Plantio Direto

 

A importância do retorno dos TERRAÇOS ao sistema

Engenheiro agrônomo João Carlos Hoffmann, professor de Agricultura no Centro Estadual de Educação Profissional Agrícola Getúlio Vargas, Palmeira/PR, hoffmannjc@uol.com.br

A Agricultura Conservacionista (AC) é um sistema de práticas agronômicas desenvolvidas com o intuito de aumentar a produção de alimentos sem comprometer a sustentabilidade dos agroecossistemas e foi concebida para controlar o processo de erosão dos solos decorrente do uso inadequado das terras que se deu nas grandes planícies dos Estados Unidos em 1930.

A AC é um sistema de manejo agrícola relativamente novo que preconiza o mínimo revolvimento do solo e a sua cobertura permanente, combinado com rotações de culturas. É uma forma de manejar os ecossistemas agrícolas de modo que se promova aumento sustentável da produtividade, maior rentabilidade e segurança alimentar, ao mesmo tempo preservando e fortalecendo os recursos naturais e do meio ambiente (FAO, 2013).

No Brasil, em 1970, principalmente na Região Sul, a rápida expansão das áreas agrícolas cultivadas no sistema de preparo convencional também desencadeou processos severos de degradação dos solos. Os processos de erosão hídrica e compactação promoveram redução da capacidade de infiltração de água, avolumaram as enxurradas e as perdas de fertilidade dos solos. No Paraná, as perdas de solo por erosão atingiram até 10 toneladas/ hectare para cada tonelada de grão produzida. Essas taxas comprometeram os ganhos de produtividade agrícola e reduziram o volume e a qualidade dos mananciais de água por todo o estado.

Nas últimas décadas, áreas permanentemente cultivadas em sistemas baseados no plantio direto sobre palha aumentaram no Paraná, atingindo cerca de 90% do total da área com grãos. E no Brasil já somam 32 milhões de hectares. Porém, em muitos sistemas produtivos que têm sido denominados de “plantio direto”, “plantio direto na palha” ou “semeadura direta” ainda não há comprometimento com a gestão integrada e conservacionista do estabelecimento agrícola. São cultivadas sequências de plantas compostas de espécies para formação de palha e da cultura comercial. Mas práticas como rotação de culturas, cobertura permanente do solo e terraceamento, por exemplo, são inexistentes.

O sistema plantio direto é genuinamente brasileiro e surgiu em meados dos anos 1980 e conceitua-se como um complexo de processos tecnológicos destinado à exploração de sistemas agrícolas produtivos, compreendendo a mobilização de solo apenas na linha ou cova de semeadura, a manutenção permanente da cobertura do solo e a diversificação de espécies via rotação e/ou consorciação de culturas.

O terraço protege a faixa que está logo abaixo dele, ao receber as águas da faixa que está acima, e pode reduzir as perdas de solo desde que seja criteriosamente planejado, executado e conservado

Conceito ampliado para “colhersemear” — No início dos anos 2000, o conceito SPD foi ampliado, passando a incorporar o processo colher-semear, que representa a minimização ou supressão do intervalo de tempo entre colheita e semeadura, prática relevante para elevar o número de safras por ano-agrícola (safrinha) e construir e/ou manter solo fértil.

Historicamente, a degradação dos solos causou danos significativos a muitas civilizações, principalmente a perda drástica de produtividade resultante da erosão do solo. Nos dias atuais, estima-se que a erosão tenha progredido o suficiente para diminuir os rendimentos em 36% de todos os solos agrícolas do mundo. E estudos recentes indicam que 33% dos solos mundiais têm sido degradados por meio de atividades humanas (FAO, 2011).

Essas atividades incluem o uso inadequado de terras agrícolas, práticas inadequadas de manejo da água e do solo, desmatamento, remoção da vegetação natural, uso frequente de máquinas pesadas, excesso de pastagens, rotação incorreta de cultivos e práticas de irrigação inadequadas.

Com o crescimento da população, que deve passar de 9 bilhões de pessoas em 2050, haverá 60% de aumento na demanda por alimentos, o que só irá sobrecarregar mais ainda os recursos do solo. Os processos de degradação dos solos são alterações que ocorrem nos atributos dos solos e que acarretam efeitos negativos sobre uma ou várias funções dos mesmos, tal como a perda de potencial produtivo.

A erosão pelas chuvas está entre os principais processos da degradação dos solos, o que torna a adoção de práticas adequadas para seu controle um dos grandes desafios para a sustentabilidade da agricultura brasileira.

