Reportagem de Capa

 

Irrigar é produzir MAIS E MELHOR

A irrigação ainda pode crescer muito mais na agricultura brasileira, mas é preciso facilitar mecanismos como, por exemplo, a outorga para uso da água. O Governo tem por meta dobrar a atual área irrigada de 6,5 milhões de hectares até 2020. Já o sucesso na condução da agricultura irrigada está diretamente ligado à capacidade do produtor em gerir os recursos hídricos de forma eficiente e sustentável, fazendo o melhor uso das tecnologias disponíveis para evitar desperdícios do insumo

Gilson R. da Rosa

A crise hídrica sem precedentes que castigou o estado de São Paulo neste ano ajudou a reacender o debate sobre o uso da água pela agricultura. A principal crítica é que o setor gasta mais água do que deveria, competindo com o consumo humano. Entretanto, na análise de muitos especialistas, incluindo os consultados nesta reportagem, o Brasil tem água o bastante para todos, mas precisa aprender a geri-la de forma mais eficiente e combater os desperdícios. Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), em média 72% da água captada no País vai para a produção agrícola, o que está em linha com a média de 70% no mundo. “Diferentemente do cenário urbano, as perdas de água no ambiente rural, através dos sistemas de irrigação, não devem ser responsabilizadas pelo agravamento da escassez hídrica”, sintetiza o professor titular da Faculdade de Ciências Agrícolas da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (FCA/ Unesp), em Botucatu/ SP, Edmar José Scaloppi.

Estimativas da ANA apontam que o Brasil irriga em torno de 6,5 milhões de hectares, situados principalmente em São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Bahia e Goiás, que, juntos, abrangem quase 70% de toda a área irrigada no País. Minas Gerais é o estado que apresenta a maior concentração de áreas irrigadas por pivôs (aproximadamente 370 mil hectares), seguido pelos estados de Goiás, Bahia, São Paulo e Rio Grande do Sul (respectivamente, com cerca de 210 mil, 192 mil, 169 mil e 76 mil hectares). Nessas áreas é alta a demanda pelo consumo de água para irrigação, bem como para a geração de energia e abastecimento para consumo humano.

De acordo com um estudo feito pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), ligada à Universidade de São Paulo, o Brasil atualmente possui 66 milhões de hectares de áreas aptas para a agricultura irrigada, o que representa mais do que tudo o que é plantado a cada safra de grãos no País. Além disso, essa área disponível para agricultura irrigada é mais do que o dobro do que o estimado pela Organização das Nações Unidos para Agricultura e Alimentação (FAO) no que diz respeito às áreas irrigáveis no território brasileiro.

Para o Presidente da Associação Brasileira de Irrigação e Drenagem (Abid), Helvecio Mattana Saturnino, o que ocorre no Brasil é um problema de gestão no que se refere ao uso dos recursos hídricos. “Temos água para atender a todos os usuários, no campo e na cidade. O setor, no entanto, pode aperfeiçoar o uso hídrico, aprimorando a retenção de águas nas fazendas para os períodos de estiagem ou evitando desperdícios na irrigação”, argumenta.

Na análise do diretor de Águas e Irrigação da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), Cisino Lopes, existe uma contradição de parte da sociedade quando se tenta de alguma forma inibir o crescimento da irrigação por meios ideológicos. “A irrigação permite realizar duas safras e meia na mesma área todos os anos. Significa que o aumento da irrigação diminui a pressão sobre novos desmatamentos, além de garantir produção e produtividade. A irrigação nos proporciona uma maior segurança alimentar. Nesse aspecto, não pode ser meia irrigação. Ou irriga ou não. É isso que garante a eficiência do sistema e é o que todos os irrigantes precisam adotar em suas propriedades”, avalia o dirigente.

