Na Hora H

 

É TRISTE, MAS A CRISE CHEGOU DE FORMA IMPIEDOSA À NOSSA AGROPECUÁRIA

ALYSSON PAOLINELLI

Já não atendem e nem respeitam a nossa ministra da Agricultura, Kátia Abreu. Não creio que ela não esteja sendo informada claramente sobre o que está se passando de fato nas médias e grandes propriedades rurais. Também não creio que ela esteja mudando de lado. Isso seria o fim. Devemos nos preocupar também com aqueles que a assessoram. Será que eles estão vivendo no Brasil? Será que estão sujando os seus calçados na busca de informações mais seguras do que de fato está acontecendo?

À esta altura, a safra de 2015/16 já foi afetada. Não há mais crédito para o custeio e o pior é que para analisar os pedidos de empréstimos estão exigindo garantia real com hipoteca de bens. Será possível? Será que isso é verdade? Para estudar pedidos de prorrogação em áreas atingidas estão pedindo pagamento de “partes” da dívida mesmo em áreas como as do Sudeste, com três anos de seca inclemente. Engraçado é que já não financiaram as lavouras do ano passado e agora mesmo sem renda do produtor se negam à prorrogação das dívidas anteriores. Se não houve safra, como pagar? Se o seguro, mesmo em tempos normais, já era uma ficção, agora, então..

Passo a pensar que o Governo ou os bancos resolveram investir em compras de terras e outros bens de produção. Estudo o crédito rural há mais de 40 anos. No mundo inteiro só uma vez vi os bancos exigirem garantias reais para financiar ou refinanciar os produtores. Foi na Nova Zelândia na década de 1980, quando a crise financeira quebrou cerca de 80% dos seus produtores e o governo resolveu refinanciar esses produtores para que eles voltassem a produzir e pediu em garantia as suas terras que ficaram depositadas em uma carteiras de terras no seu banco oficial, e isso propiciou que em menos de oito anos todos conseguiram pagar as suas dívidas e receberam de volta o seu patrimônio. Em 1990, quando estivemos estudando as suas reformas estruturais, tudo já havia se normalizado. Belo exemplo para nós que também ficamos sabendo que a Nova Zelândia nunca subsidiou os seus produtores mesmo em épocas de crises. Aqui quem não estava em crise era o produtor. Esta crise aqui é do Governo e agora ele, que tanto tem recebido do setor rural, resolve penalizá-lo. Será isso lógico?

Fizemos uma pequena conta que nos assustou. O valor total no PIB do setor automobilístico está em torno de R$ 150 bilhões, e toda vez que ameaça uma crise todo o Governo se reúne para ver o que precisam e quais os subsídios que vão receber. Tudo sai a tempo, quando até antecipado. O setor de proteínas nobres animais tem hoje o valor do PIB de R$ 600 bilhões, está em crise e sem recursos que sempre foram normais de crédito rural, que nem do Governo são (a exigibilidade nos depósitos à vista há 40 anos foi respeitada como transferência para beneficiar quem mais ajuda a economia brasileira) para recompensar o segmento que mais emprega, e que em 20 anos reduziu as despesas dos consumidores das famílias médias em alimentação de 42% a 48% da sua renda para apenas 14% a 18%.

Para aumentar a medida de descalabro desse ato vamos também relacionar o número de empregos que cada um gera. Estou estupefato. O mundo inteiro está depositando as maiores esperanças nos projetos de agricultura tropical que o Brasil vem desenvolvendo, especialmente os de integração lavoura-pecuária-floresta, que pode recuperar sem degradar. Mais do que isso, o produtor recompõe áreas degradadas e as coloca outra vez em produção e promove alta competitividade das áreas já cansadas e perdidas. Pois bem, veja o que os bancos oficiais estão fazendo com eles. É inacreditável. Ou então estamos em guerra. Estamos recebendo saraivadas piores que os atentados vistos no mundo. É para se ter terra arrasada.

Estive em Cuiabá dia 19 de novembro para comemorar os 50 anos da Famato. Que beleza de solenidade. Foi uma homenagem para quem realmente merece. O Mato Grosso é a referência. Lá me deram uma bela sugestão: já que nós produtores não podemos ser todos do “petrolão” e nem “mensaleiros”, por que não fazermos de cada sindicato ou federação um “partido político”, pois esses sim estão com a corda toda. Já está dando até para comprar helicópteros. Para eles não estão faltando recursos. Se resolve tudo no balcão das negociatas. Andei pregando para não falarmos em crise. Pedi para tirarmos o “s” da palavra crise. Pelo que vejo os nossos mato-grossenses estão mais realistas. Vamos criar soluções mais adequadas para o que está aí e principalmente para o momento que vivemos.

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura