O Segredo de Quem Faz

“O cooperativismo constrói uma sociedade mais JUSTA”

Leandro Mariani Mittmann leandro@agranja.com

O cooperativismo e as cooperativas são feitas de pessoas, mas, sobretudo, de lideranças, aqueles homens e mulheres que são o que se poderia definir “cooperativistas de carteirinha”. Alguns presidentes de cooperativa são, inclusive, seus fundadores. E o que se poderia definir como a principal liderança cooperativista do País é o agropecuarista de Patrocínio Paulista/SP Márcio Lopes de Freitas, 56 anos, desde 2001 à frente da Organização das Cooperativas Brasileiras (Sistema OCB), entidade que congrega 1.600 cooperativas agropecuárias, além de instituições de outros 12 setores. “Nos últimos anos, o cooperativismo tem firmado sua participação e posição de destaque também na economia brasileira e na construção de uma sociedade mais justa, com indicadores representativos”, destaca o filho de cooperativista - o pai foi presidente da Organização das Cooperativas de SP. Freitas avalia o cooperativismo brasileiro a seguir.

A Granja — De cada 100 produtores brasileiros, 64 são associados de cooperativas agrícolas, que somam mais de 1.600 instituições (ligadas à OCB). A partir desses e de muitos outros números que poderiam ser usados para dimensionar o cooperativismo brasileiro, que avaliação o senhor faz da importância do cooperativismo no desenvolvimento da agropecuária brasileira até hoje?

Márcio Lopes de Freitas — O modelo cooperativista já faz parte da vida de mais de 1 bilhão de pessoas no mundo todo. As cooperativas estão presentes em mais de 100 países e geram mais de 100 milhões de empregos. Nos últimos anos, o cooperativismo tem firmado sua participação e posição de destaque também na economia brasileira e na construção de uma sociedade mais justa, com indicadores representativos. No Brasil, nós, do Sistema OCB, representamos mais de 6,6 mil cooperativas, divididas em 13 ramos de atuação, com mais de 12,7 milhões de associados e em torno de 360 mil empregos diretos. Se considerarmos as famílias e os empregados, podemos inferir que somos mais de 50 milhões de pessoas ou 25% da população brasileira.

A Granja — E qual sua avaliação do cooperativismo em relação ao atual momento do agronegócio e da economia do País?

Freitas — Historicamente, as cooperativas têm se mantido atuantes no mercado mesmo em tempos de crise econômica. Isso se deve à participação de todos os cooperados nos processos decisórios, à melhoria constante nos processos de gestão e governança e à qualificação da mão de obra. É evidente que, em tempos de crise, é preciso pisar no freio no momento certo e acelerar quando possível. As cooperativas brasileiras aprenderam isso ao longo do tempo e, hoje, sabem aproveitar as melhores oportunidades.

Diante disso, é evidente que, mesmo com a crise, as estratégias de mercado e a oferta de produtos com preços competitivos tendem a garantir a sobrevivência das cooperativas. Fundamentalmente, o cooperativismo nasceu em meio a uma crise. Então, sempre costumamos dizer que as cooperativas tendem a passar pela crise, buscando alternativas para contornar os momentos difíceis, identificando novos nichos de mercado, novas formas de atuação. Não é porque somos imunes, mas porque temos uma preocupação grande de, rotineiramente, rever nossos processos de gestão e governança, além de observar cada oportunidade de crescimento.

Com certeza, o empreendedorismo e a inovação, ou seja, a capacidade de visualizar oportunidades e se reinventar, são diferenciais para empresas e pessoas nesse cenário conturbado de crise pelo qual estamos passando no Brasil. Em relação a 2015, o ano não foi ruim. As cooperativas agropecuárias aproveitaram uma safra de boa qualidade e com grande volume. Os preços internacionais, apesar dos revezes ocorridos, ainda se mantiveram, o que gerou resultados bem positivos. Então, podemos considerar 2015 como um ano bom para as cooperativas.

Embora estejamos vivendo momentos de dificuldades econômicas e financeiras, ainda tivemos uma disponibilidade de crédito rural razoável. O esforço do Governo Federal, principalmente da ministra Kátia Abreu (da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), em antecipar o Plano Agrícola e Pecuário, foi fundamental, pois veio na hora certa.