O vice-presidente de Estudos do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS) e professor titular da FCA/Unesp, de Botucatu, Ciro Antonio Rosolem, chama a atenção para o fato de o Brasil ter uma responsabilidade muito grande em termos mundiais no que se refere à produção de alimentos. “O crescimento da área agricultável está atrelado a questões ambientais. A orientação é aumentar em 70% a produção agrícola pela produtividade e não pelo aumento da área plantada, o que na minha avaliação é praticamente impossível sem aumentar a área irrigada, sobretudo considerando as mudanças climáticas que vêm por aí. Então, precisamos repensar essa questão”, analisa.

O que precisa haver, na visão dele, é uma unificação das políticas públicas no processo decisório que envolve a liberação de licenças ambientais e outorgas. “A burocracia e a falta de fiscalização fazem com que muitos agricultores instalem a irrigação sem outorga, por conta própria. Infelizmente, esse rigor na legislação acaba obrigando o sujeito a descumprir a lei. O agravante, nesses casos, é que não se tem conhecimento de quanta água é captada ou como está sendo usada, se há controle, etc. Isso ocorre porque, de um lado, o Governo estimula a irrigação e, de outro, segura sua expansão”, critica.

Modelo a ser seguido — Um dos melhores exemplos de uso sustentável da água na irrigação agrícola, tanto no Brasil quanto na América Latina, está no município de Cristalina, em Goiás/GO. A região possui atualmente cerca de 50 mil hectares irrigados, 680 pivôs centrais em funcionamento e 142 produtores que trabalham com culturas irrigadas, de acordo com o IBGE.

Produtor Luiz Figueiredo, em uma “capital” da irrigação, em Cristalina/GO: início há 20 anos com dois pivôs; hoje são 4 mil hectares irrigados por 40, e a ideia é ampliar

Além da alta tecnologia empregada no uso dos pivôs, o segredo da sustentabilidade está na maneira como os agricultores os abastecem: “A água utilizada na lavoura é fruto da captação das chuvas por meio de barramentos. As barragens são responsáveis pela manutenção dos pivôs em funcionamento, pois garantem o fluxo de água no sistema. A irrigação, por sua vez, garante condições para que seja possível produzir o ano todo, ameniza as características do Cerrado, região conhecida por ter chuvas concentradas no verão e estiagem de maio a setembro”, explica o presidente do Sindicato Rural de Cristalina, Alécio Maróstica.

Segundo ele, a área irrigada do município pode aumentar nos próximos anos, a ponto de ultrapassar 100 mil hectares.

“Cristalina é hoje uma das maiores áreas de agricultura irrigada do País, com uma produção que abrange 40 culturas, entre soja, milho e hortigranjeiros. Então, quem não está irrigando, quer se tornar um irrigante. Mas como em outras regiões do Brasil, temos um gargalo na questão da energia elétrica, que é insuficiente e de baixa qualidade”, pontua o dirigente.

Se gerenciamento dos recursos hídricos é fundamental para o sucesso da agricultura irrigada e também a melhor ferramenta contra o desperdício, em Cristalina os bons exemplos estão por toda a parte. O produtor Luiz Figueiredo, que cultiva mais de 4 mil hectares de lavoura sob pivôs na região, armazena a água da chuva em pequenas barragens para ser usada nos períodos de seca. “Com isso, é possível obter um melhor desempenho da irrigação e, ao mesmo tempo, manter as bacias sempre com fluxo de água”, assegura.

Nascido no Paraná, Figueiredo está em Cristalina há mais de 25 anos, onde é proprietário da Fazenda Figueiredo, uma empresa familiar constituída por duas fazendas em Goiás e quatro em Minas Gerais. “Começamos plantando soja. Depois, com a melhora do solo que era muito pobre, apesar de as chuvas serem boas, fizemos melhoramentos e agregamos o milho à grade. O processo de irrigação na fazenda começou há 20 anos com apenas dois pivôs. Depois fomos ampliando. Tudo foi feito com recursos próprios, exceto o último projeto, que foi financiamento pelo BNDES. Hoje são mais de 40 pivôs instalados, mas queremos ampliar. O problema é a energia elétrica, abaixo das necessidades dos produtores”, relata.

