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AGRITECHNICA: o mais alto nível de tecnologia

A revista A Granja participou da Agritechnica, a feira bienal realizada em Hannover, Alemanha, no mês passado. O mais moderno em tecnologias agrícolas em nível mundial foi mostrado no evento que reuniu 400 mil visitantes, sendo um quarto de outros países

Gustavo Hoffmann gustavo@agranja.com Texto e fotos

A gritechnica, feira bienal realizada em Hannover, Alemanha, 30 anos, e os números de uma história de sucesso: 52 países representados, 2.900 expositores, 44% deles, alemães, e 56% estrangeiros, com destaque para os italianos, com a maior representatividade (399 expositores), 400 mil visitantes, sendo 100 mil estrangeiros, mais de 300 lançamentos. Essas são algumas das estatísticas da maior feira mundial de agricultura focada em máquinas, implementos e peças para fabricantes, realizada no mês passado, evento em que A Granja esteve presente mais uma vez.

O evento se realiza na Baixa Saxônia, lugar de terras férteis, uma região onde aconteceram muitas batalhas no passado, que foi dominada por Romanos durante muito tempo, além de tersido palco das duas Guerras Mundiais. O local é extremamente infraestruturado, com rodovias, ferrovias, espaços de convivência, ambiente para trabalho, cidades espalhadas, poucos prédios altos, campo e vegetação em volta das cidades. Uma terra de cooperação e respeito entre as pessoas. Leis inteligentes e desburocratizadas, em que o interesse da sociedade compõe o sentido para o qual o governo local trabalha. Difícil de acreditar para um brasileiro.

A estrutura do parque que sedia a feira e outros grandes eventos internacionais conta com 40 hectares e 27 pavilhões climatizados, amplo espaço para o bem-estar dos participantes, lancherias, bares e restaurantes extremamente limpos, um ambiente bastante moderno e ao mesmo tempo simples e prático. Conta também com restaurante 360 graus no alto de uma torre e uma grande sala de convenções. O Ministério da Agricultura alemão, assim como o centro de tecnologia DLG (a associação da agricultura daquele país) e os demais patrocinadores da feira receberam de forma excelente a comitiva de imprensa do mundo todo. A organização foi espetacular, que propiciou a troca de ideias sobre o desenvolvimento rural de muitos países.

Lançamentos — Na feira, novos tratores e novos conceitos muito interessantes. Não só produtivos, mas com designs modernos. A Fendt, do Grupo AGCO, apresentou um novo trator na faixa dos 600cv, com uma frente que é um mix entre uma cobra cascavel e um transformer, ou robô com identidade. Já a Case expôs um trator na faixa dos 300cv cujo “olhar” dá a impressão de que ele está nos encarando! E, talvez, o melhor nem é encarar mesmo, pois o “cara” é potente!

Entre as demais novidades e tendências em lançamentos, uma enormidade de marcas de tratores adotou a suspensão dianteira para maximizar a tração dianteira, além de cabines com suspensão de amortecedores e molas, e bancos ergonômicos com flutuação especificamente para cada região do planeta causa impacto. Há uma grande tendência que empresas melhorem a leitura das necessidades locais dos produtores para um desenvolvimento ainda maior de máquinas e implementos. Nota-se uma troca de ideias muito forte entre produtores rurais e as fábricas durante a feira. O movimento é de vendas e desenvolvimento tecnológico, com alto grau de tecnificação e estudo.

A Fendt apresentou um novo trator na faixa dos 600cv, com uma frente que é um mix entre uma cobra cascavel e um transformer

A participação brasileira na feira foi positiva com empresas como Stara, Colombo, Casp, Bristol, Jan e Brasélio, entre outras, que buscaram em Hannover expandir seus negócios internacionalmente. Afinal, a feira destaca grandes lançamentos de produtos de alta tecnologia, e promove uma premiação de medalhas de ouro e prata.

Scanner do solo — Um grande destaque no evento foi o Conected Nutrient Management. Desenvolvido por um grupo de empresas lideradas pela John Deere GmbH & Co. e com muitos colaboradores de diversas áreas, é um sistema conectado de manejo de nutrientes. Em linguagem simples, o aparelho faz uma leitura do solo como se fosse um scanner, e apresenta ao mesmo tempo sua composição, sendo cada cor ou tonalidade um elemento químico, de macro e micro nutrientes, e a sua distribuição na lavoura.

O próprio sistema calcula as demandas de fertilizante necessária, e com uma aplicação à taxa variável é possível fazer economia na aplicação do insumo. Além de promover o equilíbrio nutricional do solo, gerando maior produtividade.

