Solos

 

ILP: melhor para a palhada, saída para a compactação

A integração lavoura-pecuária é a opção mais indicada para melhorar a física de solo, manter a cobertura vegetal e promover o retorno econômico ao produtor de maneira ambientalmente sustentável

Dr. Edemar Moro, professor e pesquisador da Unoeste, especialista em ILP, e Dr. Juliano Carlos Calonego, professor e pesquisador da Unoeste, especialista em Física de solo

Os sistemas de manejo, ou mesmo as condições em que o solo é trabalhado, podem promover alterações na qualidade estrutural dos solos, que além de causar danos ambientais prejudicam o desenvolvimento das plantas causando redução de produtividade. O sistema plantio direto (SPD) seria a solução da agricultura tropical. O problema é que a área de 30 milhões de hectares considerada como SPD contempla de forma correta apenas um dos princípios do sistema, o não revolvimento do solo. A rotação de cultura e a cobertura morta, na maioria dos casos, não são observadas da maneira como deveriam.

O que predomina hoje no Brasil é a sucessão de culturas, soja-milho safrinha, ou então, soja-pousio. A área de soja no Brasil é superior a 30 milhões de hectares, sendo que dessa área o milho safrinha ocupa apenas 9 milhões de hectares. Somando-se à área de milho safrinha com cereais de inverno e as demais culturas de segunda safra (feijão, girassol, sorgo, amendoim...), temse uma área cultivada após a soja de 15 milhões de hectares. Isso significa que mais de 50% da área após soja é deixada em pousio. O pousio, além de não rentabilizar economicamente o produtor, aumenta as chances da degradação do solo, principalmente no que diz respeito às características físicas.

Tanto a sucessão de culturas como o pousio são prejudiciais para a boa estruturação física do solo. É comum associarmos qualidade do solo com a quantidade de palhada. Nos solos arenosos a palhada é importante para evitar o adensamento superficial do solo. No gráfico desta página, o solo arenoso refere-se à área de pastagem degradada no Oeste paulista com solo exposto. Pode-se observar que nessas condições a camada superficial do solo arenoso apresenta um adensamento superior ao argiloso. Quando o solo arenoso não está coberto por palhada, ocorre o selamento superficial por obstrução dos poros pelas partículas de argilas que são mais finas do que a areia. Apesar de não se caracterizar como solo compactado, esse selamento gera uma dureza superficial que dificulta a infiltração de água do solo.

O solo argiloso no gráfico refere-se a uma área de mais de 20 anos de “plantio direto” no Oeste do Paraná, sendo que, na maioria dos anos agrícolas, predomina a sucessão soja-milho. A ausência de rotação de culturas em solos argilosos acarreta em problemas de física do solo, com valores de resistência à penetração na camada 20 a 25 centímetros próximos a 5 MPa (Megapascal) e na camada 40 a 60 centímetros superiores a 7 MPa. Nos anos normais de chuva, a “compactação” dos solos argilosos não compromete a produtividade das culturas, apesar de aumentar as chances de erosão. Porém, quando ocorrem veranicos, os prejuízos podem ser grandes, tendo em vista, que as raízes terão dificuldades para romper as camadas adensadas do solo e acessar regiões com maior umidade.

ILP & SPD — A solução para a aplicação correta do SPD e aos problemas de compactação do solo é a integração lavoura-pecuária (ILP). A ILP encaixou-se perfeitamente no SPD, e permite ajustar o conceito que dá base e sustentação ao sistema. A integração adicionou melhorias ao SPD em dois aspectos: o primeiro foi que, além da rotação de culturas, agregou a consorciação de espécies; e o segundo foi priorizar a manutenção do solo vegetado, enquanto que a prioridade do SPD é a manutenção de cobertura morta. Do ponto de vista da física de solo, a manutenção de uma espécie vegetando na área é primordial para evitar a compactação do solo. Quanto maior é o tempo que o solo permanece com plantas no ciclo vegetativo, maior será a quantidade de raízes nesse solo e maior será o efeito na qualidade física do solo.

Assim como o sistema radicular, a parte área das plantas de cobertura também surte efeitos na física do solo. O primeiro deles é a proteção do solo contra o impacto direto das gotas de chuva. Um solo sem cobertura vegetal (viva ou morta) fica suscetível ao primeiro processo de erosão, conhecido como “salpicamento”, quando a gota da chuva atinge diretamente o solo causando a desestruturação dos agregados, e, consequentemente, o selamento superficial.

