O Segredo de Quem Faz

Ideias para o futuro do milho ser DOURADO

Leandro Mariani Mittmann
leandro@agranja.com

Com o mineiro de Bambuí Alysson Paolinelli, que completa 80 anos em julho, sempre rende um bom papo. Sim, falar de agricultura é um dos prazeres dele e a conversa flui fácil, fácil. Uma das maiores autoridades da agricultura brasileira, concorrido como palestrante para os principais eventos do agronegócio, inclusive no exterior, Paolinelli foi ministro da Agricultura de 1974 a 1979 e é o presidente executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho) e da Maizall, a Aliança Internacional do Milho, organização que reúne os produtores Brasil, Estados Unidos e Argentina. O currículo de Paolinelli vai bem além, inclusive como colunista d’A Granja desde fevereiro de 2011, e nesta entrevista ele explana ideias e propostas para o Brasil se tornar um player de milho – matéria-prima base para geração de proteína animal – no planeta. Segundo ele, o País tem tranquilamente potencial para produzir 380 milhões de toneladas do cereal/ano – quatro vezes mais do produzido hoje.

A Granja — Quais as suas perspectivas para o milho na agricultura brasileira?

Alysson Paolinelli — Eu tenho uma tese. A nossa visão que começou quando esses países populosos começaram a ter crescimento muito grande, chamamos a atenção para a demanda do setor de alimentos. Já está comprovado no mundo que, a cada 20% de aumento da renda familiar, dobra o consumo de proteínas nobres. Isso já foi enunciado há muitos anos e vem seguindo aqui no Brasil – foi o Eliseu Andrade Alves (ex-presidente da Embrapa, de 1979 a 1985), e o professor Eduard Schuh, da Purdue University (EUA), que acompanharam isso e verificaram que era verdade. Isso, inclusive, aconteceu com o Brasil, como está acontecendo na China, na Índia, que são países populosos. Por outro lado, tem a África, que pouca gente está dando atenção na questão da alimentação. A África não vai ser demandadora de milho para proteínas nobres. O milho lá é alimentação básica. E a África já tem 1 bilhão de pessoas, e lá há países populosos crescendo a 8% ao ano há muito tempo. Isso chama a atenção de pouca gente. Então, nós aqui na Abramilho levantamos a seguinte situação: a demanda por alimentos no mundo vai ser muito pressionada por determinados segmentos. E um deles é o da proteína nobre, que é feita com milho e soja. A soja, em uma proporção de 30% na ração e o milho, em 70%. E nesse nosso levantamento ficamos assustados, pois vimos que, se o Brasil atingir aqueles 40% da demanda de produção de alimentos que a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) está pedindo da gente, já dá um volume altíssimo. Nós chegamos aqui a determinar que o crescimento da demanda em relação ao milho no Brasil seria de 380 milhões de toneladas. Ou seja, quase quatro vezes o que produzimos. Eu, inclusive, peguei essa tese e levei lá na FAO logo que o José Graziano, que é brasileiro, assumiu como Secretáriogeral. Fui muito bem recebido, conversamos, ele chamou o pessoal dele e na hora que eu levantei essa tese ele disse “foi bom demais você ter vindo aqui porque nós já estamos corrigindo isso, vimos que a demanda será maior mesmo”. Qual é a nossa tese? Quem é que tem capacidade de produção de milho e que pode abastecer esse grande vácuo que vai dar aí? O primeiro produtor são os Estados Unidos, segundo, a China, depois, a Europa.

A Granja — Que importância esses produtores do cereal têm hoje e quais as perspectivas?

