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Glauber em Campo

TEREMOS UM MOISÉS A NOS SALVAR OU APENAS AS PRAGAS?

GLAUBER SILVEIRA

Quem fez catequese deve lembrar que o povo hebreu sofreu muito sob o domínio dos egípcios. Mesmo antes da libertação destes, liderados por Moisés, penaram com as sete pragas que se acometeram sobre todo o Egito. Aqui no Brasil, parece-me estarmos passando a mesma coisa. Pragas políticas, corrupção, caos econômico, rios poluídos, tormentas, seca. Como no Egito, muitos inocentes pagaram junto com os pecadores, mas lá ao menos tiveram o seu Moisés. Aqui fica a pergunta: será que teremos um salvador que não tenha envolvimento, seja no mensalão, petrolão, etc., que não tenha uma conta na Suíça?

Nunca necessitamos tanto de um salvador, seja na economia, na política ou na lavoura. Os produtores americanos têm seu Moisés, um seguro bem estruturado que garante aos produtores um mínimo de rentabilidade. Nós brasileiros nunca precisamos tanto de um seguro de produtividade ou de renda. Nós sempre dissemos que o seguro pouca serventia tinha para a região Centro-Oeste do Brasil. Afinal, por exemplo, há muito não tínhamos um clima tão complicado com relação a precipitações, pois em particular no Mato Grosso as precipitações sempre foram muito regulares.

Mas, infelizmente, podemos dizer que nesta safra 2015/16 está se configurando uma catástrofe climática, seja com o excesso de chuva no Sul do País, seja com a seca na região central. Além da precipitação, outro fator agrava ainda mais, que é a temperatura. Eu estou no Mato Grosso há mais de 20 anos e jamais vi em dezembro temperaturas próximas a 40 graus no Chapadão dos Parecis, chapadão esse que está acima de 450 metros de altitude. Isso também agrava muito, pois a pouca chuva que cai logo se vai.

Para complicar ainda mais, o Plano Safra deste ano saiu tarde, o pré-custeio que contribuía para reduzir custo não existiu, o seguro agrícola que pouca utilidade tinha devido à baixa cobertura – pois dados mostrados pelo próprio Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) demonstram que a maior adesão é na cobertura de 55%. Isso significa, em média, uma garantia de 26 sacas/hectare, importante para regiões de maior risco climático como RS, PR e SC, mas que para a Centro-Oeste, com produtividades raras abaixo de 40 sacas, de nada servia. A não ser um custo.

Mas tenho que dar a mão à palmatória. Nesta safra, no Brasil de Norte a Sul, teremos milhares de produtores colhendo abaixo das 26 sacas/hectare, e em muitos casos não colhendo nada. No Norte e no Leste do MT tem produtores que ainda não terminaram seu plantio em dezembro, coisa que jamais se viu. Áreas enormes sendo replantadas, produtores de 2 mil hectares com 500 hectares para plantar e outros mil hectares para replantar. Para esses produtores, o seguro seria sua salvação.

Infelizmente, ao invés de o seguro no Brasil evoluir, nesta safra regrediu. O recurso para subvenção foi reduzido pela metade e com a redução vieram regras que estimulam o produtor a aderir à cobertura de 55% da produção. Em uma safra em que o custo está próximo a 90% da produção, ele irá contribuir, sem dúvida, mas longe de ter a utilidade de manter o produtor na atividade. É notória a falta de sensibilidade dos agentes do Governo em prever e melhorar um instrumento social e de garantia.

Por outro lado, vemos a Conab anunciando números de produção de 102 milhões de toneladas de produção de soja, longe de ser essa a realidade se nada mudar e o tempo continuar com seca no Centro-Oeste e chuvas no Sul. Deus nos livre da baixa produtividade e dos custos altíssimos devido a ferrugem e lagartas. E para completar, preços extremamente baixos, estoque de passagem de soja alto, maior oferta que procura. E agora, os argentinos, além de terem um Papa, ganharam seu Moisés, que promete fazer a Argentina passar dos 150 milhões de toneladas de grãos nos próximos anos. A nossa situação se complica com essa logística maravilhosa que temos. Precisamos de um Moisés urgentemente, ou iremos nos afogar no Mar Vermelho. Mas, pelo visto, teremos que importar um, já que até agora os apresentados estão mais para faraós.

Presidente da Câmara Setorial da Soja, diretor da Aprosoja e produtor rural em Campos de Júlio/MT