O Segredo de Quem Faz

Atenção às MUDANÇAS no mercado

Denise Saueressig denise@agranja.com

Um mercado cada vez mais disputado, em um cenário globalizado e sob forte influência de acontecimentos internacionais, exige conhecimento do produtor para a melhor tomada de decisão. Cada vez mais importante, o insumo da informação ajuda a trabalhar na equação que define a rentabilidade da safra. Para elaborar um diagnóstico das tendências para os próximos meses, A Granja ouviu o engenheiro agrônomo Fernando Muraro Jr., analista de mercado da AgRural Commodities Agrícolas. Na consultoria com sede em Curitiba, Muraro e sua equipe atendem produtores e empresas do agronegócio de 12 estados e de regiões do Paraguai e da Bolívia. Segundo as projeções da AgRural, em 2016 e 2017, a atenção do setor deverá estar voltada ao aumento dos juros nos Estados Unidos e ao dólar. Valorizada, a moeda norte-americana poderá definir uma ótima rentabilidade no atual ciclo, mas também deverá provocar custos elevadíssimos na próxima temporada.

A Granja – Quais fatos recentes do mercado podem ter interferência sobre o agronegócio no próximo ano e também na safra 2016/2017?

Fernando Muraro Jr. - Vivemos em um ambiente global, de maior facilidade de comunicação e de financeirização das commodities. Nesse momento, acredito que o grande destaque fica por conta da expectativa da elevação da taxa de juros nos Estados Unidos. Há nove anos os norte- americanos mantêm a taxa de juros próxima a zero. No entanto, especialmente nos últimos meses, aumentam as notícias sobre um possível aumento, com a economia americana mostrando índices importantes de aquecimento.

Lentamente, com o incremento dos juros, que poderá ocorrer ainda em 2015 ou no início de 2016, existe a expectativa de um dólar mais forte. Nesse caso, há uma relação inversa e perversa com as commodities. Toda vez que o dólar sobe lá fora, as commodities caem. Se confirmada essa expectativa, de um pequeno aumento nos juros norte- americanos, a grande dúvida é como isso será replicado no mercado.

Por enquanto, o que temos de concreto é a queda nos preços das commodities, que já aconteceu no mercado internacional. No último trimestre de 2015 percebemos os menores valores da soja e do milho desde 2009. Nos últimos dias (segunda semana de novembro), os preços da soja aproximaram-se de US$ 8,50 o bushel em Chicago.

A Granja – De que forma a relação oferta e demanda também vem influenciando no comportamento dos preços?

Muraro – Aqui no Brasil ainda existem algumas dificuldades no plantio da soja em função das chuvas, mas se tudo ocorrer bem, a safra mundial de soja em 2015/2016 será de 320 milhões de toneladas, enquanto o consumo deverá ficar em torno de 315 milhões de toneladas. É provável que tenhamos o maior estoque de soja da história, que pode chegar aos 100 dias de consumo. Essa é outra informação importante para a definição de preços. Nos Estados Unidos, a colheita deverá somar 108 milhões de toneladas, contra 107 milhões de toneladas na última safra, ou seja, duas safras recordes que elevaram os estoques. No Brasil, as estimativas indicam uma produção recorde próxima a 100 milhões de toneladas, em uma área cultivada de 33 milhões de hectares.

A Granja – Mesmo com a retração dos preços no mercado internacional, o dólar vem favorecendo as vendas para o produtor brasileiro. Qual a expectativa para a rentabilidade considerando os valores de comercialização da soja?

Muraro – Realmente, no mercado interno, o que vem segurando os preços é o dólar. Também pesa a favor o fato de que a formação dessa safra ocorreu quando o câmbio não estava tão alto, o que deve favorecer a rentabilidade do produtor. É o bônus cambial. Boa parte dos negócios foi concretizada em um cenário de plantio com o dólar a R$ 3 e de venda com o dólar próximo a R$ 4. No Rio Grande do Sul, por exemplo, o preço médio de venda até agora é de R$ 75 pela saca. No Brasil, a média de preços é superior a R$ 70.

A venda da safra deve ser planejada, e é preciso lembrar que existe a possibilidade do aumento da taxa de juros nos EUA, assim como também não é interessante esperar a chegada da safra da América do Sul, que vai colocar no mercado mais de 170 milhões de toneladas de soja. Os valores da soja atualmente são tão vantajosos que as vendas antecipadas atingiram um recorde este ano para o período.

Até o final de outubro, a comercialização ultrapassou os 40% da safra que será colhida, quase o dobro do que foi registrado no mesmo período do ano passado. Com esse cenário, se o clima colaborar e a safra for considerada normal, a rentabilidade em 2016 poderá ser recorde.

A Granja – Essa é uma informação importante porque o momento de instabilidade política e econômica do País preocupa os representantes do setor.

Muraro - A questão é que existe um Brasil em reais e um Brasil em dólares. As regiões de fronteiras, por exemplo, ou 40% do Brasil, estão em dólares. Aqueles que se financiam na moeda norte-americana estão sofrendo mais, justamente porque o custo está em dólares. Por isso, alguns segmentos e empresas do agronegócio estão tendo problemas neste momento.

A Granja – Falando em números, qual é a estimativa para a rentabilidade da safra 2015/2016?

