Reportagem de Capa

Com o ânimo das EXPORTAÇÕES

A expectativa dos produtores é de que os preços atuais do milho da segunda safra continuem firmes, sobretudo em razão da ótima demanda externa do grão, que deverá seguir aquecida ao longo do ano. E as exportações são o principal fator para os bons preços atuais e futuros. No Mato Grosso, maior produtor, até janeiro, 30% da safra foi vendida antecipadamente. Mesmo assim, a safrinha promete ser mais complicada que a de 2015, pois os custos estão mais altos e o atraso na colheita da soja pode estreitar a janela de plantio do cereal

Gilson R. da Rosa

Ano após ano, a produção de milho segunda safra, também conhecida como “safrinha”, cresce em relevância, a ponto de não se duvidar que em um futuro não muito distante o sufixo diminutivo “inha” ser relegado mesmo ao cultivo de verão. Foi a partir do ciclo 2011/12, que a colheita do cereal plantado fora do período tradicional do calendário agrícola ultrapassou pela primeira vez o volume da produção do milho primeira safra. Desde então, não parou mais de crescer.

Maffini, produtor em Ponta Porã/ MS: “O milho segunda safra vai ser a salvação da lavoura. Muitos produtores empataram ou tiveram prejuízos com a soja, principalmente os arrendatários”

A soja é apontada como a grande responsável pela ascensão do milho safrinha. Estudos realizados pela Embrapa Milho e Sorgo mostram que o plantio do milho em sucessão à oleaginosa viabilizou o aumento da área plantada do cereal. Entre as razões para isso, há o fato de que o plantio do milho em sucessão à oleaginosa viabilizou o aumento da área plantada no país, passando então a ser cultivado por sojicultores altamente tecnificados.

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que em 2016 o Brasil deva colher 54,6 milhões de toneladas do cereal na segunda safra, volume bem próximo do recorde histórico obtido no ano passado. Conforme o relatório divulgado em janeiro pela Conab, a área plantada estimada para o período é de 5,7 milhões de hectares, praticamente a mesma do ciclo anterior. Mesmo para a instituição, trata-se de um prognóstico bastante conservador, pois leva em conta a instabilidade climática decorrente do fenômeno El Niño. Até o início de dezembro último diversas projeções apontavam para o aumento da área plantada com o milho segunda safra nas principais regiões, mas a situação mudou desde então.

A seca no Mato Grosso e o excesso de chuvas no Paraná e no Mato Grosso do Sul provocaram perdas e o atraso da colheita da soja nessas regiões. Agora o temor é que isso possa estreitar a janela de plantio do cereal, acarretando assim uma possível redução de área e de produção do grão, sobretudo nos estados do Sul e do Centro- -Oeste, que, somados à Região Sudeste, representam 94% da oferta nacional do grão no segundo ciclo.

Aos produtores que estão apostando na safrinha, mesmo os que tiveram problemas com a soja, os preços atuais empolgam, chegando aos mesmos patamares de 2012/13. “Foram as exportações recordes de milho no último trimestre de 2015 que viabilizaram o grande aumento de preços. Ademais, algumas projeções já preveem que a demanda externa continuará alta em 2016, o que deve sustentar os preços no decorrer do ano”, analisa o pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo, Emerson Borghi.

Em 21 de janeiro, a saca do milho estava cotada a R$ 43 no Porto de Paranaguá/ PR, um valor estável. Em Campo Novo do Parecis/MT, o produtor recebia R$ 26; enquanto em Jataí/GO, R$ 31; e em São Gabriel do Oeste/MS, R$ 33. Já na BM&F Bovespa, apesar de pequenas quedas, o preço futuro para março era de R$ 41, R$ 38,90 para maio e R$ 36,50 para setembro (cotações do pregão do dia 20 de janeiro). Para os analistas, além do câmbio favorável, o quadro mais ajustado entre oferta e procura ajudou a sustentar o preço. E as exportações foram importantes para enxugar o excedente de oferta. A estimativa era que em janeiro seriam exportadas 5 milhões de toneladas.

