Gestão

 

A ILP como INOVAÇÃO no Mato Grosso do Sul

Iniciativa do Senar/MS, do Sebrae, da Fundação MS e de outras instituições promove mudanças na administração de propriedades agrícolas no estado. Um bom exemplo é a introdução da integração lavoura-pecuária em Miranda

Francisco Pereira, coordenador do Programa Mais Inovação do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso do Sul (Senar/MS)

A agricultura brasileira, formada em sua grande maioria por agricultores familiares, pequenos e médios produtores rurais, enfrenta uma série de questões paradoxais. Por exemplo, como produzir alimentos para cada vez mais pessoas com cada vez menos terras? Como aumentar a produção sem destruir o meio ambiente? Como agregar valor que seja perceptível para os consumidores? Como lidar com as variações climáticas? Não obstante, existe uma enorme carga tributária que afeta as atividades rurais.

Também há carência de Fotos: Famasul mão de obra e uma rede de infraestrutura precária. Então, o que o produtor rural pode e deve fazer para sobreviver em um contexto tão complexo? Existem inúmeras respostas para essa questão, a depender do ponto de vista de cada um. Porém, é fato que ele deve, logicamente, fugir da comoditização e do medo, e buscar alternativas criativas, inovadoras, que lhe tragam vantagem competitiva.

Atualmente um dos principais problemas das propriedades rurais em Mato Grosso do Sul é o volume de produção bem abaixo do que se poderia produzir. Isso decorre do fato de que parte significativa dos produtores rurais ignora a evolução do mercado e as alterações nos hábitos de consumo, olhando apenas a sua atividade como se ela estivesse desvinculada dos demais segmentos da cadeia produtiva.

Observa-se, ainda, que a grande maioria não possui conhecimento de gestão, principalmente no que diz respeito ao planejamento, à logística e ao controle da produção, além de não incorporar no processo produtivo as novas técnicas e tecnologias disponíveis. Com essa visão pouco abrangente, esses produtores acabam tendo dificuldades em ter competitividade e posicionar seus produtos no mercado, pois estão desatualizados e não acompanham as tendências de mercado.

Uma realidade que também chama atenção é o fato de que 78% dos produtores agropecuários brasileiros nunca receberam qualquer tipo de auxílio técnico por meio de programas de extensão rural. Em Mato Grosso do Sul, essa premissa não é diferente. Infelizmente, nem a assistência técnica, nem as novas tecnologias têm chegado aos produtores rurais, seja por falta de condições financeiras ou mesmo por falta de informação e conhecimento. Muitos deles, principalmente os pequenos, ainda utilizam técnicas rudimentares que reduzem a eficiência de suas propriedades.

O ritmo intenso da atualização tecnológica do campo tem requerido a atualização de informações e a adoção de mecanismos de aprendizagem e de informação profissional e empresarial dos produtores rurais, de forma contínua. O que tem penalizado muitos pequenos produtores, os quais têm sido sistematicamente desalojados do campo por não terem programas que propõem esse aperfeiçoamento, e devido à necessidade de se produzir em grande quantidade, com elevado padrão de qualidade e preços competitivos.

Muitos produtores acreditam que a inovação é algo caro e arriscado, possível apenas para os grandes produtores ou grandes grupos. É nesse contexto que entra o programa de assistência técnica chamado Mais Inovação, criado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural do Estado de Mato Grosso do Sul (Senar/MS), que tem o objetivo de auxiliar o produtor na implementação de inovações no âmbito rural, nas diversas áreas dos conhecimentos voltadas à produção.

O foco do trabalho consiste no seguinte: orientações na aptidão do uso do solo, oportunidades de produção, gestão, comercialização, logística e construção de planos de negócios das atividades com base na metodologia de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater). Esse programa é realizado em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e conta com o respaldo técnico de importantes órgãos de pesquisa como a Embrapa e a Fundação MS.

O Senar/MS enxerga no programa Mais Inovação um instrumento que vem de encontro a toda essa problemática, e visa aperfeiçoar e induzir o desenvolvimento rural, pois, por meio do programa, é possível disseminar conhecimento científico e técnico ao meio rural. As ações de recuperação, renovação, manutenção e manejo das pastagens, bem como diversificação da produção, aumento da produtividade e retorno financeiro, conseguidos com o programa são frutos da visão sistêmica proposta, aliada à capacitação do produtor e à implementação de novas tecnologias e inovações sugeridas à propriedade.