Muraro - Com safra normal, se considerarmos Rio Verde/GO, a rentabilidade estimada para a soja é de R$ 1,5 mil para proprietário e de cerca de R$ 600 para arrendatário. No ano passado houve problema de quebra de safra e os valores foram de R$ 1 mil para proprietário e de R$ 240 para arrendatário. Em Mato Grosso, o proprietário teve margem de R$ 800 no ano passado e valor estimado em R$ 1,1 mil agora. Para os arrendatários, a margem foi de R$ 180 no ano passado e é projetada em R$ 400 este ano. No entanto, se pensarmos nas despesas em dólar, a margem fica em US$ 100 agora, contra US$ 170 em 2014. Para o arrendatário, o valor é negativo.

A Granja – O que já é possível projetar para os custos e formação da safra 2016/2017?

Muraro - O produtor poderá estar com mais dinheiro na temporada 2016/2017 em função da expectativa de alta rentabilidade. No entanto, o ambiente de negócios ainda não estará favorável. O ambiente político não é bom e 2016 deverá ser um ano de dificuldades. A tomada de decisão para a safra 2016/17 será difícil porque os custos devem ser os mais caros da história. O produtor precisa ficar atento à formação de preços para o ciclo 2016/2017. No Brasil, historicamente as grandes dificuldades ocorreram quando o dólar voltou a um patamar normal, ou a um patamar menor, ou seja, o risco é que o custo da lavoura seja de R$ 3,50 e o câmbio volte a R$ 3 na hora da venda.

A Granja – Quais são as expectativas em relação ao milho na atual safra?

Muraro – O atraso no plantio da soja devido a problemas climáticos poderá comprometer o desempenho da segunda safra de milho, que também deverá ser plantada fora da época ideal, principalmente no Cerrado. A posição que tínhamos era de um incremento, de 9,6 milhões de hectares em 2014/ 2015, para 10,4 milhões de hectares, mas agora estamos em aberto porque o atraso na soja poderá diminuir a intensidade no aumento na área da safrinha. A grande questão, no entanto, é a produtividade, porque o plantio será realizado fora de época e será um risco se não chover em maio e em junho. Quanto aos preços, o milho novamente deverá ser um bom negócio, com valores próximos aos R$ 30 a saca.

A Granja – Para os produtores de algodão, houve alguma mudança significativa no cenário da cultura?

Muraro - O algodão vive um momento difícil por conta dos estoques mundiais bastante elevados. A China tem grandes estoques e há pressão porque novamente o petróleo se aproxima de US$ 40 o barril. Isso faz com que a fibra sintética seja a grande competidora do algodão. Então, é um momento de dificuldade porque o mercado não sai do lugar, ou seja, há uma baixa volatilidade. Com custos de R$ 8 mil por hectare em algumas regiões, o mercado só se salva com a desvalorização cambial. A tendência é de redução de área na Bahia, por exemplo, onde o crédito foi mais escasso. Os dados ainda estão sendo analisados, mas a tendência é de estabilidade em Mato Grosso e queda de 20% a 30% na Bahia. Para o Brasil, a estimativa é de queda em torno de 12% na área cultivada.

A Granja – O arroz vem de anos positivos, de boa remuneração para o produtor. Essa tendência se mantém para esta safra?

Muraro – Sim, a tendência continua. Os preços aumentaram neste segundo semestre, principalmente por três motivos, sendo que dois motivos são positivos e um é negativo. O primeiro positivo é o câmbio, que ocasionou a redução das importações do arroz do Mercosul. Na temporada comercial 2014/2015, que começou em março, até outubro, há uma redução de 45% nas importações. Isso é bom, porque tem menos arroz entrando de fora e dá suporte aos preços nacionais. O câmbio também estimula as exportações.

O aumento das vendas este ano é de 6% apenas, mas estamos exportando. Esse cenário reflete em uma oferta equilibrada no mercado brasileiro. O segundo motivo é que o produtor também está conseguindo segurar esse arroz. Antes ele precisava colher e vender. Agora, os produtores fazem a rotação com a soja, conseguem vender a soja e seguram o arroz para os momentos de picos de preço.

O terceiro motivo da alta, que é negativo, é que tem chovido demais no Rio Grande do Sul, principalmente nas áreas de cultivo do arroz irrigado. Isso pode afetar o plantio do cereal, que já está atrasado, representando complicações na safra.

Esse fator também faz o preço subir, mas não é um fator positivo. A saca está em torno de R$ 40 atualmente. Ano passado estava em torno de R$ 36, R$ 37, o que também era um bom preço. A alta agora é muito bem-vinda porque o aumento do custo era a grande preocupação do produtor no início da safra, principalmente pelo incremento no valor da energia elétrica, usada na irrigação.

A área dessa safra está em aberto ainda porque vai depender do que o Rio Grande do Sul vai conseguir plantar. Vimos estimativas de área estável e até de queda de 10%, mas ainda é uma dúvida. Também há dúvidas a respeito da produtividade. Quanto aos preços, o cenário deverá continuar positivo. O consumo mundial vem crescendo e a produção não vem conseguindo acompanhar no mesmo ritmo.

A estimativa é que os estoques mundiais 2015/2016 sejam os mais baixos desde 2007/2008. A dinâmica da produção é mais regional que a soja e o milho, mas existe interferência, também. A Tailândia, que é o maior exportador mundial, reduziu área e produção nesta safra porque tem grandes estoques.

Então, o maior exportador está recuado nesse momento e o Brasil pode ganhar com isso. Ao mesmo tempo, a China vem se consolidando como principal importador do mundo. E sempre que a China aparece, o mercado se anima.