Preço é bom, mas clima e custos preocupam — O Mato Grosso é o maior produtor da segunda safra, com 3,35 milhões de hectares. Foram 20,3 milhões de toneladas em 2014/15 e, segundo as projeções iniciais da Conab, esse volume pode chegar a 19,9 milhões de toneladas em 2015/16. E com a demanda aquecida, os produtores do estado estão aproveitando os bons preços do cereal para fechar contratos antecipados. Com isso, mais de 30% do milho segunda safra, que ainda vai ser plantado, já estava comercializado em meados de janeiro.

A situação é um pouco mais complicada no Mato Grosso do Sul, terceiro maior produtor de segunda safra. O excesso de chuvas registrado em janeiro inundou as lavouras de soja e deixou as estradas intransponíveis. “Por esses dias (entrevista feita na terceira semana de janeiro), em janeiro do ano passado, era possível ouvir o som das plantadeiras e colheitadeiras onde quer que você fosse. Este ano, mal estamos conseguindo entrar com as máquinas para colher a soja. E a situação das estradas não permite que os caminhões saiam carregados da lavoura. Todo mundo está assustado com o excesso de chuva. Acham que não vai dar tempo de plantar o milho”, resume o produtor Mario Maffini, que é natural de Júlio de Castilhos/RS, mas tem fazenda em Ponta Porã/MS.

Engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal de Santa Maria, Maffini está entre os produtores de médio porte do estado que apostam na safrinha de milho como forma de recuperar as perdas com a soja. “O milho segunda safra vai ser a salvação da lavoura. Se não fosse essa alta do dólar, provavelmente estaríamos todos quebrados. Muitos produtores empataram ou tiveram prejuízos com a soja, principalmente os arrendatários. Para eles, o lucro vem do milho, que nos últimos três ou quatro anos tem apresentado uma resposta interessante em termos de produtividade. Além disso, a qualidade do grão é fantástica”, relata.

A área plantada estimada para a safrinha de milho 2016 será de 5,7 milhões de hectares, praticamente a mesma do ciclo anterior, e a produção de 54,6 milhões de toneladas

Para esta segunda safra de milho, o produtor estima destinar 250 hectares para o cultivo do cereal, a mesma área, que, até o final de janeiro, ainda está ocupada pela oleaginosa. “Nossa expectativa é colher a soja em 15 dias para entrar com o milho em fevereiro. Ainda assim, esperamos repetir a produtividade das safras anteriores, isto é, 130 sacas por hectare ou 7,5 mil quilos por hectare”, projeta. Além de plantar soja e milho segunda safra, Maffini também é produtor de sementes. A Maffini Sementes trabalha em parceria com a Semilha Sementes, de Coxilha/RS. “Aqui fazemos a multiplicação das sementes de milho que são desenvolvidas pela empresa lá no Rio Grande do Sul. Esse é um mercado que sofreu uma reviravolta muito grande aqui no Mato Grosso do Sul. Se até pouco tempo o pessoal comprava sementes transgênicas, hoje a demanda é pela semente convencional”, pontua.

Ele explica que isso está ocorrendo porque a tecnologia Bt vem perdendo sua eficiência com a lagarta. “Ao mesmo tempo, o percevejo aprendeu a comer o milho. Nosso maior desafio hoje é controlar o percevejo, o que é feito com a aplicação de inseticidas e também funciona com a lagarta. Assim, em termos de custos, plantar híbrido convencional acaba sendo mais econômico que os híbridos transgênicos”, ressalta.

Lavoura submersa — A apreensão em relação ao clima é a mesma para produtor Dair Bigaton, que cultiva soja e milho segunda safra em duas propriedades nos municípios de Sidrolândia e Rio Brilhante, no Mato Grosso do Sul. “Estou aqui há 45 anos e este é o período com o maior nível de chuva da história. Trata-se de um ano completamente atípico. Quem antecipou o plantio de soja está tendo problemas para colher devido às chuvas que inundaram as lavouras e as estradas. Porém, quem plantou no período correto, acredito que não terá problemas”, pondera.