Paolinelli — Nos Estados Unidos, se fizer uma análise bem clara do que está acontecendo lá, o país acabou com aquela lei de pagar para deixar de lado e não plantar. Hoje não existe mais. E os Estados Unidos produzem 350 milhões de toneladas de milho, uma montanha. Mas eles sabem que está meio limitado expandir isso em muito, a não ser na velocidade da produtividade. E acontece um fato interessante. Os Estados Unidos chegaram a programar o uso de um combustível ecológico, o etanol, em 150 milhões de toneladas, que achavam que podia ser oferecido. E foram feitas fábricas para 150 milhões. Só que acontece o seguinte: eles nunca conseguiram usar as 150 milhões de toneladas. Como nos Estados Unidos planejamento é planejamento, a iniciativa privada foi estimulada e construiu as fábricas, e aqueles que não produzirem ganham como se estivessem produzindo. Os Estados Unidos pagam a eles uma taxa. Então, o máximo que os Estados Unidos usaram foi 123 milhões de toneladas. Ora, se um país como os Estados Unidos, que tem aquele potencial de milho, faz um projeto para 150 milhões e nunca usa, porque eles não investem. E naquele desastre de 2012 (estiagem histórica), eles vieram aqui comprar milho correndo. E hoje eles compram milho para produzir etanol. Fica mais barato para eles vir comprar milho aqui do que pagar a penalização por não ter milho. Então, os Estados Unidos não são um país que está folgado em milho. Ao contrário. Os Estados Unidos têm um mercado externo de cerca de 30 milhões de toneladas mais ou menos estável. E que eles fazem muita questão de manter isso. Outro país que poderia produzir é a China, e que está fazendo um esforço, e eu fui lá para ver isso duas vezes. O esforço em aumentar é tremendo, e aumentou. Hoje estão produzido mais de 200 milhões de toneladas. Mas não é suficiente. Inclusive lá a gente fica meio preocupado porque eles jogam muito com os dados. Chegaram a falar que estavam com quase 100 milhões de toneladas de estoque e não tinha coisa nenhuma, nunca teve. Esse país está fazendo um esforço tremendo, inclusive no ano passado, por exemplo, reuniu o Partidão (Partido Comunista chinês) e deu prioridade zero. E quando a prioridade é zero para algum setor, esse tem tudo o que precisar. E eles deram prioridade zero à segurança alimentar. O esforço que a China está fazendo no milho é algo espantoso. Chegaram, inclusive, a violentar algumas das teses básicas deles. Aquelas áreas naqueles estados que têm baixios, de umidade razoável, cujas propriedades são de meio hectare, eles chegaram a estimular empresas a irem lá e integrar aquilo tudo, como também pessoas e governos estaduais, para poder transformar em megaproduções. Em vez de plantarem meio hectare, eles trabalham hoje com tratores de 230 cavalos, plantadeiras de 36 linhas, colheitadeiras de 11 pés. Mas, mesmo assim, não estão conseguindo atingir esse nível. Aumentaram muito a produtividade, mas não estão conseguindo aumentar a produção. A China a gente sabe que, no máximo, vai empatar, mas ela está sendo uma grande compradora de milho do Brasil. A tese para mim é válida: a quantidade de famílias que entram no mercado anualmente é muito grande, quase uma população brasileira economicamente ativa. Então, isso dá uma demanda muito forte. E lá eles precisam do milho e da soja para produzir ração básica para proteínas nobres, para ovos, carnes, suínos, que eles comem demais, e agora até bovinos estão começando a comer. Então, a tese já pegou os dois principais países.

A Granja — E no caso da Europa?

Paolinelli — A Europa não está conseguindo mais o autoabastecimento, e é compradora. Se pegar toda a Europa, produz mais de 800 milhões de toneladas, mas não é mais aquela grande exportadora, ao contrário, está sendo importadora de milho. E eles estão com uma tese boba lá dentro. É que as ONGs estão muito fortes politicamente e insistem em não deixar produzir muitos transgênicos. Mas eles sabem que não têm capacidade de serem autossuficientes e estão autorizando a importar milho transgênico. Com isso, eles vão perder muito tempo. Aqui na América do Sul, a Argentina pode ser um grande produtor, mas já está no seu limite praticamente em área. Pode crescer um pouco, mas a Argentina estava com um problema político tremendo, parece que agora a coisa vai virar, pode crescer um pouco e pode ser uma das abastecedoras. Pode ajudar o Brasil nessa missão de não faltar milho. A soja vai continuar sendo importada, a China e a Europa não têm capacidade de produzir soja. Ficou para nós mesmos, um país que ainda está abrindo área.

A Granja — E o lugar do milho brasileiro neste contexto?

Paolinelli — Agora o grande vazio que existe, entre aspas, para atender essa demanda se chama Brasil mesmo. Nós criamos legislações estúpidas, a começar pelo famoso Código Florestal, que limitou muito. Estamos quase que no limite da expansão de área livre no Brasil. Existem aí uns 5 milhões de hectares, no máximo. Isso não vale nada. Porém, felizmente, desenvolvemos concomitante a essas besteiras políticas, uma tecnologia tropical fatal para a concorrência, que é a integração lavoura-pecuária, por exemplo, que vai recuperar milhões de hectares de pastagens no Cerrado e colocar isso no sistema produtivo, tanto de grãos como de proteína. Então, a posição brasileira no milho é espetacular. E eu comecei a bater nessa tese quando todo o mundo dizia: “o Paolinelli tá doido, nós estamos aqui com chance do milho cair tanto porque não tem mercado...” Ao contrário, o que o Governo está perdendo é a grande chance de estimular e tocar o Brasil para a frente. E ao invés de produzir 82 milhões, 85 milhões de toneladas, tínhamos que estar produzindo mais de 100 milhões de toneladas. Porque o mercado existe, está bom e vai continuar a existir. Esse negócio de demanda é fatal. Quando se identifica uma demanda de longo prazo, pode ter variações como teve entre 2013 e 2014, mas são variações conjunturais. Na realidade, a demanda vai crescer e o preço vai crescer também. Não tem outra saída. O mundo tem limitações na produção e não tem na demanda. E quando falo da demanda de um produto como o milho, ele é fundamental. Depois dessa estabilidade no trigo e no arroz (em área), o milho e a soja são os dois grandes grãos que vamos ter que fazer crescer. E essa tese eu venho batendo, insistindo... fizemos (na Abramilho) junto com a Embrapa e com a Fundação Dom Cabral um plano para a produção de milho. E o Governo não quis nem ver ainda. Não se dignou a “vem cá, vamos discutir isso...”

