Fitossanidade

 

FERRUGEM sob controle. Mas até quando?

A safra 2015/16 será favorável para epidemias de ferrugem, principalmente na Região Sul, visto o inverno pouco rigoroso e a influência do El Niño, que favoreceu a sobrevivência de plantas voluntárias. E, para todas as regiões, há ainda a resistência aos fungicidas

Claudia Vieira Godoy, pesquisadora Embrapa Soja

O dia 16 de setembro foi a data oficial do início da safra de soja 2015/16, já que o período de vazio sanitário nos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo vai até o dia 15. O vazio sanitário, período de 60 a 90 dias com a ausência de plantas de soja na entressafra, regulamentado por meio de portarias e instruções normativas estaduais, tem como objetivo reduzir o inóculo do fungo P. pachyrhizi, causador da ferrugem-asiática da soja, para a safra. O fungo é um parasita obrigatório e necessita das plantas vivas para sobreviver na entressafra. Relatada pela primeira vez no Brasil em 2001, a ferrugem-asiática é a doença mais severa da cultura da soja, podendo reduzir drasticamente a produtividade se não for adequadamente manejada. Os danos decorrem da desfolha precoce, que compromete a formação, o desenvolvimento de vagens e o peso final do grão. A doença é favorecida por chuvas bem distribuídas ao longo da safra.

O início da safra 2015/16 será influenciado pelo fenômeno El Niño, que pode ser o mais intenso dos últimos 50 anos. O El Niño influencia a distribuição de chuvas de forma diferenciada nas regiões, com chuvas irregulares no Sudeste e no Centro-Oeste, atraso nas chuvas na Região Nordeste, o que pode atrasar a semeadura, e chuvas acima da média para a Região Sul, especialmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. A ferrugem tende a aparecer nas lavouras no mês de dezembro, com exceção para os anos de El Niño. Na última safra com El Niño moderado (2009/ 10), no início de dezembro o número de relatos de lavouras com ferrugem no site do Consórcio Antiferrugem (www.consorcioantiferrugem.net) foi maior do que nas demais safras.

O inverno pouco rigoroso deste ano, também sob influência do El Niño, favoreceu a sobrevivência de plantas de soja voluntárias (guaxas ou tigueras), na Região Sul. No mapa do Consórcio, os focos cadastrados nos estados do Rio Grande de Sul e de Santa Catarina, durante os meses de julho e agosto, mostram a sobrevivência do fungo nesses estados. Nenhum deles adota o vazio sanitário porque as geadas no inverno matam a soja tiguera, o que não ocorreu esse ano. Além desses dois estados, Mato Grosso, Paraná, São Paulo e Tocantins já aparecem no site com relatos de soja voluntária com inóculo do fungo para a safra. O objetivo principal do mapa do site do Consórcio é o cadastro das primeiras ocorrências da safra, para alertar o produtor da presença do fungo na região.

A safra 2015/16 vem se configurando como uma safra favorável para epidemias de ferrugem, principalmente na Região Sul e, dessa forma, o produtor deve estar alerta para o seu controle. Após a entrada do fungo da ferrugem no Brasil, as aplicações de fungicida passaram a fazer parte do custo de produção da cultura. Na safra 2014/15, foram realizadas, em média, três aplicações de fungicidas para o controle, o que resultou em um custo superior a US$ 2 bilhões. Se não bastassem os altos custos com controle decorrentes da entrada dessa doença no Brasil, o fungo vem se adaptando aos fungicidas, ocasionando uma redução na sua eficiência ao longo das safras, ameaçando o controle da doença.

Os principais fungicidas registrados para o controle da ferrugem pertencem a três grupos químicos atuando na biossíntese de ergosterol, importante componente da membrana celular dos fungos (DMI, triazóis) e na respiração mitocondrial, como os inibidores da quinona oxidase (QoI, estrobilurinas) e da succinato desidrogenase (SDHI, carboxamidas). Os fungicidas têm sido avaliados, desde 2003/04, em uma rede de ensaios cooperativos, coordenados pela Embrapa, pela empresa Tecnologia Agropecuária (Tagro) e pela Universidade de Rio Verde/GO (Fesurv). Além dos resultados da eficiência comparativa que são disponibilizados todas as safras no site da Embrapa Soja, os ensaios em rede têm permitido acompanhar a redução de eficiência dos produtos ao longo das safras, em razão da resistência ou menor sensibilidade do fungo aos fungicidas.

O problema da resistência — A resistência de fungos a fungicidas é uma resposta evolutiva natural. Para a ferrugem da soja, o primeiro grupo a mostrar redução de eficiência no campo foi o triazol. A partir de 2007/08, foi observada redução na eficiência de fungicidas triazóis na região do Cerrado e, em 2008/09, em todas as regiões do Brasil. Fungicidas triazóis foram utilizados isoladamente e de forma intensiva na cultura da soja nos primeiros anos após a entrada da doença no Brasil em razão da alta eficiência de controle, da presença de genéricos e do baixo custo. As recomendações de controle da ferrugem evoluíram para a utilização de misturas de triazóis e estrobilurinas.

