Agricultura Familiar

Solo (bem) CONSERVADO na pequena propriedade

Engenheiro agrônomo Marcelo Biassusi, extensionista da Emater/RS-Ascar, e técnicos em agropecuária José Alcion Lemos Nunes, da Emater/RSAscar de Dom Feliciano/RS, e Clair Junior de Oliveira Schaffer, da Emater/RS-Ascar de Sertão Santana/RS

O solo é um recurso natural básico e fundamental para o funcionamento de todos os ecossistemas e ciclos naturais. É o reservatório da água disponível às plantas e suporte essencial dos sistemas agrícolas, sendo um patrimônio de todas as gerações. A saúde do solo significa cultivo de alimentos saudáveis. Ciente dessa importância, a Organização das Nações Unidas decretou 2015 como o Ano Internacional dos Solos e espera que a iniciativa sirva para mobilizar a sociedade para a importância dos solos como parte fundamental do meio ambiente e os perigos que envolvem a sua degradação em todo o mundo.

A conservação do solo e, por consequência, a sua fertilidade, deve ser considerada como prática continuada de educação. A degradação do solo está intimamente relacionada com outros problemas, como a perda da biodiversidade, degradação dos recursos hídricos e redução da qualidade de vida da população. Os processos que mais degradam os solos são a utilização de tecnologias inadequadas, a destruição da cobertura vegetal e a erosão decorrente da falta de práticas de conservação do solo e da água.

É imprescindível um bom diagnóstico da propriedade rural, levando em conta sua localização e condição atual de uso para posteriormente elaborar um planejamento com ações de curto, médio e longo prazos, que possam atender as necessidades para o funcionamento do sistema de produção a ser implantado na propriedade, de forma que seja equilibrado ambiental e economicamente e que seja socialmente justo, tendo o solo como a base de tudo. Portanto, devese priorizar a utilização e o entendimento das tecnologias dos sistemas de produção e suas complexidades, e depois se buscar as tecnologias e os insumos, que, se bem utilizadas, atenderão as necessidades.

As curvas de nível são o primeiro passo para que sejam realizadas práticas de conservação do solo, pois possibilitam a formação de cordões vegetados ou terraços que escoam o excesso das chuvas

Uma análise eficiente do estado de conservação do solo inicia-se pelo diagnóstico visual da lavoura, avaliando o relevo e a cobertura do solo. Através de uma trincheira, é possível ter uma ideia das condições físicas ao longo do perfil do solo, verificando coloração, camadas compactadas, atividade biológica, porosidade e profundidade das raízes. Ao quebrar um torrão de solo, a formação de grumos é um bom indicador da sua qualidade.

O "nível pé de galinha" é um compasso composto por três guias de madeira dispostos de forma a formar um "A", onde na travessa horizontal coloca-se um nível de bolha de ar para a verificação dos desníveis do terreno

A análise do solo em laboratório possibilita um melhor conhecimento da sua fertilidade. Uma correta amostragem do solo é necessária para que os resultados das análises sejam fidedignos. Para ser representativa, a amostra deve ser o resultado da mistura de várias subamostras coletadas de uma área homogênea da lavoura. Para cada tipo de cultivo existe um protocolo para coleta de amostras, que são feitas nas profundidades de 0 a 20 centímetros em culturas anuais e também de 0 a 20 e de 20 a 40 centímetros para as perenes.

Curvas de nível — Existem muitas práticas de conservação do solo que podem ser adotadas pelos agricultores e deverão levar em conta a topografia, a vegetação do contorno da lavoura, as estradas, os cursos d’água e os ventos predominantes na região. A marcação de curvas de nível é o primeiro passo para que sejam realizadas práticas de conservação do solo, pois facilitam o manejo das áreas de lavoura da propriedade, possibilitando a formação de cordões vegetados ou terraços que escoam o excesso das chuvas, além de aumentar a infiltração e o armazenamento de água no solo. As curvas de nível ajudam também no planejamento da rotação anual dos cultivos realizados nas áreas entre curvas, podendo ser realizado com semeadura em diferentes épocas, intercalando as culturas e aumentando a diversidade de espécies e a ciclagem de nutrientes.

Várias técnicas podem ser utilizadas na marcação de curvas de nível e na construção de terraços, dependendo do equipamento disponível. Um equipamento de fácil construção é o chamado “nível pé de galinha”, que se constitui em um compasso composto por três guias de madeira dispostos de forma a formar um “A”, onde na travessa horizontal colocase um nível de bolha de ar para a verificação dos desníveis do terreno. Outros equipamentos podem ser utilizados, como o nível de mangueira ou o nível topográfico.

A utilização de plantas de cobertura e a prática do plantio direto também possibilitam vários benefícios para o solo, ajudando a proteger o solo do impacto da gota da chuva e reduzindo a velocidade do escoamento das águas e a erosão, evitando o aquecimento excessivo da superfície do solo e as perdas de água por evapotranspiração. Dessa forma, rompem as camadas compactadas, melhorando a estrutura e aumentando a infiltração e o armazenamento de água no solo, elevando o teor de matéria orgânica pelo aporte contínuo de material vegetal no solo, incorporando nitrogênio ao solo, principalmente através das plantas leguminosas. Também reduzem a lavagem dos nutrientes para o lençol freático, melhorando a atividade biológica e reciclando os nutrientes do solo, permitindo reduzir a adubação de manutenção e de cobertura para as culturas. E ainda auxiliam no controle de plantas espontâneas (invasoras) através do sombreamento e ajudando a diminuir a incidência de pragas e doenças por manter um ambiente diverso e mais equilibrado.

Com essas práticas simples que estão ao alcance dos agricultores, pode-se manter e melhorar a qualidade dos solos deixando-os produtivos e saudáveis para o nosso usufruto e também das futuras gerações. Como salienta o engenheiro agrônomo Sebastião Pinheiro, “a saúde do solo também significa animais e humanos sãos. O solo é a última fronteira do nosso sistema imunológico”.