A Granja — Nesse contexto, diante do alto nível de competitividade, tecnologia e gestão que a agricultura brasileira atingiu, o que tem sido feito – ou deveria ser empreendido – pelas cooperativas para acompanhar tal realidade?

Freitas — Como ocorre em diversas partes do mundo (como no Canadá, na Itália e na Alemanha), as cooperativas são indutoras de desenvolvimento econômico e social. Para ter uma ideia, em diversas partes do País, as cooperativas e seus parceiros realizam, sozinhos, importantíssimos eventos de transferência de tecnologia. Dentre as maiores e mais respeitadas feiras de exposição voltadas ao setor agropecuário estão Expodireto Cotrijal, realizada em Não-Me-Toque/RS, Show Rural Coopavel, em Cascavel/PR, Tecnoshow

Comigo, uma das maiores feiras do Centro-Oeste, em Rio Verde/GO, e a Agrobrasília, em Brasília. Apenas em 2014, por exemplo, as cooperativas agropecuárias, ao realizarem suas feiras, contribuíram para a exposição de 11 apresentações de vitrines tecnológicas para a transferência de tecnologias no campo, reunindo um público de 700 mil produtores e gerando um volume de negócios de R$ 7 bilhões.

Isso mostra que as cooperativas, além de induzir, disseminar e promover a atualização de seu quadro técnico, contribuem com universidades e empresas de pesquisa, como é o caso da Embrapa. Há diversas pesquisas realizadas por meio de parcerias entre a empresa e as cooperativas, devido tanto ao alto grau de qualificação de seu corpo técnico quanta à capilaridade do movimento cooperativista.

A Granja — Ainda sobre isso, como tem sido a preparação, a formação das lideranças das cooperativas para enfrentar os desafios das novas realidades e competitividades do agronegócio brasileiro? E o que a OCB e as organizações estaduais ligadas à instituição têm promovido para qualificar os gestores (atuais e futuros) das cooperativas?

Freitas — Essas são questões muito importantes. A qualificação do setor tem sido pauta constante de reuniões entre as lideranças do nosso segmento, em todas as partes do País. Em 2015, promovemos uma série de fóruns de presidentes, superintendentes e dirigentes do Sistema OCB, em que estabelecemos as prioridades para o ano, com vistas à superação dos desafios que o cooperativismo tem pela frente, de acordo com o nosso plano estratégico. E essa questão foi, mais uma vez, apontada por todos os estados. Dessa forma, o Sistema OCB, por meio do Sescoop (Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo), tem atuado incessantemente para oferecer ações e programas que assegurem a qualificação da mão de obra e dos processos de administração, visando ao melhor desempenho das funções, aprimorando assim a gestão das nossas cooperativas. Dentre muitas iniciativas, podemos destacar grandes ferramentas de qualificação como os programas de desenvolvimento da autogestão das cooperativas e de formação de executivos e líderes com módulos internacionais. Temos um olhar atento e constante para essas questões, pensando sempre em novas formas de atender essa, que é uma demanda constante do movimento e ponto fundamental para a sua competitividade e, consequentemente, para o sucesso do nosso modelo de negócios – a profissionalização constante dos processos de gestão e governança.

A Granja — Um dos atuais maiores problemas da agricultura brasileira são os custos de produção recordes. Sobre isso, que vantagens os associados têm em relação aos não-cooperados?

Freitas — O cooperativismo tem em sua essência o componente social. O capital humano é a parte fundamental para qualquer passo que se dê dentro e fora da cooperativa, começando por sua própria constituição. As pessoas são envolvidas o tempo todo, tanto na produção quanto no processo decisório, por exemplo. Isso reforça os laços de responsabilidade dos associados com sua cooperativa e, também, com a comunidade onde ela está inserida.

Graças à cooperativa, os pequenos produtores familiares, por exemplo, conseguem viabilizar a comercialização de sua produção. As cooperativas oportunizam ganhos de escala, redução de custos, como na aquisição de insumos, e funcionam com balizadores dos preços de mercado. Em alguns lugares, as cooperativas de crédito literalmente financiam a produção local.