Natural de Severiano de Almeida/RS, mas criado no sudeste do Paraná, Bigaton mudou para o MS em 1971. Hoje é considerado um produtor de grande porte no estado e referência na região em práticas como a integração lavoura-pecuária e plantio direto. Além disso, conta com infraestrutura própria de armazenagem, o que, segundo ele, acaba sendo mais uma empresa dentro da fazenda, pois exige conhecimento e gestão em outras áreas. “Aqui, a gente que planta mais de 1 mil hectares é considerado grande. Acima disso, não são nem 20% dos produtores”, compara.

Se a chuva não atrapalhar, ele pretende destinar entre 80% e 90% da área de soja para o milho. A intenção é plantar entre 1.200 e 1.250 hectares de milho em 2016. “Temos uma produtividade de verão na segunda safra que passa das 100 sacas por hectare, isso porque algumas variedades são mais produtivas. Para este ano, os preços favorecem, o dólar está alto e quem se preveniu, antecipando as compras de insumos, pagando à vista, ainda dispõe de certa liquidez”, diz Bigaton.

Grandes esperanças — De acordo com o presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do MS (Aprosoja/ MS), Christiano Bortolotto, os preços do milho já aumentaram em 15% em relação a janeiro de 2014/15. “Embora o custo de produção tenha subido 12% no estado, principalmente por causa do fertilizante, que é em dólar, o cultivo do milho segunda safra remunera devido à boa produtividade, cuja média é de 88,6 sacas por hectare. Além disso, 20% da segunda safra já foi vendida antecipadamente no sistema de troca por insumos”, informa.

O dirigente considera a segunda safra de milho no MS uma safra completa pelo volume produzido na comparação com a oleaginosa: “Em 2014/15 foram mais de 9 milhões de toneladas do grão contra 6,5 milhões de toneladas de soja. Mas é claro que temos de levar em conta os preços da soja. Nosso objetivo com o milho para este ano é plantarmos 1,79 milhão de hectares, ou seja, 74% da área cultivada com a soja”, explica.

Bortolotto observa que o clima em 2015 foi extremamente favorável para a soja, criando uma expectativa também otimista para o milho. “O que precisamos agora é de uma janela para conseguir colher e retirar a soja e então plantar o milho. A situação ideal é fazer na sequência, mas o adubo ainda nem conseguiu entrar na lavoura porque não tem estrada. Mais de 50% da área produtora foi afetada. Há produtores desesperados. Uns oito dias sem chuva até o final de janeiro já resolveriam o problema. O ideal seria plantar agora, pois em fevereiro é uma realidade e em março é outra, no que se refere à produtividade”, assegura.

Para o produtor Gilberto Bernardi, da região de Dourados/MS, a segunda safra de milho tem importância fundamental para o estado. “Aqui, até a década de 1980, se plantava muito trigo. Atualmente, não existe outra cultura alternativa mais viável e rentável que o milho para este período. Além disso, neste ano, os preços estão melhores em relação ao período de 2015. O câmbio está favorável e as exportações estão batendo recorde. Acredito que essa tendência deva se manter ao longo de janeiro e fevereiro”, estima.

Nascido em Caxias do Sul/ RS, Bernardi, 59 anos, é engenheiro agrônomo e está no Mato Grosso do Sul há 31 anos. Planta em média 1.300 hectares de soja e 750 de milho segunda safra, sendo considerado um produtor de médio porte. Ele lembra que, em anos como este, em que as estradas ficam intrafegáveis devido ao excesso de chuva, investir em armazenagem é fundamental. “No meu caso, toda a produção é armazenada na propriedade. Além disso, torna-se uma excelente ferramenta de negociação e proporciona uma significativa economia de frete, principalmente no período mais movimentado da safra”, ressalta.