Ele explica que os investimentos em irrigação contribuíram para promover a diversidade da produção na fazenda. “Temos atualmente mais de 40 atividades agrícolas, ou seja, se planta de tudo um pouco, como café, feijão, aveia, trigo e milho para sila- Produtor Luiz Figueiredo, em uma “capital” da irrigação, em Cristalina/GO: início há 20 anos com dois pivôs; hoje são 4 mil hectares irrigados por 40, e a ideia é ampliar Fotos: Divulgação A GRANJA | 21 gem, alho, cebola e batata. Graças à irrigação também estamos introduzindo o leite e o boi, tudo debaixo do pivô”, acrescenta.

Figueiredo observa que, para obter um melhor desempenho da irrigação, o agricultor precisa seguir uma dinâmica criteriosa: “Iniciamos o plantio da soja no período seco, em outubro, já com irrigação. Este ano, particularmente, foi um pouco mais tarde, pois atrasamos o plantio por conta do clima desfavorável, com muito calor. Em novembro, com a chegada das chuvas, suspendemos a irrigação, que só é retomada em casos de veranico. Isso proporciona uma redução enorme no custo da irrigação. Em janeiro colhemos a soja e entramos com o milho e o feijão devido a que as chuvas duram até março. Já a partir de abril, complementamos com a irrigação”, explica.

Com a irrigação, segundo ele, é possível colher em média de 80 a 90 sacas de soja por hectare, quando a média da região não chega a 40 sacas. “Nossa meta é chegar a 100 sacas por hectare com segurança. Já somos produtores de água. Agora, nosso grande desafio é melhorar a qualidade dos solos nos pivôs com a integração lavoura-pecuária. O agricultor irrigante já foi considerado um vilão, mas graças ao trabalho da Embrapa e de outras instituições, inclusive internacionais, é que se começou a enxergar a coisa por outro ângulo”, afirma.

Terceira safra — Essa mesma abordagem no tocante à gestão dos recursos hídricos e ao correto manejo das tecnologias disponíveis para a irrigação também faz parte da cartilha dos agricultores irrigados do Mato Grosso. O estado abriga dois grandes polos de irrigação, que são os municípios de Sorriso e Primavera do Leste, tendo o feijão como a principal cultura conduzida sob pivôs.

Nesses dois municípios, a irrigação é tratada não apenas como um nicho de mercado e sim como o próximo passo da evolução tecnológica das lavouras no Cerrado mato-grossense. “O agricultor que opta pelo investimento em irrigação entra em um nível tecnológico diferenciado. Ele faz uso racional da água, investe em barramentos e recebe assistência técnica das empresas que comercializam os equipamentos de irrigação. Além disso, ele não pode pecar pelo excesso devido aos custos. A energia elétrica é cara e carece de qualidade. Só no ano passado perdemos 50% dos lucros por conta do aumento da energia”, garante o produtor de Sorriso, Ademir Gardin.

Aos 31 anos de idade, Gardin é produtor irrigado há pouco mais de três anos e uma das mais jovens lideranças setoriais da região quando o assunto é a expansão da agricultura irrigada. Atualmente, preside vôs, pude finalmente destinar 960 hectares para o cultivo de feijão irrigado. Há três anos, arrendei minhas terras para assumir a presidência da Associação dos Irrigantes de Mato Grosso (Aima), entidade que deu origem a Aprofir, hoje presidida por Ademir Gardin”, informa.

