Eduardo Almeida Reis

 

QUEIMADAS

Passam-se os anos e os problemas rurais repetem-se com maior ou menor intensidade. Um deles é o período seco com as queimadas inevitáveis. Fazenda cortada por estradas municipais, estaduais ou federais, em regiões amorreadas, além do aceiro normal, precisa fazer um aceiro escondido, o tipo do negócio inacreditável, mas necessário em boa parte do País.

Isso porque o motorista troca um pneu furado no acostamento e retoma a viagem não sem antes riscar um fósforo no capim seco do lado de lá do aceiro visível. Não todos os motoristas, mas uma boa parte deles.

As chamas de um foguinho educado fascinam a espécie humana desde tempos imemoriais. Até hoje, nas noites frias, nada melhor do que ficar diante de uma lareira em bela companhia curtindo duas taças de vinho, se possível sem tevê, tablet ou smartphone, que não combinam com a ocasião.

Ateado o foguinho pelo motorista, o fazendeiro, quando tem sorte e tempo, corre lá e põe o velho fogo a partir do aceiro escondido, que irá de encontro ao fogo posto na estrada. Se tudo funciona, como às vezes funciona, a fazenda passa a contar com uma larga faixa queimada, sem capim, a partir da beira da estrada – e salva o resto da pastagem naquele ano para repetir a operação no ano seguinte.

Se o mato é alto e seco e há vento forte, nem os bombeiros da Califórnia, com a parafernália tecnológica americana, conseguem apagar os incêndios. No Pantanal do velho Mato Grosso, trecho em que o Rio Piquiri tinha mais de 100 metros de largura, vi o fogo saltar da outra margem para atingir a margem de cá. Só não queimou a sede da fazenda porque era cercada pelo gramado de um hectare.

Não invento a chama de 100 metros: foram tufos de capins em chamas que saltaram o rio animados pela ventania. A paremiologia é rica em lições sobre o fogo. Como ninguém sabe o que é paremiologia, que só aprendi agora, não me custa informar que é o coletivo de provérbios. E o provérbio, que na Bíblia é pequena frase que visa educar, aconselhar, edificar, nos dicionários é frase curta, geralmente de origem popular, que sintetiza um conceito a respeito da realidade, ou uma regra social ou moral.

Na Serra Fluminense, fui vizinho de um pobre coitado que explorava um terreninho 1.500 metros acima do nível do mar. Todo ano, antes de semear sua lavoura de subsistência, lascava um foguinho no samambaial e me dizia: “Adubo de pobre é cinza”.

Vale notar que o fogo, desde que bem usado, dá margem para discussões. Jorge de Alba, chefe do Departamento de Indústria Animal do Instituto Interamericano de Ciências Agrícolas, em Turrialba, Costa Rica, escreveu sobre a excelência das pastagens da savana dos Estados Unidos no tempo em que não havia restrições às queimadas anuais. Andei lendo em algum lugar que as cinzas de madeiras têm a metade do poder neutralizante do calcário na acidez dos solos, daí a conversa do vizinho que lascava fogo nas samambaias sem ter lido tratados de química agrícola.

Ainda no capítulo dos provérbios, temos aquele que diz que fogo de morro acima, água de morro abaixo e mulher namoradeira nem o diabo segura. Onde se lê “morro acima” também se pode pensar nos ventos, que tornam os incêndios impossíveis de controlar.

Anos atrás assisti na tevê a uma entrevista com a professora Maria Léa Salgado Laboriau, palinóloga ou micropaleontóloga, autora dos livros “Contribuição à palinologia dos cerrados” e “História Ecológica da Terra”. Lúcida, didática, inteligente, sabia tudo de palinologia, que, como é do desconhecimento geral, é a parte da botânica dedicada ao estudo do pólen.

Na entrevista aprendi que o cerrado tem mais de 20 mil espécies de plantas superiores e é muito anterior à presença do homem nas Américas. Portanto, não é obra humana como se pensava e dizia.

E as queimadas, ainda segundo a palinóloga, são “naturais” dos cerrados. Há 10 mil anos, o interior do Brasil era extremamente seco. Sem a histeria e a babaquice dos verdes, ressalvados os ecólogos de fato e de direito, a professora alertou o telespectador para o grande problema ecológico da Terra, algo assim como “tem gente demais”.

Aí é que está o busílis: compatibilizar a vida decente de um número razoável de pessoas com a parição irresponsável que se vê por aí? Beiramos os 8 bilhões de terráqueos a caminho dos 15 bilhões, desaforo que o planeta não aguenta mesmo sem o trema, sinal diacrítico sobreposto a algumas vogais, que não fazia mal a ninguém e foi suprimido pela chatice dos gramáticos.