Se as condições climáticas favorecerem, a expectativa de Bernardi é de uma boa safra em 2016. “Iniciamos o plantio de soja em 15 de setembro, que foi bastante precoce. Agora, estamos às vésperas de colher e entrar com o milho ainda em janeiro e fevereiro, que são meses que favorecem a expressão da cultura. Só precisamos de uma trégua na chuva para fazer a transição entre as duas culturas. Depois disso, pode até voltar a chover, pois isso cria boas condições para o milho segunda safra, o que deve se refletir em um volume de produção muito bom”, garante.

Na avaliação do engenheiro agrônomo e diretor da Wedekin Consultores, Ivan Wedekin, o cenário que se monta para o milho segunda safra em 2016 ainda é delicado, especialmente no Mato Grosso. “O dólar deve bater com mais força nos gastos produtivos da safra 2015/2016. O Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) projeta aumento de 18% nos custos de produção de lavouras de alta tecnologia. A produtividade deverá cair, por conta do clima e do recuo na tecnologia. O produtor de um modo geral tem liquidez, está colhendo uma safra de soja e já vendeu o milho antecipadamente, mas o preço do milho dificilmente compensará o aumento do custo de produção”, avalia.

Dilvo Grolli, da cooperativa Coopavel, de Cascavel/PR: os custos para o associado aumentaram, mas a projeção é de um ano positivo já que a demanda por carne deverá impulsionar a procura por milho

Safrinha de respeito — O cultivo de milho safrinha no Brasil teve início ainda no final da década de 1970, na cidade de Floresta, no norte do Paraná, devido à descapitalização dos agricultores da região após enormes perdas com a histórica geada de 1975, que dizimou a maior parte dos cafezais do estado. Atualmente, o Paraná é o segundo maior produtor de milho segunda safra, com uma área estimada pela Conab para 2015/15 em 5,9 milhões de hectares e um volume de produção bem próximo de 20 milhões de toneladas.

O diretor-presidente da cooperativa Coopavel, Dilvo Grolli explica que cerca de 80% da produção de milho segunda safra é conduzida em pequenas propriedades, que têm em média 50 hectares. “O Paraná consome 90% do milho que produz. Isso representa mais carne de frango e suíno e também mais leite, ou seja, a cadeia produtiva do milho difere de outras cadeias do agronegócio, pois está integrada às cadeias de frango, suínos e leite. Esse desempenho coloca o PR como o maior produtor brasileiro de frango e o terceiro maior em produção e exportação de suínos, além de ser o terceiro maior produtor nacional de leite”, pontua.

Conforme o dirigente, as mudanças climáticas e o desenvolvimento de variedades de soja e de milho com ciclos mais curtos tornaram possível fazer uma segunda safra de verão. “Aqui no Oeste do estado, se planta pouco milho na primeira safra, apenas 5% da área disponível, enquanto a soja, neste período, responde por 95% da área. Já na segunda safra, 33% dessa área é ocupada pelo milho segunda safra”, descreve. Entretanto, o dirigente observa que os custos de produção também dispararam. “Os gastos aumentaram 30% com sementes, 20% com fertilizantes, 22% com defensivos e 20% e com energia elétrica, enquanto os demais custos subiram 20%. Ainda assim, projetamos um ano positivo para o produtor paranaense, uma vez que a demanda por carne em 2016 deverá impulsionar a demanda pelo milho segunda safra”, avalia.

De acordo com o produtor Antonio Pedrini, proprietário da Fazenda Maringaense, em Maringá/PR, o cultivo do milho no estado se deve basicamente à falta de outras opções. “Tínhamos o trigo, por exemplo, que hoje se tornou inviável em razão dos custos e da falta de incentivo do Governo. Hoje a soja é o carro chefe enquanto o milho é a nossa principal cultura de inverno”, afirma. Pedrini, cujas lavouras se estendem por 1,2 mil hectares, projeta para esta segunda safra uma média de 115, sacas por hectare. “Estamos trabalhando com a expectativa de colher uma grande safra, mas ainda não podemos antecipar nada em razão do clima. Este é um ano em que o produtor deve ficar atento às pragas do milho, aos percevejos e às lagartas no início do plantio. Em hipótese alguma ele deve abrir mão da tecnologia. Se precisar optar, que reduza então a área plantada. O milho é uma cultura que exige investimento em tecnologia para dar resultado, mas o retorno é garantido”, recomenda.

