Mercosul

A ARGENTINA promete virar o jogo

O governo recém-eleito de Mauricio Macri mudou a política agrícola do país vizinho, e com o fim das retenções para trigo e milho, além da redução gradual desse imposto sobre a soja, a expectativa é de forte recuperação da área cultivada e da produção para 2016/ 17. Quais os efeitos na agricultura brasileira?

Carlos Cogo, da Carlos Cogo Consultoria Agroeconômica, www.carloscogo.com.br

Aeleição de Mauricio Macri à presidência da Argentina já alterou a dinâmica de comercialização do agronegócio do país, resgatando a competitividade agroexportadora local. As primeiras medidas do governo trazem reflexos imediatos para os agricultores e para o agronegócio argentino, cuja pujança sempre foi referência na América Latina. O “concorrente-parceiro-adversário” do Brasil está de volta ao combate. Se a economia vai demorar a se recuperar no país vizinho, o agronegócio não. A resposta é imediata. O fim dos pesados impostos sobre as exportações (retenciones), das cotas e licenças para vender ao exterior, do controle de preços e do câmbio trazem reflexos positivos imediatos para o agronegócio argentino.

As cotas limitavam as vendas externas e impediam a expansão do setor agrícola. Nesse contexto, espera-se que o papel do setor agrícola, o motor da economia local, retome o caminho do crescimento após uma década de diver gências políticas, em que foram subtraídos quaisquer incentivos ao investimento. O presidente Macri vai encontrar um setor, em geral, muito comprometido. O impacto dos preços internacionais mais baixos da maioria das commodities, uma forte intervenção estatal, uma exportação com elevada carga tributária e a taxa de câmbio em relação ao dólar, com uma defasagem considerável, levou a uma estagnação acentuada no setor, agravada em grandes produtos, como grãos, lácteos, carnes, frutas, etc.

Carlos Cogo: “O ‘concorrenteparceiro- adversário’ do Brasil está de volta ao combate. Se a economia vai demorar a se recuperar no país vizinho, o agronegócio não

No complexo de grãos, especialmente, os últimos cinco anos mostraram um desempenho sofrível. A área de cultivo de grãos tinha atingido 35,6 milhões de hectares em 2011/2012 e, apenas cinco anos mais tarde, em 2015/ 2016, caiu para 33,7 milhões de hectares. Apesar dessa redução, a produção conseguiu se sustentar em torno de 100 milhões de toneladas, porque nos últimos ciclos o clima tem colaborado para bons níveis de produtividade. Esse freio na produção resultou em níveis mais baixos de receitas em divisas, exacerbadas pela redução dos preços internacionais, em uma rentabilidade para os produtores, em muitos casos, negativa, considerando também que a maior parte do plantio é feito em áreas arrendadas. Mais de 60% do total da área de grãos na Argentina são de arrendamentos que tiveram que reduzir drasticamente seus custos para continuar a produzir. As exportações também caíram significativamente e os mercados foram sendo perdidos.

Área vai crescer — Nos médio e longo prazos, a expectativa é de forte retomada do crescimento da área plantada com grãos – tanto no verão quanto no inverno – e, consequentemente, das exportações. Nesta safra 2015/2016, a Argentina deverá colher 105,2 milhões de toneladas de grãos, 6,5% abaixo do recorde de 112,6 milhões de toneladas colhidas na anterior (2014/2015). A área plantada em 2015/2016 recuou 4,1% sobre 2014/2015, para 33,7 milhões de hectares. A maxidesvalorização do peso (de 45%) já elevou, de imediato, a competitividade das exportações de soja, milho, trigo, arroz e outros grãos na Argentina, bem como do leite e da carne.

Com o fim das retenciones para trigo e milho e a redução gradual desse imposto sobre a soja, a expectativa é de forte recuperação da área plantada e da produção de grãos na próxima temporada (2016/2017). O trigo e o milho tinham uma carga de impostos de 23% e 20%, respectivamente. Para o girassol, a tributação era de 32% para o grão e 30% para o óleo e para o farelo. O governo eliminou totalmente essas tarifas. Para a soja, a tributação era de 35% e será reduzida em 5% ao ano (já iniciada em 2015). Ou seja, no plantio deste próximo ano-safra (2016), estará em 25%.

A área de cultivo de grãos deverá crescer 10,3% em 2016/2017, para 37,2 milhões de hectares, puxada, principalmente, pela recuperação das superfícies de plantio de trigo e milho. A produção da safra 2016/2017 está projetada em um recorde de 122,7 milhões de toneladas, 16,6% acima da colheita de 2015/2016. A maior parcela desse incremento deverá vir do milho (+8,5 milhões de toneladas) e do trigo (+5,1 milhões de toneladas), além de expansões esperadas nas colheitas de cevada e girassol.

