Agricultura Familiar

 

Setor que está no DNA dos pequenos

Engenheira agrônoma Flávia Clemente, supervisora de Transferência de Tecnologia da Embrapa Hortaliças

A produção de hortaliças é um segmento relevante na organização do perfil agrícola nacional. Vem se profissionalizando, mantendo praticamente a mesma área plantada há 30 anos, com cerca de quase 800 mil hectares, porém, com substancial aumento de produtividade. São diversas as espécies plantadas, sendo que as mais populares são alface, tomate, cenoura, couve, pepino, rúcula, berinjela, batatadoce, batata, melão, melancia, morango, abóboras, alho, cebola e pimenta. Embora seja um segmento com dificuldades de mensuração de dados oficiais pela informalidade na comercialização característica do setor, estima-se que o valor gerado pela produção olerícola, em nível de fazenda, seja de R$ 14 bilhões e responda à necessidade direta em termos de emprego de 2,4 trabalhadores/ hectare.

Diferentemente de outros tipos de cultivos agrícolas, a produção de hortaliças requer atenção e cuidados diários, é economicamente viável em pequenas áreas e obrigatoriamente não demanda volume de produção. Possui em sua característica de mercado também a condição informal de venda, como ocorre nas feiras livres. Todos esses fatores facilitam substancialmente a adoção dessa atividade pelo agricultor familiar, que se encaixa muito bem nessas mesmas condições.

Diferencial — A dificuldade de obtenção e os custos envolvidos atualmente na contratação de mão de obra dificultam a execução da atividade por grandes empresas em grandes áreas, e esse é um diferencial de oportunidade para o pequeno agricultor que conta com a mão de obra dos integrantes da família.

Também é um dos fatores que contribuem para o manejo diário e frequente, requerido por boa parte das hortaliças, pois mesmo que os envolvidos no cultivo tenham outras atividades, antes de sua saída ou após a sua chegada em casa, conseguem monitorar e conduzir as áreas plantadas, que normalmente são pequenas. Em alguns casos, tanto o produtor quanto sua família acabam por se especializar, tornando a olericultura sua atividade principal. A dedicação torna-se exclusiva e as possibilidades de aumento de produtividade e renda ampliam-se.

As hortaliças são plantas de ciclo relativamente curto e as etapas do cultivo ocorrem de maneira muito dinâmica, assim como a voracidade no ataque de pragas e doenças, que podem dizimar a produção em poucos dias, trazendo grande frustração. Por outro lado, com o manejo constante e a atenção ao atendimento das necessidades em cada uma das fases das plantas relativos aos tratos culturais necessários, quando bem executados, promovem boa produtividade por unidade de área, com interessante retorno econômico.

Em cerca de 200 metros quadrados é possível fazer uma horta com diferentes espécies de hortaliças sem escala de produção, atingindo bons índices de produtividade. O envolvimento da família torna-se estreito, tanto pela necessidade aparente nos tratos culturais quanto pelos fatores alimentares inerentes à produção. Um dos grandes pontos importantes relacionados à produção, além da geração de renda extra, é a possibilidade de diversificação e melhoria nutricional daquela família.

Consumo — Atualmente, embora seja identificado o baixo consumo de frutas e hortaliças pela população brasileira, existe uma corrente de consciência sobre a necessidade de melhoria na alimentação como um todo e o importante papel que as hortaliças ocupam nesse cenário. De acordo com dados do IBGE (2010), na Pesquisa de Orçamentos Familiares, mais da metade da população brasileira está acima do peso (50,8%), agravando significativamente o risco de ocorrência das doenças crônicas não transmissíveis como infarto, hipertensão, diabetes entre outras. A consciência desse fato pode promover um grande incentivo ao consumo e consequentemente à produção de hortaliças, inclusive pela demanda de alguns nichos de mercado, como as hortaliças produzidas organicamente, ou seja, sem agrotóxicos e demais contaminantes químicos.

"Diferentemente de outros tipos de cultivos agrícolas, a produção de hortaliças requer atenção e cuidados diários, e é economicamente viável em pequenas áreas", explica Flávia Clemente

De uma maneira geral, seja considerando hortaliças produzidas através do manejo orgânico ou convencional, a comercialização é caracteristicamente informal, ou seja, boa parte do volume de venda ocorre em feiras livres e programas governamentais, sem a necessidade de contratos operacionais para o fornecimento de mercadorias. Essa informalidade possui pontos positivos e negativos, permitindo ao agricultor comercializar a própria produção, sem a figura do atravessador, porém, existe também a incerteza da venda e do valor a ser pago em função da oferta diária.

Além dessas opções, em situações de maior segurança de produção e, até mesmo, maior profissionalização do agricultor, existem outras formas de comercialização com exigências de comprometimentos variados, como a entrega nas Ceasas (Centrais de Abastecimento), supermercados, sacolões e redes de hipermercados.

Recentemente, a Embrapa lançou o livro “Produção de hortaliças para a agricultura familiar”, que faz uma abordagem muito objetiva do tema. Concilia técnicas de cultivos voltadas para as áreas características dos agricultores familiares, comentando sobre todo o sistema de cultivo, da produção de mudas até a colheita e comercialização, reunindo uma série de publicações e indicações da área que visam atender a essa demanda direta, pois a agricultura familiar no Brasil é responsável por, pelo menos, 70% da produção nacional de hortaliças no país.