Plantio Direto

 

Plantas de COBERTURA e a diminuição de nitrogênio e fósforo na adubação

Engenheiras agrônomas Jacqueline Nayara Ferraça Leite e Aline Carla Trombeta Bettiol, mestres em Ciência do Solo

O plantio direto é um sistema destinado à exploração agrícola conservacionista, que compreende a mobilização do solo apenas na linha de semeadura, a manutenção permanente da cobertura do solo com plantas, a rotação de culturas e a diminuição do intervalo de tempo entre a colheita e a semeadura (pousio). A manutenção do solo coberto é muito importante para diminuir perdas por erosão, evitar grandes variações de temperatura, manter a umidade, aumentar a taxa de infiltração e a capacidade de retenção de água no solo. Do ponto de vista da fertilidade, um dos principais efeitos do plantio direto é o aumento do teor de matéria orgânica na camada superficial do solo, que pode aumentar a eficiência da reciclagem dos nutrientes. Esse conjunto de características sustenta a conservação da água e do solo e, ainda, pode gerar vantagens econômicas por meio do aumento da eficiência da adubação.

Como a quantidade de matéria orgânica no solo resulta, em parte, do balanço entre a adição e a decomposição dos resíduos orgânicos, a adoção de práticas que favoreçam a produção de resíduos vegetais é muito importante. Comumente busca- se cultivar plantas de cobertura com características que incluem alta produção de fitomassa, alta eficiência no uso de nutrientes, especialmente nitrogênio e fósforo, rusticidade, alta tolerância ao déficit hídrico, crescimento inicial rápido com fácil estabelecimento e decomposição lenta dos restos culturais para persistir por mais tempo sobre o solo. No entanto, se por um lado é interessante que as espécies escolhidas produzam grande quantidade de fitomassa e tenham decomposição lenta para manutenção da cobertura morta, por outro, a presença de materiais de fácil decomposição garante liberação de nutrientes para a cultura seguinte.

Nos últimos anos, a produtividade de grãos de milho na área do experimento conduzido na Unesp variou de 6,2 a 8,9 toneladas/hectare, o que indica a viabiliade do sistema

Em regiões tropicais, onde a taxa de decomposição dos resíduos é alta, a busca é por espécies de plantas que apresentem produção de resíduos em quantidade e qualidade adequadas para cobertura e proteção do solo por mais tempo, mas que também proporcionem reciclagem de nutrientes, de maneira a disponibilizá-los de acordo com a demanda da cultura em sucessão.

O feijão-de-porco, assim como lablab, a mucunacinza e o milheto, foram cultivadas como plantas de cobertura em présafra à cultura do milho no experimento da Unesp

Gramíneas e leguminosas — As gramíneas são bastante utilizadas como plantas de cobertura, com destaque para o milheto. Sua utilização deve-se à resistência ao déficit hídrico, elevada produção de biomassa de decomposição relativamente lenta e menor custo das sementes. Por outro lado, as leguminosas destacam- se pela capacidade de aproveitar o nitrogênio da atmosfera no processo de fixação biológica, pela elevada produção de biomassa de decomposição rápida, favorável à reciclagem de nutrientes. Com a decomposição dos resíduos das leguminosas, o nitrogênio proveniente da fixação biológica é transformado pelos microrganismos do solo e colocado em formas que podem ser absorvidas pela cultura em sucessão, diminuindo, assim, as quantidades de fertilizante nitrogenado industrial utilizado nas culturas comerciais.

No caso do fósforo, mais da metade da quantidade contida nas folhas e raízes mortas fica disponível para o crescimento das plantas cultivadas após a cultura de cobertura e, nesse sentido, a implantação de sistema de rotação de culturas incluindo espécies com alta eficiência em extrair e utilizar fósforo pode permitir maior aproveitamento do fósforo do solo e contribuir para aumentar a eficiência agronômica da adubação fosfatada.

No estado de São Paulo, devido ao predomínio da monocultura da cana-de-açúcar, o plantio direto e as plantas de cobertura foram menos estudados que em outras regiões do País. Predomina no estado a ocorrência de inverno seco e, desse modo, cultivar a planta de cobertura após a colheita da cultura principal pode resultar em produção de massa vegetal muito pequena, insuficiente para formar cobertura. Na Região Nordeste do estado, as chuvas são tardias e os agricultores não fazem a semeadura nas primeiras chuvas devido ao risco de perda. Esse cenário abre a possibilidade de aproveitar as primeiras chuvas, normalmente em outubro, para semeadura de plantas de cobertura antecedendo a cultura principal.