No ciclo 2016/2017, deve haver reestruturação das áreas de trigo e de milho, permitindo um melhor equilíbrio entre cereais e oleaginosas. Hoje, essa proporção é de 30% e 70%, respectivamente, e isso não assegura a sustentabilidade ao longo do tempo, o que não significará uma queda na área de soja. No milho, depois de décadas como o segundo maior exportador mundial, atrás dos Estados Unidos, a participação da Argentina ficou limitada ao quarto lugar, atrás de dois mercados que o país era fornecedor: Brasil e Ucrânia.

Já no complexo de girassol, a Argentina foi líder absoluta em óleo e farelo, mas ficou relegada ao último lugar, atrás dos países da Região do Mar Negro e da Europa. A área de milho da Argentina (destinada à colheita de grãos) recuou para apenas 2,9 milhões de hectares em 2015/2016, muito abaixo dos 5 milhões cultivados há cinco anos. Deve retornar para o patamar de 4 milhões de hectares em 2016/2017. A produção voltaria ao nível de 28 milhões a 30 milhões de toneladas e colocaria o país no posto de terceiro maior exportador global, atrás dos Estados Unidos e do Brasil.

O principal mercado de trigo da Argentina é o Brasil. Mas os argentinos não conseguiam mais fornecer o cereal nas quantidades exigidas pelo mercado brasileiro – que acabou tendo que importar o produto de outros fornecedores, a preços mais elevados. Nesta safra 2015/2016, a Argentina deverá colher 10 milhões de toneladas do cereal. A indústria local consome 6,5 milhões de toneladas e as exportações devem atingir 6 milhões de toneladas.

Entretanto, para a safra 2016/2017, a ser plantada no primeiro semestre deste ano, a área deve crescer 41%, para 4,8 milhões de hectares, contra os 3,4 milhões cultivados em 2015/2016. A produção está estimada em 15,1 milhões de toneladas em 2016/2017, 51% acima das 10 milhões de 2015/2016. Os excedentes exportáveis devem atingir 8,5 milhões de toneladas em 2016/2017, o maior volume desde 2011/2012. No longo prazo, o país pode voltar a cultivar uma área superior a 7 milhões de hectares, produzindo mais de 16 milhões de toneladas e retomando o posto de um dos maiores exportadores globais, devendo suprir todo o déficit do mercado brasileiro, que oscila entre 5,5 milhões e 6,5 milhões de toneladas/ano. Isso vai dificultar em muito a vida do triticultor brasileiro, que convive com custos mais elevados, riscos climáticos e preços pouco atrativos.

150 milhões de toneladas — A Argentina pode transitar em um caminho de crescimento que nos leva a projetar para 2024/2025 um potencial produtivo próximo de 150 milhões de toneladas. Isso proporcionará um crescimento mais equilibrado entre as culturas. Os níveis de produção de milho devem atingir 35 milhões de toneladas, com a safra de trigo subindo para a faixa entre 17 milhões e 18 milhões de toneladas e a produção de soja continuando a crescer para buscar o patamar de 75 milhões de toneladas, com o restante dos cultivos respondendo por mais de 15 milhões de toneladas.

Nos médio e longo prazos, a expectativa é de forte retomada do crescimento da área plantada com grãos de verão e inverno e, consequentemente, das exportações argentinas

O potencial produtivo da Argentina é muito grande. O país pode se mover rapidamente para 42 milhões de hectares como horizonte viável. Isso vai permitir que a produção cresça para mais de 150 milhões de toneladas. Entretanto, apesar de a Argentina e o Brasil disputaram mercados agrícolas similares, há uma oportunidade de trabalhar em conjunto no Mercosul. Para seguirem competitivos no setor agrícola, têm de trabalhar juntos em várias frentes, principalmente na ampliação do comércio externo. A meta inicial é destravar acordos, principalmente com a União Europeia, um desejo antigo do agronegócio brasileiro, e também do argentino.

Macri já afirmou que o Mercosul precisa avançar nos acordos com a União Europeia (UE) e convergir para uma aliança com o Pacífico e aumentar o intercâmbio em geral. Ele mostrou vontade de destravar a negociação com a UE, na qual a Argentina é o maior empecilho, e foi claro em seu plano de se aproximar da Parceria Transpacífico, acordo comercial que inclui 12 países. Não há nenhuma área semelhante com maior potencialidade de áreas agricultáveis no planeta como as do Mercosul – principalmente Brasil, Argentina e Paraguai.