A Granja — Mas quais seriam as propostas desse plano?

Paolinelli — Ah, ele mexe em tudo. O diabo é que mexe onde o Governo não está mexendo... Desde tecnologia, crédito, seguro, preço mínimo, infraestrutura, desde armazenamento, portuária, transporte, rios, etc., etc. É uma pena. Eu digo que infelizmente estamos jogando fora uma grande chance, porque não tem ninguém capaz de fazer frente ao Brasil como essa tecnologia tropical que desenvolvemos aqui, a integração lavora-pecuária, capaz de recuperar a pastagem em um ano apenas, de um ano para outro. Isso é uma dádiva de Deus. Quando a gente conversa isso lá fora eles ficam loucos. Quando eu falei a primeira vez que iríamos produzir duas safras, eu lembro... “esse rapaz é louco; como é produzir duas safras?”. É lógico. Para esse pessoal que mora na região temperada, não existe essa chance. Lá eles têm uma janela de 12 dias para plantar, e nós temos de 12 meses. Agora, quando eu chego, “olha o homem...”, eu já estou falando na terceira safra. Eles devem estar falando “esse rapaz, doido não é...” Qual é a terceira safra? A da irrigação. No Rio Grande do Sul, estão começando a fazer muito bem. Tenho ido ao estado e estou muito satisfeito de ver a evolução. Essa terceira safra vai ser fatal. Ninguém tem capacidade de produzir a terceira safra, a não ser um país tropical como o Brasil. E outra coisa: essa terceira safra vai estabilizar a primeira, garantir a segunda e permitir a terceira. Quem tem infraestrutura de irrigação não vai deixar de usar. É no mínimo duas vezes e meia ao ano. Essa é uma tese que eu tenho batido e, agora, felizmente, estão dizendo que com toda a minha loucura, tem que ouvir alguma coisa aí. Em 2015, por exemplo, todo mundo dizendo “o milho vai cair, o milho vai cair”. Felizmente, o São Pedro, que é brasileiro, ajudou nas principais áreas produtoras e o Brasil cresceu em produção. Mas cresceu muito mais em exportação. Estamos exportando quase 50% da produção. Vamos exportar quase 30 milhões de toneladas. E em 2016? Se tivermos milho, vamos exportar. Só não vamos porque não vamos ter. Não houve incentivo. Ao contrário. O crédito rural ficou mais difícil, no seguro fizeram essa bagunça e hoje é uma forma de manipular o produtor, enquanto os outros países são sérios e aí eu me preocupo. Tem infraestrutura, e até que estão melhorando graças... e eu já disse que quero descobrir no PT quem inventou a palavra parceria, porque não aceitavam privatização, mas parceria eles aceitam. Esse sujeito é de uma estátua, viu (risos)? Então, se ampliou e vamos ampliar mais, espero eu, a infraestrutura. À medida que se melhora isso, o Brasil vai ficando mais competitivo. Esses portos no Norte são fabulosos. A iniciativa privada vai entrar porque é rentável. Então, eu vejo que o milho no Brasil é a grande chance que estamos tendo. E a soja? É também. É também porque milho e soja no Brasil são interconversíveis. E vamos ter sempre uma primeira safra de soja e depois a segunda de milho. A de soja vai crescer e a de milho também. E a terceira? Ela deve ser mais propensa para a de milho, porque é uma gramínea e se adapta melhor ao período que vamos chamar de mais inconveniente para se produzir que é a terceira safra, no caso. Mas na região tropical não tem problema. O milho vai produzir bem. Então, estou seguro, mas seguro que o mercado do milho pode ter oscilações conjunturais (dá ênfase à palavra), mas não terá riscos de médio e longo prazos. O milho vai ser um cereal que o mundo vai precisar pelo menos na projeção destes próximos 30 anos.

A Granja — Mas em curto e médio prazos, o Brasil está fazendo algo, o Governo...

Paolinelli — Não, não. Fazendo... acho que o Brasil está fazendo ao contrário. Está perdendo chances. Infelizmente. Nos últimos anos está piorando muito. Mesmo com a entrada da Kátia (Abreu, ministra da Agricultura), que é uma moça que conhece, sabe, não aconteceu nada e piorou. Ela não tem como. Ela tem limitações, o que é uma pena. E eu torci, e ela sabe que a gente tem esse programa e provavelmente sabe que não tem como atender, e até por isso ela não atende. O plano está pronto há dois, três anos.