Ademir Gardin, em Sorriso/MT, e a terceira safra com feijão: “O agricultor que opta pelo investimento em irrigação entra em um nível tecnológico diferenciado”

A dificuldade na obtenção da outorga também é apontada como um dos principais fatores limitantes para a expansão da irrigação no Mato Grosso do Sul. “Na temática ambiental parece haver um rigor exagerado na burocracia referente aos processos de outorga de uso da água e licenciamento ambiental. Por exemplo, no ano de 2010, a demanda total de água, ou seja, a vazão de retirada dos corpos hídricos do estado foi de 41,85 metros cúbicos por segundo, sendo que somente 38% disso foram destinados para irrigação. No Brasil, esse número é próximo de 70%, sendo a estatística mundial também muito próxima disso”, considera o engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste, Danilton Luiz Flumignan.

Além disso, segundo ele, a tramitação dos processos de outorga tem sido demorada, levando até anos para ser concluída. “São também muito frequentes as solicitações de novos documentos durante o processo em curso. No caso da outorga, tem sido feitas solicitações de condicionantes que são consideradas impraticáveis e/ou injustificáveis do ponto de vista técnico e/ ou econômico pelo setor produtivo”, ressalta o pesquisador. Flumignan observa que, no MS, assim como em outros estados, é utilizada como índice para concessão de outorgas a vazão de referência (Q95) que tem valor fixo para o ano todo. “Só que no estado, as chuvas são muito maiores na ocasião do verão e menores no inverno. Por consequência, as vazões dos corpos hídricos também. Ou seja, se o rio está com vazão bem maior, por que a captação não pode ser maior?”, indaga.

A unidade da Embrapa acaba de concluir um estudo que mostra, por exemplo, como o rio Dourados em quase todos os meses do ano pode ser outorgada vazão superior ao índice fixo anual. “A adoção dessa metodologia de outorga variável mensal pode contribuir com o avanço da agricultura irrigada no MS, com o desenvolvimento econômico e social, bem como para uma melhor gestão dos recursos hídricos”, explica.

Atualmente a irrigação continua sendo pouco explorada no MS, porém, conforme Flumignan, esse baixo nível de adoção não se deve ao baixo interesse do setor produtivo por essa tecnologia, mas sim pelo desconhecimento das minúcias técnicas envolvidas no uso da mesma e também pelas dificuldades relacionadas com a burocracia ambiental, por exemplo.

“Existem estimativas que apontam algo em torno de 140 mil hectares de área irrigada no MS, sendo que o potencial pode superar os 3 milhões de hectares. Em termos da área agrícola total, existem 21 milhões de hectares com pastagens e 3,2 milhões de hectares com agricultura. Isso dá um total de 24,2 milhões de hectares de área agrícola. Logo, o percentual de área irrigada no MS é de somente 0,6% da área agrícola total, o que é muito baixo”, considera.

No arroz gaúcho já é a terceira safra com a tecnologia de mangueiras de polietileno (politubos), sistema que permite um maior controle da vasão e do direcionamento da água, descreve Marcolin, do Irga


O objetivo do Governo é dobrar a área em cinco anos

A política do Governo é dobrar a área irrigada no país até 2020, mas essa expansão requer análises criteriosas que permitam o gerenciamento dos recursos hídricos de forma a minimizar os conflitos pelo uso da água e as questões ambientais. Com base nessa demanda, o Ministério da Integração Nacional, por meio da Secretaria Nacional de Irrigação, elaborou um estudo para identificar as áreas prioritárias para desenvolvimento da irrigação e apontar as estratégias de intervenção recomendadas, sua origem pública ou privada e prioridade para cada uma dessas áreas.

Este estudo, intitulado “Análise Territorial para o Desenvolvimento da Agricultura Irrigada no Brasil”, permitiu a constatação da existência de um potencial ainda maior para a exploração da agricultura irrigada no Brasil e servirá de base para a elaboração do Plano Nacional de Irrigação, um dos instrumentos da Política Nacional de Irrigação (Lei nº 12.787/2013). “O objetivo do plano é orientar o planejamento e a implementação da política. Com as áreas e suas respectivas estratégias de intervenção definidas, a implantação de projetos de irrigação poderá ser feita de forma mais eficiente, o que permite o adequado aproveitamento das áreas com potencial de uso para a irrigação”, diz o secretário Nacional de Irrigação do Ministério da Integração Nacional, José Rodrigues Dória.

