Glauber em Campo

QUE 2016 NÃO SEJA COMO SE PREVÊQUE 2016 NÃO SEJA COMO SE PREVÊ

GLAUBER SILVEIRA

O que estamos vendo na política é realmente repugnante, mas, infelizmente, nada fazemos. A sociedade brasileira se mantém inerte, como se acreditasse em milagres. Essa tem sido a grande característica do Brasil, todos os grandes acontecimentos políticos: Independência, Libertação dos Escravos, Proclamação da República, queda da Ditadura Militar, Diretas Já. Todos esses acontecimentos foram cercados apenas de folclore revolucionário, mas não passaram de consolidação de acertos já pré-formulados.

Não que esses fatos históricos tenham sido ruins, muito pelo contrário, mas quanto pagamos pela Independência do Brasil? Uma verdadeira fortuna. Teria sido mais fácil lutar. A libertação dos escravos aconteceu porque era inevitável, assim como todos os outros acontecimentos. Em sua maioria, foram frutos da vontade da classe dominante e não da vontade oriunda do povo.

O brasileiro em sua natureza é pacífico e acomodado; enquanto tem um fio de esperança, se mantém à margem dos fatos. Não toma nenhuma atitude para mudar sua realidade. Se o que está acontecendo na política hoje no Brasil fosse em qualquer outro país, sem dúvida já teríamos uma revolução. No Brasil ocorre o contrário, a omissão. Mesmo muitos dos que se dizem líderes ou se entendem como tal, na maioria das vezes são apenas massa de manobra na maioria dos momentos políticos importantes, e nesse grupo me incluo.

Infelizmente, o povo brasileiro não conseguiu extirpar de nossa sociedade a corrupção que permeia toda a sociedade. O preço disso estamos colhendo agora em uma fase complicada economicamente para o Brasil. Setores primários que vêm sustentando a economia passam agora por grande dificuldade, seja pelo preço baixo das commodities no mercado internacional ou pelos altos custos de produção.

Infelizmente, a incompetência governamental é transferida para a sociedade, seja com impostos, seja com diminuição e retalhamento de investimentos fundamentais do setor público. O nosso setor agropecuário está vivenciando na carne a falta de seguro agrícola, créditos caros e corte de investimentos em infraestrutura de escoamento, o que estrangula a margem ou a torna negativa.

O Plano Safra, tão anunciado pelo Governo Federal, gerou falsa esperança para milhares de produtores que não tiveram acesso ao crédito e nem à subvenção ao seguro rural, fundamental neste momento. O pré-custeio não existiu e, com isso, os produtores, principalmente os pequenos, pagaram de 20% a 30% a mais nos insumos. A cada ano vemos anúncios milionários de um Plano Safra que apenas em parte se realiza. E o pior é que a sociedade ficou com a impressão de que recebemos rios de dinheiro.

Infelizmente, é isso. O setor produtivo continua a dançar ao som do chicote do Governo em seu lombo, amarrados ao tronco da agricultura da qual não pode se desvencilhar, pois é somente o que sabe fazer. Assim, tornam- se escravos do próprio negócio, pelos investimentos que foram feitos para produzir e gerar divisas ao Brasil, escravos das máquinas que foram compradas e de um sistema que não os possibilita alternativas de agregação de valor à produção.

Para agravar a situação, de uma expectativa de safra da Conab de 102 milhões de toneladas de soja, devemos colher menos de 95 milhões de toneladas. Tivemos seca demasiada em regiões importantes e chuva em excesso em outras. E como será o tempo na colheita ninguém sabe, pois esse El Niño é traiçoeiro. Será triste ver vizinhos de fazenda colhendo uma safra com tanta diferença de produtividade. Esperamos ao menos que o preço compense a perda de produtividade, mas até agora isso não aconteceu, apenas o câmbio ajudou um pouco.

O setor produtivo coloca agora esperanças que a segunda safra de milho (safrinha) venha a contribuir com rentabilidade, contando com que as chuvas que atrasaram se estendam e ajudem a termos uma safra de milho razoável e com boas produtividades. Mas isso tudo é incerto, afinal, o tempo nem sempre nos obedece. Resta ao produtor plantar bem o milho e na melhor tecnologia.

Como bom brasileiro, acredito que Deus é brasileiro e que milagres acontecem. Então, vou acender minha vela e rezar para que surja uma luz e 2016 não seja o que se prediz.

Presidente da Câmara Setorial da Soja, diretor da Aprosoja e produtor rural em Campos de Júlio/MT