Controle Biologico

Inimigos NATURAIS contra as pragas

Microrganismos, predadores e parasitos são agentes de controle das populações de insetos porque se alimentam das pragas e as tiram de ação. Devem-se priorizar produtos fitossanitários com ação seletiva a esses verdadeiros amigos da lavoura

Engenheira agrônoma Alessandra de Carvalho Silva, pesquisadora da Embrapa Agrobiologia

Um dos grandes desafios da agricultura mundial é produzir alimentos de qualidade, sem causar danos ao ambiente. Entretanto, na esfera do manejo de pragas e doenças, ainda é comum o uso de agrotóxicos de alta persistência, que causam contaminação do solo, de mananciais, de aplicadores e consumidores, mostrando a grande necessidade de buscar novas formas de tratar o problema. Diante dessa realidade, o caminho a ser trilhado pela agricultura é o da precaução e do equilíbrio, ou melhor ainda, o da prevenção.

Sob esse ponto de vista, não se pode ter uma visão simplista do problema, levando em conta apenas a planta cultivada, que tem valor econômico, e os insetos que lhe causam danos, as pragas. É necessário pensar em um terceiro agente dessa cadeia: o inimigo natural. Ele é assim chamado porque é um agente natural de controle das populações de insetos, uma vez que se alimenta deles e os leva à morte, sendo, portanto, considerado seu inimigo.

Se são inimigos das pragas, são amigos dos agricultores, aliados no combate aos problemas fitossanitários. Os inimigos naturais são organismos vivos e por isso o controle realizado por eles é chamado de controle biológico (o prefixo bio significa vida). Assim, o manejo de insetos-pragas deve ser visto como uma interação entre três níveis tróficos: plantas (com valor econômico ou não), insetos que se alimentam de plantas (pragas) e seus inimigos naturais (agentes naturais de controle).

Os inimigos naturais estão presentes em sistemas preservados, mas também são encontrados em sistemas agrícolas, sem distinção. A maior ou menor ocorrência deles está associada à forma como o sistema agrícola é manejado, se é uma monocultura ou não, se os produtos fitossanitários utilizados são seletivos aos inimigos naturais ou não, entre outros fatores. Trata-se de uma insensatez não se considerar a capacidade dos agentes naturais de controle de reduzirem a população de insetos e ácaros nos sistemas agrícolas. Eles agem sem nenhum custo para o produtor rural, controlando as populações de pragas.

Os agentes naturais e o controle biológico — Os inimigos naturais são divididos em microrganismos, predadores e parasitos (ou parasitoides) (Tabela). Os microrganismos são fungos, bactérias, vírus e outros que provocam doenças aos insetos e ácaros, mas não têm ação nociva sobre os mamíferos. Grande parte deles está disponível no mercado com formulações comerciais para pulverizações. Os predadores e os parasitoides são insetos, ácaros e aranhas que se alimentam ou parasitam os insetos e ácaros-pragas, fazendo o controle. Eles nunca causarão danos às plantas, pois o alimento dos inimigos naturais são os insetos que se alimentam de plantas, os herbívoros, entre eles as pragas. Portanto, para existir inimigo natural é necessário que existam outros insetos na lavoura. Enquanto as pragas ainda não estão presentes nas lavouras os predadores e os parasitoides usam como alimento os outros insetos que ali vivem. Uma lavoura completamente livre de insetos jamais vai possuir inimigos naturais.

Diferentes controles biológicos — Existem dois tipos principais de controle biológico que podem ser utilizados pelos agricultores, independentemente da cultura: (a) o controle biológico aplicado; e (b) o controle biológico natural ou conservativo. O primeiro trata da liberação de inimigos inimigos naturais, predadores ou parasitos em grande quantidade nas lavouras, ou da aplicação de produtos à base de microrganismos (fungos, vírus, bactérias e outros) como uma forma de reduzir drasticamente o ataque de insetos-pragas. Essa é uma medida do Manejo Integrado de Pragas, mais conhecido como MIP, que é realizado após amostragens e determinação do nível de controle. Isso quer dizer que o controle biológico aplicado é utilizado de maneira curativa, ou seja, quando a praga já está presente na lavoura. Espera-se com isso evitar o dano econômico e os prejuízos para o agricultor.

O segundo tipo de controle biológico é chamado de natural por levar em conta a existência espontânea dos agentes naturais de controle nos agroecossistemas, ou de conservativo, porque considera meios para atraí-los e conservá-los nos ambientes agrícolas. Esse tipo de controle promove a diversificação vegetal dos sistemas, oferecendo alimento (presas, hospedeiros, néctar e pólen), abrigo, local de acasalamento e de colocação de ovos pelas fêmeas. Os inimigos naturais utilizam recursos das plantas sem causar danos a elas.

A diversificação do sistema pode ser alcançada através de policultivos (cultivos de diferentes plantas em uma mesma área), consórcios, rotação de culturas, conservação de matas, corredores ecológicos ligando os diferentes fragmentos de mata, capina seletiva ou inserção de plantas com a função específica de atrair e manter os inimigos naturais na lavoura. A combinação adequada de plantas, de forma que cada espécie complemente a outra, é essencial para o equilíbrio do ecossistema agrícola e ao controle das populações de pragas.

Deve-se ver as plantas não só como fonte de alimento para aquelas espécies que causam danos às plantas cultivadas, mas também como fornecedoras de recursos para manter as espécies benéficas. A diversificação vegetal é uma ferramenta importante para o manejo fitossanitário porque busca fornecer condições para aumentar o potencial natural das áreas de forma a não prejudicar o ambiente, nem deixar resíduos e nem causar contaminações.

Para se adequarem a essa realidade, os agricultores deverão buscar produtos que tenham ação seletiva sobre os agentes naturais de controle, para que se beneficiem da ação conjunta de ambos. Essas medidas podem reduzir o custo de produção, uma vez que reduzem a necessidade de aplicações de defensivos e ainda valorizam o produto final. Os consumidores estão cada vez mais exigentes quanto à proteção ambiental e à qualidade dos alimentos, sendo essa uma realidade mundial.