O sistema plantio direto é genuinamente brasileiro, surgindo em meados dos anos 1980, e é um complexo de processos tecnológicos destinado à exploração de sistemas agrícolas produtivos

A importância dos terraços — Segundo o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e o Instituto Agronômico (IAC), a eliminação dos terraços construídos para retenção de água em áreas de cultivo em SPD traz consequências desastrosas ao solo. A técnica do plantio direto contribui para a redução da erosão no solo e muitos técnicos e produtores passaram a eliminar os terraços em áreas onde já estava implantado o SPD. O terraceamento baseia-se no parcelamento das rampas e consiste na construção de terraços no sentido transversal à declividade do terreno, formando obstáculos físicos capazes de reduzir a velocidade do escoamento e disciplinar o movimento da água sobre a superfície do terreno (Pruski, 2006).

O terraço protege a faixa que está logo abaixo dele, ao receber as águas da faixa que está acima. O terraço pode reduzir as perdas de solo, desde que seja criteriosamente planejado, executado e conservado. Embora apresente custo elevado, essa prática é necessária em muitas áreas agrícolas onde técnicas mais simples como o plantio em nível, as culturas em faixas ou a rotação de culturas, por si só, não são suficientes para uma eficaz proteção do solo contra a erosão hídrica (Pruski, 2006). O terraceamento também contribui no manejo das águas das estradas e no retardamento e na contenção da perda de agroquímicos, o que diminui o risco de poluição de rios e lagos.

O terraço protege a faixa que está logo abaixo dele, ao receber as águas da faixa que está acima. O terraço pode reduzir as perdas de solo, desde que seja criteriosamente planejado, executado e conservado. Embora apresente custo elevado, essa prática é necessária em muitas áreas agrícolas onde técnicas mais simples como o plantio em nível, as culturas em faixas ou a rotação de culturas, por si só, não são suficientes para uma eficaz proteção do solo contra a erosão hídrica (Pruski, 2006). O terraceamento também contribui no manejo das águas das estradas e no retardamento e na contenção da perda de agroquímicos, o que diminui o risco de poluição de rios e lagos.

O terraceamento em microbacias hidrográficas é um investimento com recursos da sociedade, e não deve ser abandonado por conta da “opinião” de alguns produtores e técnicos com base em situações específicas que não podem ser generalizadas para todas as condições de clima e solo. A eliminação dos terraços em SPD é motivada pela maior facilidade na operação de máquinas e implementos agrícolas destinados a semeadura, pulverização de defensivos e colheita dos grãos. Mas não há dados científicos que justifiquem a retirada total de terraços em lavouras sob SPD, pois a maior rugosidade do terreno e a menor desagregação dos agregados do solo somente contribuem para o maior espaçamento entre terraços, mas não sua eliminação.

Na verdade, é preciso “adaptar as máquinas e implementos aos solos e não adaptar os solos às máquinas e aos implementos”, pois estudos do Iapar e IAC chegam à conclusão que os terraços devem ser mantidos em SPD, pois é uma prática eficiente para controle da erosão, principalmente em anos com maior erosividade. E a prática de remover um terraço a cada dois terraços em SPD não é recomendada para culturas anuais. As novas recomendações de espaçamento entre terraços do Iapar e IAC podem ser mantidas, mas sempre com o planejamento de um responsável técnico.

As medidas a serem consideradas para adoção dos terraços em SPD são as seguintes: o volume de água que escorre (que é imprevisível), a declividade do terreno e a intensidade de ocorrência das chuvas variáveis. A infiltração de água no solo e a manutenção de cobertura vegetal sobre a superfície nem sempre são suficientes, pois pode ocorrer remoção da palha pela enxurrada, o que agrava a perda de água e matéria orgânica, mesmo que se perca pouco solo. Por isso, não se pode afirmar que lavouras sob SPD não necessitam de terraceamento, pois a palha aumenta a velocidade de infiltração e diminui a desagregação do solo, mas não reduz completamente a enxurrada.

A combinação de práticas de controle da erosão compõe o planejamento conservacionista da lavoura e o plano de uso, manejo e conservação do solo e água, e deve contar com o comprometimento efetivo do agricultor, do técnico, dos dirigentes e das comunidade. Entre os princípios fundamentais do planejamento destacamse o maior aproveitamento das águas das chuvas, evitando-se perdas excessivas por escoamento superficial, criando condições para que a água das chuvas infiltre-se no solo, previna erosões, inundações e assoreamento dos rios e e abasteça os lençóis freáticos que mantêm os cursos de água e, com isso, venham a garantir o suprimento às culturas, criações e comunidades.

Desde 23 de dezembro de 2014 está em vigor a Portaria nº 272 da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), que trata da fiscalização do cumprimento da legislação paranaense de conservação do solo agrícola pelo seu uso adequado. Pela nova normativa, quando o produtor é notificado pelo uso inadequado do solo, ele tem o prazo de 30 dias para apresentar o laudo técnico ou o planejamento conservacionista de solos e água. Atualmente, devido ao aumento na demanda por boas práticas agrícolas, o Senar/PR vem desenvolvendo diversas ações no campo de manejo conservacionista e fertilidade de solo, principalmente na produção de grãos e tabaco.