Entre as linhas de financiamento para a irrigação, o secretário destaca o Programa de Incentivo à Irrigação e à Armazenagem (Moderinfra), com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), através das instituições financeiras credenciadas. O banco financia até 100% do valor do investimento financiável, com taxa de juros de 7,5% ao ano para os financiamentos destinados à aquisição de itens inerentes a sistemas de irrigação e 8,75% ao ano para os demais itens, ao prazo de até 12 anos, incluída a carência de até três anos.


Questão prioritária no RS — A otimização do uso da água pela lavoura de arroz constitui-se em uma questão prioritária do setor orizícola do Rio Grande do Sul, que busca alternativas de manejo técnica, econômica e ambientalmente sustentáveis. “Até a década de 1970, os agricultores utilizavam muita água na cultura do arroz porque a tecnologia era baixa, a energia elétrica era mais escassa e o preço do óleo diesel, muito elevado. Além disso, o produtor, de um modo geral, não se preocupava com a quantidade de água utilizada na lavoura. Esse procedimento foi mudando com o tempo. Atualmente se trabalha com a lâmina de água baixa, quanto menor, melhor”, compara o engenheiro agrônomo e pesquisador do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) Elio Macolin.

Embora se tenha o domínio da água, Marcolin ressalta que a irrigação, na maioria das lavouras do estado, é pouco planificada. “Em 1 milhão de hectares cultivados com arroz, temos de 250 mil a 350 mil hectares de áreas niveladas, o que já proporciona uma redução no uso de água de 50% a 60% em comparação ao volume de água usado nas áreas não niveladas”, observa o pesquisador.

Marcolin ressalta que, como a lâmina é baixa, ela permanece na lavoura após a colheita, sendo evaporada, o que é facilitado pelas temperaturas mais altas. “É claro que, em anos de excesso de chuva como este, tem que fazer a drenagem do excesso. Esse procedimento, no entanto, não deve ser feito antes de 30 dias da aplicação de qualquer defensivo aplicado em final de ciclo. Dessa maneira os resíduos que permanecem na lavoura são destruídos por bactérias ou pela radiação solar”, recomenda.

Entretanto, para o plantio da soja e do milho no sistema de rotação com o arroz em terras baixas, o sistema mais indicado é a irrigação por sulco, que oferece custo menor e usa menos água, na comparação com pivô central. “Já estamos na terceira safra utilizando a tecnologia de mangueiras de polietileno, também conhecida como politubos. Esse sistema permite um maior controle da vasão e do direcionamento da água, proporcionando uma irrigação uniforme em toda a linha de semeadura”, informa o engenheiro agrônomo e consultor técnico Marcos Fritsch.

Cenário retraído — Apesar dos programas de incentivo, os investimentos em novos projetos de irrigação têm se mantidos praticamente estagnados ao longo deste ano, em grande parte por conta da situação econômica do País. E o setor de máquinas e equipamentos de irrigação é o que melhor expressa a situação desse mercado.

Após dois anos de forte crescimento, as estimativas do setor para este ano apontam para uma redução de 20% no volume de negócios nesse segmento. “O ano de 2015 foi difícil para todo mundo. No nosso caso, talvez o volume da queda nos negócios não seja tão alto quanto de outras indústrias, como a de tratores, por exemplo. Apesar da demanda potencial, existe uma grande desconfiança em relação ao cenário econômico, político e ao próprio Governo”, analisa o presidente da Câmara Setorial de Equipamentos de Irrigação da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Marcio Santos.

