Fitossanidade

 

A produção totalmente PROTEGIDA

As Boas Práticas de Armazenamento começam ainda antes da chegada dos grãos, e envolvem limpeza, higienização e controle das condições do grão armazenado na estrutura

Marco Aurélio Guerra Pimentel, pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo

O armazenamento de milho e outros produtos agrícolas com qualidade e por períodos prolongados é plenamente possível quando se adotam corretamente as boas práticas agrícolas, desde o cultivo até a colheita. E principalmente na etapa pós-colheita, nos processos de limpeza, secagem, combate a insetos e prevenção de fungos. Do ponto de vista técnico, as perdas na armazenagem podem ser reduzidas adotando- se Boas Práticas de Armazenamento (BPArs) e agindo de forma preventiva, antes do armazenamento do milho, quando tais medidas são mais efetivas e menos onerosas.

As BPArs, podem ser adotadas em todas as escalas de produção agrícola, desde pequenos, médios e até grandes produtores. A principal medida preventiva visando às boas práticas de armazenamento é a higienização ou limpeza do ambiente de armazenamento. A limpeza é tão importante que alguns autores chegam a afirmar que constituem percentual significativo no sucesso do armazenamento do milho com qualidade. Além da limpeza do local de armazenamento, é necessário assegurar que piso, telhado e paredes estejam em boas condições de impermeabilização, ou seja, que não ocorra entrada de umidade do solo ou que a água da chuva penetre no local de armazenamento.

Nas etapas de pós-colheita, devese observar a regulagem e as peneiras das máquinas utilizadas nas etapas de pré-limpeza e limpeza dos grãos, a secagem dos grãos deve ser realizada respeitando-se as temperaturas limítrofes do ar de secagem para cada finalidade de grão, sendo inferior a 44°C no caso de sementes destinadas ao plantio, sob pena de comprometer a qualidade e germinação; inferior a 55°C para grãos que se destinam à indústria de moagem (produção de gritz e derivados para alimentação humana); e inferior a 82°C para os grãos destinados à fabricação de ração animal, sob pena de comprometer a qualidade e aumentar o percentual de grãos quebrados.

Os grãos também devem estar limpos para que o armazenamento ocorra com segurança, sendo recomendados, nesse caso, índices de impurezas e matérias estranhas inferiores a 3%. Outro importante fator referese ao teor de umidade dos grãos destinados à armazenagem, que deve ser inferior a 14%. O ideal, no caso do milho, está ao redor de 13% de umidade para o armazenamento com maior segurança.

A boa conservação dos grãos armazenados e a prevenção das perdas envolve, necessariamente, a realização prévia da limpeza e higienização de toda a infraestrutura de uma unidade armazenadora. Essa limpeza deve abranger não somente os silos, graneleiros ou armazéns, mas também o maquinário, como transportadores, por exemplo, além das estruturas físicas como poços de elevadores e áreas no entorno do local de armazenamento. A limpeza passa ainda pela eliminação de sobras de grãos de safras anteriores, a remoção de entulhos e sucatas que não são úteis.

Uso de inseticidas — Após a limpeza, pode-se utilizar a aplicação de inseticidas protetores nas estruturas, através de pulverização desses produtos diretamente nas estruturas, nos silos, nos armazéns e nos graneleiros, antes do carregamento dos mesmos com os grãos advindos da nova safra. Caso haja demora de mais de 30 dias para enchimento dos silos ou caso o produto seja armazenado por um período superior a 90 dias, recomenda-se fazer uma pulverização na correia transportadora à base de inseticidas protetores organofosforados (pirimifósmetílico) ou piretroides (deltametrina, permetrina e bifentrina), utilizando a dose recomendada pelo fabricante do produto e equipamento de proteção individual (EPI).

Silos deteriorados ou sujos devem passar por melhorias para receber a safra e não comprometer a qualidade da produção armazenada

O controle preventivo também pode ser realizado de forma física, com uso dos pós inertes (terra de diatomáceas), que misturados aos grãos causam morte de insetos por dessecação. Outro método que pode ser utilizado é a aeração, cujo objetivo principal é a redução do aparecimento das bolsas de calor dentro dos armazéns. Caso seja constatada a presença de insetos em silos, graneleiros ou armazéns deve-se fazer uso de expurgo com fosfeto de alumínio, cujo princípio ativo é a fosfina, eliminando os insetos adultos, larvas, pupas e ovos no interior dos grãos.