Outro importante papel da palhada na qualidade física do solo diz respeito à diversidade microbiológica que a cobertura morta proporciona. Quando o solo não é exposto à ação direta dos raios solares, sofrendo menores amplitudes térmicas e não sendo submetido a constantes ciclos de umedecimento e secagem, milhões de microrganismos desenvolvem- se e auxiliam na humificação da matéria orgânica e na formação de agregados, resultando no aumento da porosidade do solo e no equilíbrio entre macro e microporos, ou seja, no equilíbrio entre aeração e retenção de água (indispensável para a vida do solo). Além disso, maior atividade dos organismos do solo (macro e microfauna) na transformação dos restos vegetais em húmus proporcionará maior friabilidade ao solo, tornando-o menos suscetível à compactação. Por essas razões devem ser priorizados sempre sistemas que contemplem a rotação de culturas com foco em ativar a microbiota do solo e a elevação dos teores de matéria orgânica.

Escarificação biológica — Apesar de todos os problemas ocasionados pelo adensamento do solo, a melhor opção ainda é a escarificação biológica, ou seja, o uso de plantas de cobertura de sistema radicular agressivo. As espécies mais indicadas para essa finalidade são as gramíneas que apresentam volume radicular vigoroso, ocupam grande volume de solo e ainda produzem grande quantidade de palhada. Quando as gramíneas são dessecadas para a implantação da cultura principal, a decomposição das raízes proporciona um efeito direto na física de solo. Cada raiz que se decompõe deixa um espaço poroso de menor resistência, o que facilitará o desenvolvimento radicular das culturas graníferas. Além do efeito físico, as raízes decompostas auxiliam na fertilidade do perfil do solo. Os nutrientes liberados em camadas mais profundas serão utilizados para o crescimento radicular e da parte aérea das plantas subsequentes.

À esquerda, a palhada não é suficiente para uma cobertura homogênea do solo, o que permite as daninhas; e à direita, a braquiaria cobriu todo o solo e evitou o surgimento de invasoras

Geração de palhada — Uma forma de produzir palhada e maior volume de raízes no solo sem abdicar da produção de grãos é o consórcio de milho com capim. O consórcio foi criado pela Embrapa e denominado como Sistema Santa Fé. Esse sistema é fundamental para a sobrevivência da sucessão soja-milho, além de produzir grande quantidade de palhada para cobertura total do solo, a braquiária “coloniza”, descompacta e agrega o solo. À esquerda da foto nesta página observa-se que, apesar do não revolvimento do solo, a palhada formada não é suficiente para uma cobertura homogênea do solo, e isso permite a emergência e o desenvolvimento de plantas daninhas. Já no lado direito da imagem, observa-se que a braquiária cobriu todo o solo, evitou o surgimento de plantas daninhas. Além da importância visível da cobertura do solo, há de se considerar a grande importância do sistema radicular que promove a escarificação biológica do solo.

As máximas muito usadas hoje – construir a fertilidade do solo e criar perfil do solo – só terão êxito se forem usadas plantas de cobertura com capacidade de produzir grande quantidade de matéria seca, tanto de parte área, quanto de raiz. Apesar de a ILP ter se desenvolvido com foco na recuperação de áreas degradadas, o sistema evoluiu e atualmente é indicado também para melhorar a eficiência de sistemas de produção com altos níveis de tecnologia. A ILP é fundamental para o sucesso do SPD, especialmente em regiões de solos arenosos com histórico frequentes de veranicos e em regiões de solos argilosos com problemas de compactação.

Quando se faz o preparo mecânico para descompactar o solo, os efeitos são imediatos, porém, os benefícios na física do solo não são persistentes. Os equipamentos de preparo promovem a quebra dos agregados, pulverizando o solo e dando origem a partículas muito pequenas e leves. Essas partículas em um processo natural de acomodação ocuparão o espaço poroso, aumentarão a densidade do solo, constituindo uma barreira ao crescimento radicular em profundidade.

Além de todos esses inconvenientes, o ponto de apoio das ferramentas de preparo do solo acaba recebendo a carga oriunda do peso do implemento originando uma camada compactada com alta resistência mecânica à penetração. Essa camada compactada localizada aproximadamente a 20 centímetros de profundidade, popularmente conhecida como “pé-de-grade”, ocasiona uma barreira ao crescimento radicular, confinando as raízes nas camadas superficiais do solo, tornando as plantas susceptíveis aos períodos de estiagem e deficiência nutricional.

O preparo do solo interrompe ainda a continuidade dos macroporos devido ao rompimento e à destruição dos canais deixados no solo pela macrofauna e pelas raízes da cultura antecessora, ou seja, os chamados “bioporos”. Os bioporos, além de constituírem uma área do solo com melhor qualidade química devido aos efeitos da matéria orgânica, são canais que orientam o crescimento das raízes em profundidade, porém, a abundância desses canais será maior em sistemas de produção que priorizam plantas de cobertura com sistema radicular exuberante, como é o caso das gramíneas. Sendo assim, a ILP é a opção mais indicada para melhorar a física de solo, manter cobertura vegetal e gerar retorno econômico de forma sustentável e ecologicamente correta.

Uma forma de produzir palhada e maior volume de raízes sem abdicar da produção de grãos é o consórcio de milho com capim, esquema denominado como Sistema Santa Fé