Eduardo Almeida Reis

 

TECNOLOGIA

EDUARDO ALMEIDA REIS

Primeiros anos do século passado, Fazenda Porto Joffre, margem direita do Rio Cuiabá, Pantanal do Mato Grosso. Casado com uma carioca da família Gouvêa, o jovem advogado Octávio da Costa Marques recebe a visita de modesto pantaneiro ribeirinho, que o consulta sobre os frutos esquisitos que estavam nascendo na barranqueira do seu sítio. Frutos amarelos, quase do tamanho de uma bola de rugby, esporte desconhecido naquela região.

Eram peponídeos, frutos do tipo baga, sincárpicos, provenientes de erva anual e rasteira – Cucumis melo – da família das cucurbitáceas, com polpa comestível, adocicada, carnosa e sucosa. Naquele tempo, embarcações regulares faziam o trecho Buenos Aires-Cuiabá e os peponídeos nasceram de sementes dos melões servidos aos passageiros. Viagens entre o Rio de Janeiro e Porto Joffre, naquele tempo, levavam um mês. Transatlântico do Rio até Montevidéu ou Buenos Aires, embarcação de carreira até Corumbá e lancha própria, com cabine, de Corumbá até Porto Joffre.

Em pouco mais de 100 anos, a tecnologia revolucionou todo o esquema e não se esqueceu de tirar um dos efes de Joffre, nome anterior a Joseph Jacques Césaire Joffre, um general que comandou o exército francês de 1914 a 1916 durante a Primeira Guerra Mundial. Os jatos Rio-Corumbá e os teco-tecos Corumbá- Jofre permitem que se faça em poucas horas a viagem que levava um mês e o plantio das ervas anuais e rasteiras, como vi na tevê e na Internet, é um espanto espantoso. Não na Espanha, de onde nos chegavam os melões espanhóis, mas no Ceará, estado onde politicam os irmãos Ciro e Cid Gomes.

Antes de falar da tecnologia cearense na cultura dos peponídeos, peço licença para contar que nas caçadas dos javalis cruzados com os porcos, que se asselvajaram e estão sendo eliminados com autorização do Ibama, descobri que alguns cachorros levam coleiras com transmissores que permitem sua localização via GPS. Homessa! O GPS do meu tempo era o Celestino, índio cadiuéu que tinha o curso científico completo e acompanhava os cachorros montado a cavalo.

Esta conversa dos javaporcos selvagens está mal explicada, porque na caçada transmitida pela tevê os suídeos traziam brincos plásticos nas orelhas e o brinco desmoraliza a selvageria de qualquer animal. Admitamos, então, que só fugiram e se asselvajaram depois de brincados.

Volto aos melões, perdão, aos peponídeos cearenses, que se espalharam pelos estados vizinhos em busca de terras com água para irrigar as lavouras. É inacreditável a tecnologia atual do plantio de melões de diversos cultivares, a colheita em que os frutos são levados por imensas esteiras até as carretas puxadas pelos tratores, o tratamento nos galpões e o despacho para os voos internacionais. Com o dólar a R$ 4, os fruticultores passaram a vender seus melões na Arábia Saudita, que fica longe pra dedéu. Fiquei abismado com o que vi mais de uma vez na tevê e no Youtube.

Dos melões pulamos para o leite, assunto sobre o qual tive a pretensão de entender alguma coisa e tenho a certeza de ter estudado muito. Pois muito bem: nunca imaginei que existisse um empreendimento explorando 36 mil vacas leiteiras. Mas existe, fica na estrada estadual que liga Chicago a Indianapolis, chama-se Fair Oaks Farms e é composto de 11 fazendas ocupando 14 mil hectares, segundo matéria publicada em The Economist.

Um dos proprietários é Mike Mc- Closkey, filho de porto-riquenha, fala espanhol fluentemente e brinca: “Como sou um pouco racista, não contrato gringos”. Os empregados da Fair Oaks Farms são todos hispânicos. Nos Estados Unidos, é cada vez mais difícil encontrar pessoas dispostas a trabalhar com gado de leite, queixa-se Paul Rovey, do Arizona, que explora “fazendinha” familiar com 2 mil vacas. Queixa que é também dos fazendeiros mineiros, que pagam dois salários mínimos a cada empregado, mais casa, luz, água de mina, dois litros de leite/dia (ou cinco, pois na matemática da roça 2 = 5), frutas do pomar da sede, horta da sede, férias, cercado para engordar um porquinho, terreno para manter galinhas produtoras de ovos orgânicos e outros fringe benefits que o leitor de A Granja conhece muito bem, além da carteira assinada.

Os números da Fair Oaks Farms são impressionantes. Basta dizer que em seu “parque temático” 400 mil visitantes/ano assistem às ordenhas em um carrossel que gira lentamente em uma das fazendas. E seus caminhões, com o gás natural produzido pelo esterco processado em biodigestores, economizam 7,5 milhões de litros de diesel por ano. Sugiro ao leitor que, degustando um melão cearense, procure The Economist no Google para ficar abismado com a fazenda ianque.