Outro lançamento importante também foi de um grupo extenso de cientistas, estudiosos e especialistas de diversas empresas, também encabeçadas pela John Deere GmbH & Co. Chama- se Connected Crop Protection and Chemical Application Manager, um projeto ousado e complexo para ajuda administrativa ao produtor. Trata-se de solução completa para a percepção on-line da lavoura ou de seu estado sanitário.

Após a leitura, o sistema disponibiliza inúmeras informações sobre herbicidas, fungicidas e inseticidas para aplicação liberada, conforme as condições de cada país. O sistema ajuda o usuário na tomada de decisão quanto ao momento da aplicação, o que fazer, o que é permitido realizar pela legislação local, como acertar o alvo na hora certa. Em síntese, oferece sugestões de aplicações precisas na lavoura.

Outro destaque foi uma enfardadora de pellets, ou seja, uma máquina que faz a ração imediatamente ainda no campo, e que funciona a reboque de um trator. O projeto foi desenvolvido por dois alunos alemães recém-formados em engenharia. Eles tiveram apoio e ajuda no desenvolvimento da máquina por dois anos da empresa Krone, fabricante mundial de enfardadoras e colhedoras de forragem de alto desempenho.

A máquina foi uma atração da feira, pois é altamente tecnificada, produto acertado, de grande produtividade, mobilidade e modernidade. Nota 10 para os rapazes. O difícil foi fotografar a invenção visto o número de pessoas curiosas que se avolumava na sua frente.

Fazenda de batatas — A comitiva de jornalistas também visitou uma fazenda de 100 hectares, propriedade grande para os padrões da Alemanha, pois as maiores unidades têm no máximo 300 hectares, cujo preço por hectare é de 50 mil euros.

O proprietário é Heiner Johanning, que recebeu a todos de braços abertos, e descreveu sua produção, realizada da seguinte forma: no verão e na primavera, são realizados os serviços intensos, por 15 trabalhadores temporários (muitos deles oriundos da América Latina), da preparação do solo, desde plantio até colheita dos tubérculos.

E como a batata necessita um descanso de solo de quatro anos, existe entre Johanning e os seus vizinhos um acordo de rotação das áreas. Porém, quando a batata é mais lucrativa, ele precisa compensar financeiramente os vizinhos.

Design arrojado: a Case expôs um trator na faixa dos 300cv cujo “olhar” dá a impressão que a máquina está nos encarando

A família dele planta batata há cinco gerações. Seu concunhado, bem provocador, sete anos atrás fez-lhe a seguinte pergunta: “O que vai se fazer de negócio daqui para frente?” E o negócio, é lógico, seguiria o mesmo da família, a venda de batatas lavadas ensacadas para os distribuidores locais.

Mas como toda a família sempre tem um contestador, Johanning aceitou a provocação, estudou e instalou uma fábrica muito moderna, que produz batatas chips, com 60 funcionários permanentes, alto padrão de qualidade, excelente produto e gerando muitos empregos na zona rural. Assim, disputa o mercado com grandes players com a vantagem da qualidade total e seu controle. As batatas de primeira linha ficam na fazenda e as de segunda vão para o mercado terceirizado, que produz purê.

A fazenda é totalmente mecanizada, com galpões grandes e sistema automatizado de lavagem e armazenamento refrigerado. Seu sucessor é um jovem adolescente que trabalha na fazenda de um vizinho, e após o colégio irá estudar Agronomia na Austrália. No seu retorno fará pós-graduação na Holanda, conjuntamente com um estágio em uma fazenda de batatas de altíssima produtividade. Portanto, o assunto planejamento é um rito para o desenvolvimento local.

O alemão Heiner Johanning é a quinta geração da família na produção de batatas, com a diferença que agora ele está produzindo batata chips

Para chegar e sair da fazenda, a percepção é a mesma. Pequenos lugarejos, acesso por asfalto de qualidade, casas sem grades, galpões antigos com 200 anos e telhados de placas de energia solar e de aquecimento de água, e por todo lado grandes geradores de energia eólica. Além de tratores nas estradas que estão por todo lado, com limitação de 12 toneladas para caminhões, e estradas de ferro para transporte super pesado. Também há a aplicação generalizada de adubação orgânica de suínos e aves, distribuída por tratores potentes e vagões de estercos líquidos. Tudo o que o Velho Mundo tem de novo para ensinar.

A Granja esteve na Agritechnica a convite da Sociedade Agrícola Alemã (DLG) e do Ministério da Agricultura da Alemanha