Além de realizar a assistência técnica, que, por sinal, os resultados comprovam o quanto é eficaz, há um aprofundamento na abordagem gerencial, inserindo no Mais Inovação a metodologia ATG- Assistência Técnica e Gerencial. A ATG se organiza para oferecer, por meio dos técnicos de campo, consultoria gerencial e tecnológica preparada a diagnosticar e solucionar problemas relacionados à produção e à gestão da atividade desenvolvida. Desse modo, através da metodologia, o produtor será capaz de entender, adaptar-se e adequar-se ao contexto no qual está atuando, e o técnico de campo não será apenas um transmissor de conhecimento, mas um sujeito transformador e educador do campo.

No geral, os conceitos de Ater possuem como característica uma orientação ao produtor mais pontual e tecnicista, visando principalmente à resolução de problemas relacionados com a produção. Tendo o técnico como detentor do conhecimento e o produtor rural como receptor e passivo. A ATG visa ir além desse conceito, mais do que simplesmente promover um aumento de produção, é necessária uma produção orientada ao mercado, além de promover o crescimento intelectual e empoderamento do produtor, para que ele possa dar efetividade no aperfeiçoamento dos processos de gestão, produção, beneficiamento e comercialização das suas atividades e serviços agropecuários.

ILP — Com uma assistência técnica ao produtor focada em resultados e tomada de decisões assertivas para melhorar a eficiência produtiva, o programa adota a utilização de algumas tecnologias no campo, como recuperação ou reforma de pastagens, integração lavoura- pecuária (ILP), integração lavourapecuária- floresta (ILPF), implantação de florestas, programa de Boas Práticas Agropecuárias (BPA), além de auxílio na gestão de custos da propriedade rural. A importância do apoio dos órgãos de pesquisa nesse projeto se reflete na inserção de tecnologias em regiões onde o desconhecimento ou medo da inovação impediam os produtores de implantá- las e alavancar suas atividades.

É o caso de uma propriedade atendida no município de Miranda/MS, onde, através de uma parceria entre a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) e o Senar/MS, e contando com o respaldo técnico da Fundação MS, está sendo realizado um trabalho de pesquisa intitulado “Recuperação de pastagens com integração lavoura-pecuária”. Esse projeto é de autoria da graduanda em agronomia Lohany Sthepany Basso, e está mostrando aos produtores de bovinocultura, principal atividade econômica do município, a possibilidade de integrar a atividade com plantio de soja. Para esse trabalho foram semeados nove cultivares diferentes da oleaginosa em uma propriedade que trabalha com bovinocultura de corte, e os resultados superaram as expectativas, com a produtividade variando de 35 a 58 sacas por hectare.

Um dos principais problemas das propriedades rurais em Mato Grosso do Sul é o volume de produção bem abaixo do que se poderia produzir, avalia Francisco Pereira

Além de gerar conhecimento para o setor, pois os resultados obtidos na propriedade serão publicados em revista científica com foco em agronegócios, o trabalho demonstra que a região, considerada de transição entre o bioma Cerrado e Pantanal, possui potencial para o desenvolvimento da ILP, comprovando também, por intermédio de acompanhamento em todas as etapas do desenvolvimento dos diferentes de cultivares de soja, quais as melhores variedades a serem cultivadas na região.

Comprometimento supera o medo — Os dados obtidos na propriedade em Miranda atraíram o interesse de outros produtores da região na adesão do programa e, consequentemente, a possibilidade de inserção de novas tecnologias em suas propriedades. Esse é um exemplo no qual a inovação e o comprometimento por parte do produtor se sobrepôs ao “medo de errar”, gerando resultados econômicos e conhecimentos para toda uma comunidade. Com isso, o Senar/MS espera dar ao programa Mais Inovação a capacidade de diagnosticar a propriedade com uma visão holística e estratégica, que abarque todas os componentes e inter-relações, em que o produtor será capacitado para compreender a real situação produtiva de seu imóvel rural, aumentar a eficiência de sua gestão, conhecer as alternativas de investimento, possibilitando à propriedade se tronar um negócio rentável e sustentável.

Os dados obtidos na propriedade em Miranda/MS atraíram o interesse de outros produtores da região que aderiram ao programa e, portanto, estão introduzindo as tecnologias em suas propriedades