Precioso efeito cambial — Independentemente dos prognósticos climáticos, a segunda safra de milho começa a ser plantada em um cenário extremamente favorável às exportações. “Caso não tivéssemos a forte desvalorização do real, a situação do agronegócio brasileiro seria crítica em 2016 devido aos baixos preços internacionais. O câmbio certamente trouxe efeito para os custos, especialmente nos fertilizantes e químicos. Porém, o benefício oferecido na melhoria da competitividade externa é uma vantagem maior do que a questão do aumento de custos. Dessa forma, o momento tem o foco centrado na exportação”, destaca o analista da consultoria Safras & Mercados Paulo Molinari.

Segundo ele, as perspectivas para os preços futuros do milho são positivas. “Começamos o ano com preços internos recordes devido a uma exportação próxima a 35 milhões de toneladas. O enxugamento dos estoques internos devido à exportação acima de qualquer previsão mais otimista vem colaborando para que o mercado interno comece o ano com preços extraordinários. O Brasil já dispõe de vendas realizadas na exportação da safrinha 2016 na ordem de 10 milhões de toneladas, ou seja, um terço da meta do ano. Na medida em que o mercado avançar, estaremos novamente confirmando uma boa exportação em 2016. Daí para frente dependeremos da demanda mundial”, observa.

Produtor Antonio Pedrini, de Maringá/PR: “Em hipótese alguma o produtor deve abrir mão da tecnologia. O milho é uma cultura que exige investimento em tecnologia para dar resultado, mas o retorno é garantido”

Equação difícil nas granjas — Se a desvalorização do real frente à moeda norte-americana está contribuindo para a competitividade do milho brasileiro no cenário internacional, o efeito tem sido justamente o oposto para o setor de aves e suínos, que consome anualmente 45 milhões de toneladas do grão. O aumento dos custos do cereal e do farelo de soja, cotados em dólar, já é apontado pela Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS) como um dos principais desafios para a produção de carne suína neste ano. “O milho, em termos de volume, juntamente com a soja, é o principal componente para a ração animal. Se levarmos em conta que 85% do custo de produção está na ração, não se pode descartar um aumento dos preços de carnes suína e de frango no futuro”, avalia o diretor executivo da ABCS, Nilo de Sá.

Na análise do vice-presidente executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal, (Sindirações), Ariovaldo Zani, o milho, agora com os preços internos cotados em dólar, acaba estabelecendo uma relação que o frango, cotado no desvalorizado real, não consegue acompanhar. “Este é um ano de pressão sobre os preços. Comparativamente ao registrado há um ano, o poder de compra do frango em relação ao milho ficou 20% menor. O que, inversamente, significa ser necessário dispor de 25% mais frangos para obter a mesma quantidade de milho (da safra) anterior”, considera.

O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (Faesc), José Zeferino Pedrozo, prevê um início de ano complicado no abastecimento de milho para as cadeias produtivas da avicultura e da suinocultura industrial catarinense. “O grão está caro e escasso, portanto, com preço em ascensão. Esse quadro somente irá melhorar no segundo semestre, com a entrada da safrinha”, calcula. O presidente da Faesc alerta que essa conjuntura representa uma equação perigosa: “Para um consumo de 6 milhões de toneladas haverá uma produção interna de 2,5 milhões e, portanto, uma necessidade de importação de 3,5 milhões de toneladas de milho”, prevê.

Planejamento e monitoramento sempre — A principal orientação da pesquisa para o produtor que irá plantar milho segunda safra é planejamento e monitoramento. “Os efeitos do fenômeno El Niño ainda continuarão em 2016 de forma bastante acentuada e o agricultor precisa ser assertivo nas suas escolhas para conseguir reduzir custos e colher o máximo possível. Por isso, é sempre importante ficar atento a detalhes como a escolha da área e a época de semeadura, as cultivares mais adaptáveis a cada região, a adubação e o manejo de plantas daninhas, pragas e doenças”, aconselha o pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo Emerson Borghi.

