores em escala não comercial.

Dos produtores efetivos, 32% estão na atividade há mais de 15 anos, grupo no qual se encontram especialmente os produtores de camomila da região metropolitana de Curitiba; 2,8% são empresários rurais, enquanto os demais são agricultores familiares e destes, 13% são especializados em produção de plantas medicinais, com 87% cultivando essas espécies como uma das atividades dentro do seu sistema produtivo.

Ganhos — Atualmente, estima-se que existam 1.800 produtores na atividade, com área cultivada de 6 mil hectares, movimentando cerca de R$ 78 milhões. Em relação a 2008, isso representa um aumento de 33% na quantidade de produtores e 82% na área cultivada e na produção. Já o aumento no valor dos produtos no mesmo período foi de 159%, demonstrando que há uma valorização crescente da atividade. Considerando os preços médios recebidos pelos produtores em um sistema de produção em policultivo, a receita bruta anual estimada da atividade situa-se entre R$ 3.700 e R$ 30 mil por hectare, sendo a diversidade das espécies cultivadas a responsável pela grande variação na receita.

Nos últimos anos, o uso de novas tecnologias de produção resultou em produtos de melhor qualidade, aumentando a remuneração. Dentre os elementos que caracterizam o grau de tecnificação dos produtores paranaenses está a forma de secagem do produto: 90% da produção é desidratada em secadores com aquecimento de ar. Porém, mesmo tendo evoluído rapidamente nos últimos anos, as tecnologias disponíveis ainda não são plenamente satisfatórias do ponto de vista da eficiência e da relação custo/benefício. Para atender a constante evolução na demanda e nos requisitos de qualidade, o desenvolvimento de pesquisas e a parceria com os serviços de extensão são primordiais.


Requisitos básicos para o cultivo

? Uma lavoura produtiva depende do material de propagação de boa qualidade, o que, nesse caso, significa identidade botânica assegurada e bom estado fitossanitário, ou seja, origem confiável.

? Uma infraestrutura básica é importante. Além dos equipamentos de cultivo usuais, é necessário uma unidade de secagem e armazenagem.

? A atividade requer grande quantidade de mão de obra e uma pessoa experiente para gerenciá-la. Em média, é necessário um trabalhador fixo por hectare e até dez sazonais.

? O destino do produto requer que o cultivo seja conduzido dentro dos princípios da agricultura orgânica: sem agroquímicos, rotação de culturas, cultivo em faixas, diversificação de espécies, adubação orgânica e verde, controle natural de pragas e doenças – práticas agrícolas recomendáveis.

? Um dos fatores determinantes para o sucesso da atividade é garantir a comercialização, pois seu mercado é bastante específico. O excesso de intermediários reduz o lucro do produtor e deve ser evitado, buscando uma integração produtor x comprador.

? Para uma maior rentabilidade, os produtores devem formar grupos para os investimentos maiores (por exemplo, secador) e também para a comercialização conjunta dos produtos.

? Apesar de o seu mercado ser limitado, as plantas medicinais-aromáticas, quando comparadas com os cultivos comerciais, apresentam maior rentabilidade.


Além das novas tecnologias, o setor demanda capital. Para realizar os investimentos necessários para implantar o cultivo, 89% dos produtores usam recursos próprios, 10,3% obtém recursos de outras fontes e somente 0,7% obteve financiamento bancário. Esses números evidenciam a carência de linhas de crédito específicas para a área, cujo investimento inicial para a construção da unidade de beneficiamento e secagem é elevado.

Além desses aspectos, a produção de plantas medicinais, aromáticas e condimentares no estado ainda tem como desafio a redução de impurezas e contaminantes na matéria-prima e a elevação dos teores de princípios ativos. Com o intuito de enfrentá-los, várias publicações técnicas foram elaboradas por técnicos do Instituto Emater, universidades e instituições de pesquisa, dentre as quais citam-se o "Boas Práticas Agrícolas (BPAs) - Plantas Medicinais, Aromáticas e Condimentares". E as perspectivas da atividade são boas neste momento em que países tradicionalmente consumidores e exportadores, como China e Índia, passaram a ser, também, importadores. O Brasil é considerado um potencial centro de produção dessas espécies, desde que faça os investimentos necessários para assegurar um produto com qualidade, nas quantidades demandadas.