Enfim, as sociedades cooperativas funcionam como verdadeiros centros de segurança para seus associados. Esse olhar para o outro é uma característica natural e marcante do cooperativismo. As sociedades cooperativas têm alta capacidade de transformar a realidade das áreas onde estão presentes. Os benefícios, portanto, da prática cooperativista não ficam restritos ao seu quadro de associados. Baseado em seus sete princípios, o cooperativismo proporciona emprego, renda, qualidade de vida e felicidade tanto aos cooperados quanto à sociedade. Não é à toa que temos crescido tanto nos últimos anos.

O cooperativismo de crédito, por exemplo, nos surpreende. Em 2006, havia 2,7 milhões de cooperados. Hoje, esse número beira a casa dos 7 milhões. É um sinal muito claro de que o negócio cooperativista dá certo e estimula a prática do trabalho trabalho coletivo em prol da realização de objetivos comuns.

A Granja — Como líder das cooperativas e cooperativistas, qual a sua avaliação e expectativa para o agronegócio brasileiro em 2016?

Freitas — A crise econômica é muito mais profunda do que se imagina. Ela é estrutural, e gera desconfiança e retração na economia. O que essa crise causa é temeridade. Acredito que o Brasil está vivendo uma completa falta de previsibilidade e isso, para quem é agricultor, ou seja, aquela pessoa que acredita, planta, e aguarda a colheita com esperança, não é favorável. Quem vive do campo precisa ter o mínimo de previsibilidade. E isso vai além de questões climáticas... independemente do El Niño ou do La Niña.

Então, a crise que mais nos afeta é a falta de horizontes e a sobra de rumores de que as coisas podem piorar! Isso gera um processo de inércia econômica e até de retração. Para 2016, como eu disse, não há previsibilidade muito clara. Depende muito de vários cenários, contudo, o ano novo me transmite muito otimismo porque eu acredito na capacidade da nossa agricultura. Por causa do nosso clima, das condições físicas do nosso solo e, acima de tudo, por causa da geração fantástica de agricultores visionários, uma característica do povo brasileiro, a nossa agricultura tem se posicionado de forma cada vez mais eficiente.

A Granja — E o que o senhor espera do Governo, em especial da ministra da Agricultura, Kátia Abreu, para o novo ano?

Freitas — O que esperamos do Governo Federal como um todo é o reconhecimento de que o cooperativismo é uma ferramenta eficaz de transformação econômica e social. Um dos princípios do nosso setor é justamente o fato de ser feito por gente. São pessoas trabalhando por pessoas, gerando resultados, compartilhados de forma justa e igual. Acredito que não há transformação social sem trabalho e renda. E o cooperativismo oportuniza isso. Veja o caso da agropecuária da atualidade. Ela é formada por uma nova geração de agricultores que aprenderam a se organizar, a falar com o mundo, a se informar bem e, dessa forma, agir ponderadamente nos momentos de dificuldade e a potencializar seus negócios nas épocas de equilíbrio econômico. E, assim como a agricultura, outros setores econômicos podem obter o mesmo resultado, por meio de desempenho coletivo. Enquanto entidades de representação, desenvolvimento e acompanhamento das cooperativas brasileiras, as três Casas do Sistema OCB (Sescoop, CNCoop – Confederação Nacional das Cooperativa, e OCB) continuaram trabalhando firmemente para assegurar que mais homens e mulheres coloquem em prática os princípios cooperativistas e, dessa forma, sejam mais felizes.

A Granja — Qual a dimensão das cooperativas nas exportações do agronegócio brasileiro?

Freitas — As cooperativas brasileiras têm investido cada vez mais na gestão de seus negócios, e isso tem refletido também no aumento das exportações. De janeiro a novembro, as vendas das cooperativas para fora do País totalizaram US$ 4,8 bilhões (MDIC, 2015). Com o intuito de potencializar os resultados cada vez mais expressivos, o Sistema OCB lançou em outubro o Catálogo Brasileiro de Cooperativas Exportadoras, documento traduzido em sete idiomas, a partir do qual os compradores podem encontrar informações sobre os principais produtos exportados pelo setor. Ao longo de todo o ano passado, o total exportado pelas cooperativas foi US$ 5,3 bilhões. Ao serem comparados os valores das operações de exportação da última década, o resultado é ainda mais significativo: as exportações feitas por cooperativas cresceram em torno de 2,6 vezes entre janeiro de 2005 e setembro de 2015. Há 10 anos, a participação das cooperativas no montante global de exportação era de US$ 1,6 bilhão.