Estudo de caso: experimento — Em trabalho que está sendo coordenado pelo Prof. Dr. Itamar Andrioli, na Fazenda de Ensino, Pesquisa e Extensão da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias/Unesp, localizada no município de Jaboticabal, Região Nordeste de São Paulo, plantas de cobertura, leguminosas e gramíneas (crotalária, feijão-de-porco, lablab, milheto, mucuna- cinza e vegetação espontânea) têm sido cultivadas em pré-safra à cultura do milho; e a cultura do milho em sucessão está sendo conduzida sem adubação nitrogenada em cobertura e também com adubação variando de 60 a 180 quilos/hectare de nitrogênio.

O solo da área é um Latossolo Vermelho argiloso, que está em plantio direto desde a safra 1998/99, e o experimento está na área desde a safra 2000/2001. No local, a quantidade média anual de chuvas é de 1.285 milímetros, concentrada, principalmente, de outubro a março, e a temperatura média anual é de 22,4ºC (dados da Estação Agroclimatológica da FCAV/Unesp). A semeadura das plantas de cobertura é feita, de modo geral, em outubro; a dessecação, em dezembro; e a semeadura do milho é feita em seguida. Nos últimos anos, a produtividade de grãos de milho na área do experimento variou de 6,2 a 8,9 toneladas/ hectare, o que indica a viabilidade do sistema. Nessa área, com apoio da Fundação Agrisus, foi feito, no ano agrícola de 2012/ 2013, 12 anos após a implantação do experimento, estudo das alterações nas formas de fósforo do solo que estão sendo causadas pelas plantas de cobertura e pela adubação nitrogenada.

Resultados — Depois dos 12 anos de manejo das plantas de cobertura, os teores de matéria orgânica e de nitrogênio armazenado na matéria orgânica aumentaram na camada de 0 a 5 centímetros de profundidade. O aumento foi maior com as leguminosas e menor com o milheto. O maior aumento foi de 0,6% de matéria orgânica e 0,23 grama/quilo de nitrogênio, obtidos com o cultivo de mucunacinza.

Com relação ao fósforo, também há a expectativa de que, com a adoção do plantio direto, tanto o fósforo orgânico quanto o fósforo total aumentem nos primeiros centímetros do solo. Esse efeito é esperado porque as raízes das plantas absorvem fósforo de camadas mais profundas, translocam a maior parte do nutriente absorvido para a parte aérea e, quando as plantas são dessecadas, o fósforo fica no material depositado sobre o solo.

Aos poucos, o fósforo dos restos culturais é reincorporado ao solo, à medida que as plantas decompõem-se. Apesar disso, na área do experimento, ao contrário do que ocorreu com o nitrogênio, a quantidade de fósforo armazenada na matéria orgânica e a quantidade total de fósforo do solo não aumentaram.

Nem todo o fósforo do solo pode ser aproveitado pelas plantas que estão crescendo na área. Na verdade, apenas uma pequena parte do total existente pode ser absorvida, e aquilo que é colocado à disposição da planta durante seu ciclo de crescimento é chamado de fração disponível. Para estudar a dinâmica (comportamento) do fósforo no solo, medem-se formas do nutriente que são consideradas de disponibilidade imediata, intermediária e de longo prazo.

Na área do experimento foi observado que o cultivo das plantas de cobertura levou ao aumento das formas de fósforo que são consideradas de disponibilidade intermediária. Essas formas vão ser aproveitadas pelas plantas cultivadas quando a reserva de disponibilidade imediata diminuir. Portanto, o benefício do cultivo da planta de cobertura pode vir em médio prazo e mediante a diminuição da dose de fertilizante fosfatado. Esse é o comportamento que se espera com a adoção do plantio direto: manutenção da sustentabilidade da produção em médio e longo prazos. A crotalária, a mucuna-cinza e o lablab foram as plantas de cobertura que mais aumentaram essa reserva de fósforo e a vegetação espontânea foi a que levou ao pior resultado (veja tabela).

A adubação nitrogenada também altera a dinâmica do fósforo no solo. Na área do experimento, ela está causando diminuição da reserva de fósforo contido na matéria orgânica do solo, até 20 centímetros de profundidade. Esse efeito acontece porque, quando se faz adubação nitrogenada, a atividade dos microrganismos do solo tende a aumentar e, com isso, tem-se a conversão de formas orgânicas em formas de disponibilidade imediata. Em outras palavras, a adubação nitrogenada acelera a reciclagem do fósforo. O efeito na camada de 0 a 20 centímetros pode ser associado à maior atividade dos microrganismos nas camadas superficiais do solo, devido à presença dos resíduos sobre o solo e da adubação nitrogenada superficial, mas ele não fica restrito aos primeiros 5 centímetros do solo porque o nitrogênio aplicado em superfície chega com facilidade a camadas mais profundas, arrastado pelas águas de drenagem.

O aumento dos teores de nitrogênio na matéria orgânica e de fósforo orgânico de disponibilidade intermediária justifica porque, com o tempo, a tendência é usar menos nitrogênio e menos fósforo na adubação, em áreas em plantio direto.