Na Hora H

AS ESTATÍSTICAS INDICAM QUE O BRASILEIRO ESTÁ MAIS PESSIMISTA

ALYSSON PAOLINELLI

Que pena! Os pessimistas ainda não conseguiram enxergar o verdadeiro potencial que representa para nós e para o mundo o nosso agronegócio. Será que eles não veem ou não acreditam que este setor está produzindo a cada ano em exportações US$ 100 bilhões, e que isso representa US$ 85 bilhões livres, descontadas as importações que o setor consome (prova inequívoca da incompetência do nosso planejamento estratégico). Quantia essa que faz bem ou é capaz de sustentar muitas economias mundo afora. É necessário levar-se em conta que nas décadas de 1960 e 1970 ainda éramos importadores de 30% dos alimentos que consumíamos e que pagávamos os preços mais caros que se conhecia.

Não podemos esquecer que de 1980 a 2000 o preço dos alimentos caiu 70%, benefício que foi exclusivamente para os consumidores, e que os brasileiros no início dos anos 2000 já pagavam os mais baixos preços na alimentação. De fato, podem ficar pessimistas sim quando veem os maus gestores da condução da nossa economia usarem grande parte de reservas cambiais para fazer Suap e tentar, de forma errônea, segurar o preço do dólar. Agora, mais assustador é verificar que a sanha de sua gastança já pensa em transformar as reservas cambiais em receitas e usá-las em suas criminosas pedaladas. Isso sim deve nos provocar mais pessimismo.

Será que não acreditam que os nossos profissionais, pesquisadores, professores e cientistas, junto com os nossos eficientes produtores, cada qual em sua instituição, foram capazes de desenvolver a primeira agricultura tropical do globo e garantir para as futuras gerações – que em 2050 serão 9,7 bilhões de habitantes e com maior renda do que hoje, e que necessitam de alimentos que só serão viáveis graças à nossa agricultura tropical? Temos de acreditar, como o mundo, que o Brasil hoje é a maior garantia de uma segurança alimentar neste futuro próximo.

Pessimistas deveriam ficar os brasileiros quando veem a ignorância de nossos dirigentes tentando legislar sobre coisas que não conhecem. O mais doloroso exemplo é o do Código Florestal, que por imposições malucas teve comparadas às condições do clima tropical úmido da Amazônia como sendo igual às do semiárido do Nordeste. Os dois regulamentados pela mesma lei e com os mesmos parâmetros. Na realidade, o objetivo dessa lei maluca é engessar o Brasil para que não cresça o seu setor produtivo agrícola.

Felizmente, os nossos profissionais, técnicos, cientistas, professores e diligentes produtores foram capazes de, em tempo recorde, desenvolver tecnologias reparadoras de nossas áreas degradadas e colocá- las à disposição dos produtores brasileiros com a recuperação de nossos mais de 70 milhões de hectares de pastagens degradadas, como o caso da integração lavoura- pecuária-floresta. Mas a incompetência do Governo não consegue que esse projeto vá avante e realize o que ele pode e deve fazer.

Pessimistas sim podemos ficar quando vemos as loucuras que estão fazendo quando destroem as nossas políticas públicas para o setor rural que comprovadamente foram exercidas desde o início da década de 1960 até a década 1990, e que chegaram a servir de exemplo a muitos outros países e instituições que aqui vieram para conhecê-las. Pessimistas sim quando vemos a balbúrdia que fizeram com o crédito rural, que nos dias de hoje perdeu inclusive as suas fontes, pois depósitos à vista nessa economia de hoje é rasgar ou jogar dinheiro pela janela, coisa que o brasileiro não é louco para fazer – embora esteja vendo que os administradores de nossa economia são usuais nessa prática.

Pessimistas quando vemos os nossos concorrentes, todos eles, com um programa de seguro rural que atende os riscos da natureza e os riscos econômicos a custos compatíveis com o que produzem. Aqui não temos o seguro rural nem próximo do que é desejável, e o Governo insiste que essa é uma tarefa somente dele e com isso não consegue atender nem 8% dos nossos produtores e nem 5% da nossa produção. Não conhecem o risco, muito menos seus custos, e quando o Governo toma para si a responsabilidade de executar o programa de seguro rural via Tesouro Nacional pagando valores estratosféricos somente para os riscos climáticos, ele nos leva a duvidar da seriedade desse programa. Por que não fazemos aqui uma parceria envolvendo todos os interessados em ter um sério seguro rural que possa atender nossa agricultura de mercado e segurar o clima e a economia? A incompetência no planejamento e na execução de nossa infraestrutura logística, se continuar como está, sugere mesmo um pessimismo sem fim.

Esse pessimismo nos leva a sugerir o caminho de um otimismo objetivo e sério através de uma participação que exige uma verdadeira mobilização daqueles que não estão mais acreditando no Brasil para exigir que o País retome um rumo de seriedade, competência e honestidade e que as nossas ações políticas se voltem para um projeto de Nação e não um assalto de Poder. Essa sim deve ser a vocação dos brasileiros, que embora pessimistas ainda são capazes de antever esse potencial que temos e do qual não podemos abrir mão. Em vez de pessimismo vamos nos mobilizar sem precedente e exigir, se necessário, até nas ruas, que o País assuma o destino que lhe cabe.

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura