Fitossanidade

As LAGARTAS que miram a safrinha

 

O uso intensivo de culturas, por vezes hospedeiras de várias pragas, e o clima favorável disponibilizam alimento farto durante o ano, o que contribui para o aumento da população de lagartas

Asafrinha de milho no Brasil geralmente ocorre entre os meses de janeiro e fevereiro. Nos últimos anos, a área plantada vem superando a da safra e obtendo uma representatividade cada vez maior no cenário do agronegócio brasileiro. Esse sistema produtivo caracteriza-se pelo uso de duas ou mais culturas anualmente. O uso intensivo de culturas, que na maioria das vezes são hospedeiras comuns de várias pragas, associado ao clima favorável, tem disponibilizado alimento farto durante extenso período no ano, contribuindo para o aumento da população de insetos, destacandose as lagartas como o principal grupo.

Lagarta-elasmo (Elasmopalpus lignosellus): a lagarta é esverdeada com anéis e listras vermelho-escuro e mede cerca de 16 milímetros. Ela alimenta- se do interior do colmo causando a seca das folhas centrais e a morte das plantas. A planta de milho é suscetível ao ataque até a altura média de 35 centímetros. Os fatores que afetam a população de elasmo estão associados a altas temperaturas, solos arenosos e de fácil drenagem e a períodos de seca. Práticas culturais também afetam a maior ou menor ocorrência da praga. A queima da palhada antes do plantio ou na colheita aumenta a incidência de elasmo, por causa da atração dos adultos para essas áreas. Essa prática também contribui para a destruição de inimigos naturais. A população da praga varia de acordo com o sistema de cultivo empregado.

Geralmente a infestação é maior em lavouras onde o solo foi arado e gradeado do que naquele em que se utilizou plantio direto. O impacto de inimigos naturais sobre a lagarta-elasmo é considerado baixo em razão do habitat protegido dela no interior da planta e/ou no solo. O método de controle da lagarta mais comumente utilizado tem sido o químico, através do tratamento de sementes, pela sua praticidade, custo e eficiência. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), por meio do Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários (Agrofit), mantém uma lista online em www.agricultura.gov.br/servicos- e-sistemas/sistemas/agrofit de inseticidas registrados para essa finalidade. Essa espécie é bem sensível a algumas proteínas expressas em milho transgênico Bt, dentre elas a Cry1Ab, Cry 1F, Cry 1Ac e Cry 9C.

Lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda): essa espécie é considerada a principal praga da cultura do milho no País. A lagarta apresenta coloração variável que vai de pardo-escuro, verde até quase preto e possui um Y invertido na parte frontal da cabeça. Quando totalmente desenvolvida, atinge cerca de 40 mm de comprimento. O ataque ocorre desde a emergência das plantas até a formação de espigas. As lagartas, ainda pequenas, raspam as folhas, deixando áreas transparentes, e à medida que vão crescendo localizam-se no cartucho da planta, destruindo-o. A praga tem vários inimigos naturais importantes que atuam como reguladores da população. Os principais são a tesourinha, Doru luteipes e os parasitoides Trichogramma spp., Telenomus ssp., Chelonus insularis e Campoletis flavicincta. Esses insetos alimentam-se de ovos e/ou larvas, eliminando a praga antes que ocorram danos significativos.

E várias doenças de S. frugiperda têm sido relatadas, como fungos, vírus e bactérias. Existem vários inseticidas químicos e biológicos registrados no Mapa/Agrofit que diferem de acordo com a eficiência, a seletividade aos inimigos naturais e a toxicidade, que podem ser utilizados no controle dessa lagarta. Atualmente existem várias cultivares de milho disponíveis no mercado com um ou mais genes Bt incorporados na planta visando ao controle dessa praga. Ao utilizar essa tecnologia, é importante que o produtor tome as precauções de uso de áreas de refúgio e de coexistência.