E mesmo após realizar todas essas medidas de limpeza e prevenção de infestações, o produtor ainda deve monitorar os grãos armazenados. O ideal seria diariamente, ou até mesmo semanalmente. Após realizar o enchimento dos armazéns, o produtor deve manter o monitoramento periódico do local de armazenagem e do milho armazenado, verificando a presença e a população de pragas, a presença de animais domésticos, a contaminação por fungos ou ainda a elevação da temperatura e da umidade dos grãos armazenados.

Medidas para evitar perdas — As perdas de grãos dentro da propriedade podem ser evitadas através de medidas simples, mas também podem requerer investimentos elevados, dependendo da situação. Uma ação simples que pode ser tomada é a conscientização dos produtores quanto aos prejuízos advindos de perdas na produção. O monitoramento e o controle das operações na lavoura, assim como no armazenamento, podem contribuir para a redução dessas perdas.

Atualmente, os custos de produção são elevados, não só na cultura do milho, e os gastos com insumos, sementes, mão de obra, máquinas, infraestrutura e terra, oneram a produção tornando significativas as perdas na lucratividade do produtor (excluindo- se aqui a questão da fome e dos preços dos alimentos aos consumidores).

O produtor investe cada vez mais em tecnologia na produção, em cultivares mais produtivos, adubação, proteção da cultura contra insetos e doenças, contudo, em alguns casos, após colher, o resultado de todo o investimento ainda tem o impacto com as perdas, seja na lavoura, no transporte ou na armazenagem. Assim, é necessário o monitoramento e a conscientização de todos os atores da cadeia de produção no sentido de aprimorar os processos de colheita, transporte e armazenagem para aumentar a competitividade do agronegócio aumentando a remuneração do produtor com o que seria perdido.

“Os grãos também devem estar limpos para que o armazenamento ocorra com segurança, sendo recomendados índices de impurezas e matérias estranhas inferiores a 3%”, lembra Pimentel

Durante o cultivo da lavoura, as principais orientações são com relação às Boas Práticas Agrícolas, quando recomenda-se a adoção das orientações dos fabricantes de sementes quanto ao espaçamento e às densidades de plantas do cultivar em uso, por exemplo. Ainda com relação ao cultivo, deve-se observar as condições climáticas nas épocas de plantio e colheita, observando o zoneamento climático para a cultura na região, adequando as janelas de plantio e colheita de acordo com a capacidade operacional do produtor. A adoção do Manejo Integrado de Doenças e Pragas também são medidas de prevenção quanto à redução de perdas quantitativas e qualitativas.

A secagem natural do grão de milho na planta, apesar de muito utilizada, pode expor os grãos a condições adversas de clima, dependendo da região de cultivo. Assim, quanto maior o tempo que as espigas permanecerem no campo, maior poderá ser o ataque de pragas e fungos, e maior a possibilidade de trincamento dos grãos durante a trilha ou debulha. A manutenção da planta de milho por tempo excessivo no campo deve ser evitada, o atraso em demasia da colheita pode prejudicar a qualidade dos grãos, expor os grãos a insetos e fungos, favorecer a germinação de grãos na espiga e favorecer o acamamento e a quebra de plantas, ocasionando perdas quantitativas e qualitativas.

Outras medidas simples como a limpeza das colhedoras antes da colheita, bem como a dos veículos de transporte dos grãos, devem ser adotadas para garantir maior qualidade do produto. Com relação às medidas que demandam maior investimento, destaca- se, principalmente, a modernização das frotas, tanto a dos caminhões e, principalmente, da carroceria dos mesmos, assim como os implementos utilizados na colheita e na armazenagem do produto após a colheita.

Atualmente, existem linhas de crédito do Governo especialmente voltadas à modernização de infraestrutura, cabendo aos produtores avaliarem a possibilidade de aquisição de empréstimos para renovação de sua frota e para investimento em infraestrutura que possibilitarão uma maior competitividade com a redução das perdas pelo transporte inadequado, por exemplo, em caminhões cujas carrocerias apresentam burracos e, em muitos casos, são inadequadas para o transporte de grãos a granel.