As expectativas do setor para o ano que vem também não são muito animadoras, segundo o dirigente: “Se fosse uma reprise de 2015 até seria bom, mas prevemos que a queda deverá ser ainda maior. Apesar disso, o momento é bom para investir. Há linhas de crédito com juros acessíveis para o produtor e o retorno do investimento é garantido com o aumento da produção e da produtividade. Mesmo com a retração do setor, estamos vendo muitos produtores, entre pequenos, médios e grandes empreendedores, investindo na agricultura irrigada para continuar crescendo”, enfatiza Santos.

Gotejamento é a eficiência de gota em gota — Com o avanço das tecnologias de irrigação e a demanda cada vez maior de água pelas atividades humanas, acentuou- -se a busca por métodos mais eficientes, que consumam menos recursos e forneçam melhores resultados em produtividade e qualidade. Dessa forma, a irrigação por gotejamento tem ganhado espaço, principalmente nos últimos 15 anos.

O gotejamento, explica Daniel de Carvalho, é a obtenção de maiores eficiências no uso da água, na adubação e no controle fitossanitário, e até a adaptação a diferentes solos e topografia


Mais Água, Mais Renda, uma referência nacional

No Rio Grande do Sul, o Programa Estadual de Irrigação Mais Água, Mais Renda, criado em 2012 para incentivar a expansão da irrigação, é apontado por várias lideranças setoriais em irrigação como um exemplo a ser seguido por outros estados. Segundo o coordenador do programa, Nadilson Ferreira, em apenas três anos, o Mais Água, Mais Renda já está presente em 375 municípios, com 2.748 projetos cadastrados, dos quais 1.971 estão enquadrados no programa.

A classificação dos produtores no Programa, conforme Nadilson, está assim definida: grandes produtores (21%), pequenos produtores (63%) e médios produtores (16%). “Só neste ano a área irrigada no estado foi acrescida em 13.831 hectares. Antes do Programa, em 2012, o Rio Grande do Sul possuía cerca de 100 mil hectares irrigados. Esse número praticamente já dobrou este ano. Para 2016 está prevista uma melhora do sistema de gestão do banco de dados do programa, além de uma ampliação das metas de área irrigada”, informa o coordenador.

Sob esse aspecto, conforme Nadilson, a cultura do milho ainda é vista como ponto estratégico para o estado, contudo, os demais cultivos são contempladas pelo programa com exceção do arroz, que possui regramento próprio através da relação Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Sema) e Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga).

“A irrigação de pastagem para produção de leite direcionado ao pequeno produtor é outro enfoque importantíssimo do Mais Água, Mais Renda por contribuir para a manutenção e a agregação da família do pequeno produtor, permitindo praticamente dobrar seus rendimentos com ganhos sociais com respeito às questões ambientais, posto que todo o projeto possui licenciamento ambiental e outorga d’água”, acrescenta.


As vantagens desse sistema de irrigação, na análise de Daniel Fonseca de Carvalho, professor do Instituto de Tecnologia e do Departamento de Engenharia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, estão associadas à obtenção de maiores eficiências no uso da água, na adubação e no controle fitossanitário, e à adaptação a diferentes tipos de solo e topografia. “Além disso, há economia de mão de obra, pois por se tratar de sistemas fixos, as tubulações necessárias para o fornecimento de água são distribuídas na área a ser irrigada, não havendo necessidade de movimentação de linhas laterais. O sistema por gotejamento tem sido mais utilizado nas Regiões Sudeste e Nordeste, principalmente associado aos cultivos de frutas e hortaliças”, explica.

De acordo com Carvalho, sua universidade desenvolve um projeto de sistema de irrigação por gotejamento por automação que apresenta baixo custo e economia de água. “O modelo, que foi desenvolvido pelo professor Leonardo Médici, utiliza um acionador automático e tem a capacidade de ativar o sistema de irrigação no momento em que o solo atinge uma determinada tensão, e de interromper a irrigação no momento em que a tensão da água no solo, correspondente à capacidade de campo do solo, é atingida”, descreve.