Em relação à escolha da área e à época de semeadura, Borghi recomenda que o produtor selecione primeiramente as glebas com melhor histórico de fertilidade e de produtividade para otimizar o uso de insumos e, consequentemente, reduzir os custos de produção. “Seguindo essa estratégia, mesmo semeando em uma área menor, ele tem mais chance de sucesso com o milho segunda safra”, avalia. Outro critério muito importante para o sucesso no milho segunda safra, mas negligenciado pelos produtores, é o dimensionamento da área de plantio em função da capacidade operacional. O tamanho da área em relação a máquinas e implementos disponíveis para todas as operações mecanizadas deve fazer com que a semeadura do milho ocorra dentro da janela de plantio recomendada pelo zoneamento de risco climático da região, acrescenta Borghi.

No que tange à escolha das melhores cultivares, o levantamento anual realizado pela Embrapa Milho e Sorgo demonstrou que para a safra 2015/16 foram disponibilizadas 477 cultivares. “A grande maioria pode ser semeada em safrinha devido à grande adaptabilidade e estabilidade desses materiais modernos. Além da escolha do híbrido mais adequado, o produtor não deve abrir mão do refúgio, caso opte por semear algum material com tecnologia transgênica resistente a insetos-praga”, aponta o pesquisador Israel Alexandre Pereira Filho, da Embrapa Milho e Sorgo.

O pesquisador Israel Alexandre Pereira Filho, da Embrapa Milho e Sorgo, lembra que o refúgio ajuda a preservar a tecnologia transgênica e assim reduz a aplicação de inseticidas em milho Bt

Segundo ele, o refúgio, quando feito de maneira correta e seguindo as orientações técnicas, ajuda a preservar a tecnologia e, dessa maneira, tende a reduzir a aplicação de inseticidas em milho Bt. “Com a alta disponibilidade de híbridos de alta tecnologia, associados às boas práticas de manejo e ao uso de fungicidas e tratamento industrial de sementes para controle de sugadores, a garantia de proteção da lavoura é certa e as chances de sucesso são mais assertivas”, explica.

O pesquisador Álvaro Vilela de Resende, da mesma unidade da Embrapa, observa que, no caso do milho, como a adubação é baseada na expectativa de produtividade, geralmente, no cultivo de segunda safra, o investimento é menor. “A melhor estratégia é sempre realizar a adubação seguindo a análise de solo e a produtividade esperada, de acordo com o histórico dos anos anteriores. A premissa mais importante é adotar o critério de utilizar a fonte certa, na dose recomendada, na época de maior exigência da planta e no local adequado, ou seja, solo ou folha, a lanço ou no sulco, a depender do nutriente e da dose”, informa.

Manejo de pragas e doenças — Normalmente, os tratos culturais são semelhantes para o milho verão ou em safrinha. “Com o advento das tecnologias RR, tornou-se comum o semeio do milho tolerante ao glifosato em sucessão à soja RR. Esse fato fez com que os produtores passassem a utilizar ainda mais o glifosato em suas lavouras, gerando um aumento na pressão de seleção de espécies tolerantes e biótipos resistentes a esse herbicida”, afirma a pesquisadora da Embrapa Milho e Sorgo Dagma Dionísia da Silva.

Além da rotação de tecnologias na semente, o produtor deve atentar para a rotação de tecnologias e/ou de ingredientes ativos, pois a resistência de plantas daninhas a alguns herbicidas vem se tornando cada vez mais frequente. “Para reduzir esses problemas, seria interessante o produtor promover alternâncias em suas lavouras. Por exemplo, se semeou a soja RR no talhão, ele pode optar por um híbrido de milho que não apresente essa tecnologia”, avalia a pesquisadora.