Broca-da-cana-de-açúcar (Diatraea saccharalis): a lagarta apresenta a cabeça marrom e o corpo esbranquiçado, com inúmeros pontos escuros, e após completamente desenvolvida, atinge cerca de 3 centímetros de comprimento. Essa praga tem constituído um sério problema para algumas regiões, principalmente para o Brasil Central. Em condições de ataque intenso, a planta seca precocemente e pode tornar-se improdutiva. O ataque prejudica o enchimento dos grãos, aumenta a quebra do colmo e favorece a infecção por microrganismos das galerias causadas pela broca. Inicialmente, a broca alimenta-se das folhas do milho para posteriormente penetrar no colmo, dificultando o seu controle com inseticidas.

A aplicação de inseticidas para controlar esse tipo de praga só é viável quando visa a lagartas de primeiro e segundo instares, que ainda não penetraram no interior do colmo. Experimentalmente o controle desse inseto tem sido realizado com sucesso através do controle biológico com Trichogramma spp. e Cotesia flavipes. Para essa espécie existem cultivares de milho com a tecnologia Bt que são eficientes para o controle da praga.

Lagarta Helicoverpa armigera: é uma praga recentemente introduzida no Brasil e vem causando prejuízos para diversas culturas, incluindo o milho. Na fase inicial, as lagartas são de coloração branco-amarelada e quando desenvolvidas, variam do amarelo ao verde, apresentando listras laterais marrons. As lagartas maiores apresentam tubérculos abdominais escuros e visíveis na região dorsal do primeiro segmento abdominal, no formato de uma sela. O ataque corre preferencialmente nas estruturas reprodutivas da planta, como o pendão, estilo-estigmas (“cabelos” da espiga) e nos grãos. As lagartas consomem inicialmente os “cabelos” e posteriormente atacam os grãos em desenvolvimento.

Os danos são semelhantes aos causados pela lagarta-da-espiga (H. zea). Essa espécie é conhecida por sua grande capacidade de apresentar rápida resistência a inseticidas químicos e pela dificuldade de controle. Existem alguns inseticidas registrados e outros autorizados em caráter emergencial pelo Ministério da Agricultura para uso em determinados estados para o controle dessa lagarta. O controle biológico com o bioinseticida baculovírus é disponível comercialmente para essa espécie, sendo utilizado com grande sucesso em outros países. O uso de milho Bt também tem ação sobre essa espécie, uma vez que as proteínas são expressas nos estilo-estigmas e auxiliam no controle das lagartas recém-eclodidas.

Lagarta-da-espiga (Helicoverpa zea): a lagarta tem coloração variável que vai de verde-claro, creme a quase preto, com partes mais claras sobre o corpo. Completamente desenvolvida mede cerca de 35 milímetros de comprimento.

Inicialmente, a lagarta alimenta-se dos “cabelos” da espiga do milho e, à medida que cresce, danifica os grãos. Um fator importante no manejo dessa praga é o bom empalhamento de espigas, uma vez que cultivares bem empalhadas são menos danificadas pela lagarta.

O uso de inseticidas é o método mais comumente utilizado para o controle da lagarta. O maior desafio é determinar a época correta para a aplicação do inseticida. O período em que a lagarta é mais vulnerável ao controle é logo após a sua eclosão, então localizada no “cabelo” da espiga. Com o desenvolvimento larval, o inseto penetra no interior da espiga, tornando o controle extremamente difícil. Para essa praga, a proteína Bt expressa em determinadas cultivares de milho é eficiente para controlar as lagartas recémeclodidas. A maioria dos inimigos naturais da lagarta-do-cartucho atua também sobre a lagarta-da-espiga.

Existem outras pragas consideradas secundárias, como a lagarta-rosca (Agrotis ipsilon) e o curuquerê-dos-capinzais (Mocis latipes), que também atacam a lavoura de milho. A primeira, seciona o colmo da planta na fase inicial da lavoura, e a outra se alimenta vorazmente das folhas. A ocorrência dessas espécies é esporádica, entretanto, pode demandar medidas de controle antes de atingirem elevados níveis populacionais.