Eduardo Almeida Reis

 

LORENZO

EDUARDO ALMEIDA REIS

Lorenzo, gauchinho de ano e meio, encontrou uma cobra no jardim de sua casa, pensou que fosse um brinquedo e a mordeu atrás da cabeça. Como bom gaúcho, deve ter gostado da carne malpassada, sujou a boca e as mãos de sangue e não foi picado pelo réptil, que foi a óbito, como se diz no moderno jornalismo. Cobra não venenosa.

Lorenzo mora em Mostardas, município desde 1964, cidade colonizada por açorianos, ex-distrito de São José do Norte/RS. Nome curioso, porque a planta não abunda na região. Tenho e tive grandes amigos açorianos. Um deles, herói de guerra na África, onde teve a cabeça a prêmio por 500 libras, campeão mundial de paraquedismo, campeão europeu de luta greco-romana, comprou fazenda em Minas com as economias de executivo de multinacional.

Telefonou-me um dia, voz soturna: “Tu sabes que não tenho medo de nada, salvo de faíscas elétricas e serpentes veneníferas. Comprei fazenda num ninho de cascavéis, que tem o recorde mundial de faíscas por hectare”.

Realmente, seu alto de serra tinha cascavéis à beça e especial aptidão para atrair milhares de raios. A casa foi protegida por para-raios eletrônico suposto de cobrir área de 100 hectares e o bom amigo nunca saía de casa sem levar seringa e soro antiofídico. A temporada durou pouco mais que um ano. Com a alta no preço do café, o açoriano vendeu as terras com o lucro líquido de um milhão de dólares.As aventuras de Lorenzo e do meu saudoso amigo suscitam o tema convivência com os bichos existentes nas casas e nas roças. Ratos são raros nos edifícios de muitos andares, salvo quando sobem pelo elevador escondidos pelas compras da semana. Moro em um apartamento térreo e tenho tido as visitas de camundongos, felizmente raras.

Na roça, contudo, são inevitáveis. Construí um depósito de rações à prova de ratos, misto de inspiração e exemplos que vi por aí. Funcionou durante anos. Sem luz elétrica porque os roedores andam pelos fios. O resto só desenhando, aptidão que me falta, mas o leitor de A Granja pode confiar em mim.

Se é possível evitar a entrada de ratos em uma construção como o “meu” paiol, no resto da fazenda os roedores abundam e o gato, suposto caçador de ratos, está inteiramente desmoralizado. Venenosas ou não, cobras também abundam. Nas roças em que morei as jararacas obedeciam a ciclos anuais, um ano de muitas, alguns anos de poucas.

No episódio de Mostardas, as tevês ouviram vários técnicos. Ainda me lembro de um deles, apresentado como biólogo, dizendo que as cobras não atacam. É, bebé? Vai ver que o rapaz nunca ouviu falar da Lachesis muta, a maior serpente venenosa da América do Sul, que pode alcançar dois metros ou mais e é conhecida como cobra-topete, surucucu- de-fogo, surucutinga, surucucupico- de-jaca e surucucutinga, que corre atrás das vítimas eventualmente humanas. Nossos empreiteiros de cercas embicaram o batelão na praia de um rio do Mato Grosso, quando uma surucucu- pico-de-jaca veio de lá e invadiu a embarcação de madeira. Os rapazes pularam no rio e me contaram que só não emborcaram o batelão porque transportavam as armas e os mantimentos para dois meses de trabalho.

Baratas e outros bichos, que requerem dedetização, podem ser um problema porque não há firmas dedetizadoras nas roças. Durante séculos resolvi o problema com um veneno fortíssimo, que vinha em um saquinho plástico amarelo e o compadre misturava com água para pulverizar a casa sempre que viajávamos. Não me lembro do nome do veneno comprado em uma loja do Rio. Funcionava e não matava operários. Ainda agora em novembro fui padrinho de um casamento em Minas e tive o prazer de reencontrar o compadre, beirando os 80, magro, mulato, mineiro, firme feito o Pão de Açúcar, dúzia de filhos, várias dúzias de netos e alguns muito bisnetos.

Dois ou três maços de cigarros por dia, meio litro de cachaça, raros dentes, centenas de pulverizações contra carrapatos sem máscaras ou luvas especiais, dezenas de dedetizações com o tal veneno.

Por fim, outro fenômeno da natureza. Nossa fazenda no Vale do Paraíba/ RJ, 450 metros de altitude, clima quente, casa cercada de brejos e capineiras de napier, não tinha pernilongos à noite. Bastava fechar as janelas dos quartos até as 20 horas, que se dormia com as janelas abertas nos muitos meses quentes. Até hoje não entendi o fenômeno.

Mesmo ao anoitecer os pernilongos eram raros, tanto assim que as portas do salão ficavam abertas, as luzes acesas, os vinhos e as cervejas correndo soltos, que a vida é uma só. Pela atenção, muitíssimo obrigado.