Com relação ao controle de pragas, Dagma recomenda que o produtor esteja sempre atento às lagartas, principalmente as polífagas, como a lagarta-do-cartucho e a helicoverpa. “A forma mais eficaz, e também a de melhor relação custo x benefício é o monitoramento constante da lavoura e a aplicação de produtos para controle das pragas somente quando o nível de dano econômico for atingido”, lembra a pesquisadora.

Ela chama a atenção para o fato de que o manejo integrado de pragas é a tecnologia mais barata e a de maior retorno para o produtor. “Ao realizar o monitoramento para identificação do nível de dano econômico, o produtor ganha a opção pela escolha de tecnologias que lhe permitem reduzir o custo com aplicações ‘calendarizadas’. O uso de produtos químicos para controle de pragas em baixo nível de infestação ou em caráter preventivo não é recomendado, e gera custos sem necessidade”, alerta.

Conforme a pesquisadora, pragas como os pulgões e percevejos, que há alguns anos atrás não eram motivos de preocupação para o produtor de milho, têm causado problemas nas lavouras de safrinha e requerem manejo específico para o seu controle, baseado sempre no monitoramento das lavouras. “Em relação aos percevejos, é preciso lembrar que o manejo deve começar na cultura antecessora, no caso, a soja, de modo a evitar que grandes infestações possam ocorrer na fase crítica de estabelecimento inicial do milho safrinha”, observa. Para os fungicidas, o princípio é o mesmo. “O produtor deve monitorar as glebas para identificação da necessidade de aplicação. Também deve conhecer os sintomas das principais doenças e a fase em que tendem a iniciar em relação ao estádio de desenvolvimento da planta para definir as estratégias de controle e diminuir os custos com aplicações desnecessárias”.


Etanol de milho ainda promete. O valor agregado é tentador

Com a desvalorização do real frente ao dólar, o milho brasileiro está cada vez mais competitivo no mercado internacional. Mas, de acordo com o presidente institucional da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), Sérgio Bortolozzo, essa é uma situação que precisa ser analisada em longo prazo pelo produtor do grão. “O câmbio pode ser vantajoso agora, mas daqui a algum tempo, exportar milho talvez não seja uma boa opção. A China, por exemplo, que era um grande mercado consumidor, já está caminhando para a autossuficiência”, argumenta.

Para o engenheiro agrônomo e conselheiro da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja/MT), Glauber Silveira (na foto), colunista d’A Granja, produzir etanol a partir de milho pode ser a melhor alternativa para o excedente de produção. “Hoje o Brasil produz 85 milhões de toneladas de milho e consome 55 milhões de toneladas, o que gera um excedente de 30 milhões de toneladas. Entretanto, o etanol de milho tem valor agregado três vezes maior. Assim, em vez de exportar o grão, poderíamos exportar o DDG, que é um subproduto para a ração animal”, afirma.

Ele explica que já há um bom tempo, a Aprosoja/MT se articula junto a seus associados para a instalação de mini-usinas de etanol de milho no Mato Grosso. Atualmente, três usinas flex (cana e milho) fabricam o biocombustível no Mato Grosso: a Usimat, em Campos de Júlio, a Libra, em São José do Rio Claro, e a Porto Seguro, em Jaciara. “Elas operam com milho durante a entressafra da cana, que vai de novembro a março, com rendimento médio de 404 litros do combustível por tonelada de milho. Além do etanol, geram, por tonelada, 220 quilos de DDG, destinado principalmente aos confinamentos de bois da região”, destaca.

volta. “O BNDES dispõe de crédito para financiar a construção de novas usinas. No entanto, a situação atual no País inibe grandes investimentos. Tem que mudar a política de combustíveis. Esse preço do etanol atrelado ao preço da gasolina é ruim para todo mundo. Esse vínculo é um fator limitante até para o álcool produzido a partir da cana-de-açúcar, pois quando o Governo mantém baixo o preço da gasolina, faz com que o álcool seja comercializado a preços que não remuneram a atividade”, compara.