Porém, na safra 2013/14, a estrobilurina isolada (azoxistrobina) apresentou redução de eficiência significativa nos ensaios cooperativos, em todas as regiões e, consequentemente, as misturas de triazóis e estrobilurinas também tiveram sua eficiência reduzida. A resistência ou menor sensibilidade de fungos aos fungicidas ocorre devido a diferentes mecanismos e, para P. pachyrhizi, já foi demonstrado que as populações presentes atualmente no campo carregam mutações nos sítios de ação dos fungicidas triazóis e estrobilurinas, comprometendo a eficiência das moléculas desses grupos em diferentes níveis.

As carboxamidas foram introduzidas no mercado de fungicidas no Brasil em 2013 e 2014, em misturas com estrobilurinas. Em razão da recente introdução desses fungicidas na cultura da soja, não há relatos de resistência no Brasil. No entanto, casos de resistência a carboxamidas já foram relatados para 14 patógenos no mundo, incluindo fungos como Corynespora cassiicola (em pepino) e Sclerotinia sclerotiorum (em canola), que também são patógenos da soja. Nos ensaios cooperativos de 2014/15, somente cinco produtos registrados apresentaram eficiência de controle superior a 50%. Os produtos com maior eficiência tendem a ser mais utilizados, resultando em maior pressão de seleção para resistência a esses fungicidas, que podem apresentar redução de eficiência nas próximas safras.

Uma das formas de reduzir a pressão de seleção para resistência é limitar o número de aplicações de fungicidas na cultura. Como o aumento na necessidade de utilização de fungicidas ocorre com o avanço na época de semeadura, a definição de datas-limites de semeadura poderia contribuir para a redução do número de aplicações. A soja semeada após dezembro tem demandado, em algumas situações, até sete aplicações de fungicidas, impondo alta pressão de seleção sobre o fungo que vem de lavouras semeadas mais cedo, onde já ocorreram em torno de três aplicações.

Em alguns estados tem havido reavaliação das instruções normativas para propor soluções que visam reduzir a pressão de seleção para resistência. Em Goiás, a soja pode ser semeada até 31 de dezembro e, no Mato Grosso, o período do vazio sanitário foi aumentado de 90 para 138 dias, antecipando o início para 1º de maio. Essas duas estratégias têm como objetivo reduzir as semeaduras que necessitam de maior número de aplicações. Essa medida só será efetiva se adotada por todas as regiões produtoras, uma vez que o fungo se dissemina rapidamente pelo vento de uma região para outra.

Cláudia: “Apesar de a ferrugem parecer estar sob controle nos últimos anos, a sustentabilidade da soja brasileira pode ser ameaçada se os fungicidas continuarem a ter eficiência reduzida por causa da resistência”

As estratégias antirresistência — Outra forma de atrasar o aparecimento da resistência é adotando as estratégias antirresistência em todas as semeaduras. As estratégias gerais antirresistência para fungos incluem rotacionar e utilizar misturas comerciais de fungicidas com diferentes modos de ação e sem resistência cruzada; utilizar dose e intervalo de aplicação recomendados pelo fabricante, ajustados para a epidemia da doença, evitando extenso intervalo entre as aplicações; aplicar preventivamente, monitorando a lavoura e acompanhando a situação de inóculo na região, aplicando logo antes do fechamento das entrelinhas da soja. Quanto aos produtos com carboxamidas, não devem ser utilizados em mais que duas aplicações por cultivo.

O grande risco de perder os fungicidas hoje disponíveis é que não há nenhum modo de ação novo para entrar no mercado nos próximos anos. Os produtos com boa eficiência, em fase de registro, avaliados nos ensaios cooperativos, são misturas triplas dos modos de ação já disponíveis (triazolestrobilurina- carboxamida). Fungicidas antigos, multissítios, com mais de 60 anos de mercado, vêm sendo utilizados para aumentar o número de opções para o manejo da doença. Esses produtos têm eficiência de controle média a baixa e necessitam ser reaplicados com maior frequência porque não penetram na planta e são lavados com a chuva. Mesmo com essas limitações, esses fungicidas podem ser ferramentas úteis no manejo da ferrugem, aumentando a eficiência de controle dos fungicidas já com problemas de resistência e atrasando o aparecimento nos que ainda não apresentam.

Em função de ser um processo natural, é quase certo que a resistência à maioria dos novos fungicidas vai ocorrer. No entanto, a vida útil pode ser prolongada com o uso racional e a adoção de boas práticas culturais. Para ferrugem, essas boas práticas devem incluir todas as estratégias disponíveis como a adoção do vazio sanitário, a utilização de cultivares de ciclo precoce e semeaduras no início da época recomendada, a redução da janela de semeadura, o monitoramento da lavoura desde o início do desenvolvimento da cultura, a utilização de fungicidas no aparecimento dos sintomas ou preventivamente e a utilização de cultivares resistentes.

Cultivares com genes de resistência vêm sendo lançadas no mercado. Essas cultivares apresentam lesões com menor quantidade de esporos e não dispensam a utilização de fungicidas. São ferramentas importantes de manejo e podem ajudar a reduzir a pressão de resistência aos fungicidas, mas, como apresentam um ou no máximo dois genes de resistência, o fungo pode vencer essa resistência de forma semelhante à que ocorre com os fungicidas. Apesar da ferrugem parecer estar sob controle nos últimos anos, a sustentabilidade da soja brasileira pode ser ameaçada se os fungicidas continuarem a ter eficiência reduzida por causa da resistência e da menor sensibilidade do fungo a esses produtos.