Prosperidade

 

Tecnologia no campo, PROGRESSO na cidade

Estudo mostra que a adoção de tecnologias no campo impacta positivamente na qualidade de vida das cidades e das pessoas. As 100 cidades que mais investiram no agronegócio tiveram um crescimento no IDH de 76%, ante 57% das áreas não-agrícolas

Eduardo Daher, economista, é diretor-executivo da Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef)

Não é de hoje que o agronegócio é o motor da economia brasileira. Nas últimas quatro décadas, graças à introdução de novas tecnologias no campo, o Brasil deixou a incômoda posição de importador de produtos básicos para se transformar em um dos principais fornecedores de alimentos no mundo. Mesmo diante de fato tão expressivo, a importância estratégica do agronegócio, especialmente no aspecto social, o setor ainda é alvo de críticas por parte da sociedade.

Nova Mutum, que há 30 anos possuía um solo pobre, a partir das novas tecnologias passou à terceira maior área cultivada de soja do Brasil, a sétima maior economia de Mato Grosso e 298a do Brasil

Estudo da consultoria alemã Kleffmann mostra que a adoção de tecnologias no campo impacta positivamente na qualidade de vida das cidades e de sua população, fato comprovado através da elevação do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). De acordo com o estudo, as 100 cidades brasileiras que mais investiram no agronegócio tiveram um crescimento no IDH acima da média nacional. Entre 1970 e 2010, a alta do IDH nas top 100 do agro foi de 76%, contra 57% nas áreas não-agrícolas.

O IDH leva em consideração não apenas a renda média dos trabalhadores, mas também o nível de educação e a expectativa de vida da população. Ou seja, as pessoas estão vivendo melhor e por mais tempo nas novas fronteiras agrícolas brasileiras – um cenário muito diferente do retratado pelos críticos de plantão. Pelo indicador, varia de 0 a 1: entre 0,700 e 0,799, é considerado Alto índice de desenvolvimento humano; acima de 0,800, o índice é considerado Muito Alto.

Os campos do Rio Grande do Sul foram o berço da agropecuária moderna brasileira, hoje mundialmente reconhecida. Essa vocação do estado confirma-se quando se compara o desempenho do IDH entre os municípios. O índice em cidades como Maceió, capital de Alagoas, 0,739; Recife, capital pernambucana, 0,789; e Guarulhos, segunda maior cidade do estado de São Paulo, 0,744, não alcança dois pequenos municípios gaúchos fincados no campo: Ipiranga do Sul, com IDH de 0,791, e Carlos Barbosa, com 0,796, o segundo lugar no Rio Grande do Sul, atrás apenas de Porto Alegre, e em 53º lugar no ranking do IDH entre os mais de 5 mil municípios brasileiros.

Se a soja e o milho impulsionaram o MT, foi o algodão que acelerou o crescimento na Bahia, pois municípios que mais investiram em tecnologia agrícola tiveram alta expressiva no IDH, explica Daher

Para se ter uma ideia do grau de qualidade em Ipiranga do Sul e Carlos Barbosa, basta lembrar que eles superam a própria média brasileira, de 0,740. Os dois exemplos agrícolas gaúchos também superam o México, 0,756; o Uruguai, 0,790; e a poderosa Rússia, 0,778. A economia do município de Carlos Barbosa, com apenas 25 mil habitantes, é baseada na agricultura, com destaques para soja, milho, cevada, trigo e feijão, e na pecuária com bovinocultura (de corte e de leite), suinocultura e avicultura.

Em outros estados não faltam exemplos dessa revolução impulsionada pelo agronegócio. No Mato Grosso, destacase o município de Nova Mutum. Há 30 anos, a área de solo pobre era muito pouco produtiva. Mas graças à introdução de novas tecnologias, como a correção de solos e uso de fertilizantes minerais e defensivos agrícolas, a região transformouse em potência. Atualmente é dona da terceira maior área cultivada de soja do País, com 338 mil hectares, e da oitava maior área de milho, com 90 mil hectares. Nova Mutum alcança a sétima maior economia de Mato Grosso, e ocupa a 298ª no Brasil.

Regiões ex-exportadoras de mão de obra — Se a soja e o milho impulsionaram o Mato Grosso, foi o algodão que acelerou o crescimento na Bahia. Dois dos municípios que mais investiram em tecnologia agrícola nas últimas décadas, Barreiras e Correntina também tiveram alta expressiva no IDH. Em Barreiras, quarta maior produtora de algodão do Brasil, o IDH subiu 76% desde 1970. Em Correntina, quinta no ranking, o crescimento chegou a 114%. O boom do agronegócio nas últimas décadas transformou áreas tradicionalmente exportadoras de mão de obra no interior do Brasil em polos que hoje recebem milhares de brasileiros, de todas as regiões, em busca de oportunidades.

A ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Kátia Abreu, demonstra disposição de empenhar-se para promover junto à opinião pública a importância do campo. Criticou, por exemplo, a morosidade nos processos de aprovação e registro de novos defensivos agrícolas no Brasil. Afirmou tratar-se de um dos principais gargalos do agronegócio brasileiro na atualidade e uma de suas prioridades no Ministério. Para quem vive o agronegócio de perto, a prioridade se justifica – afinal, os defensivos são fundamentais na agricultura tropical. Novos produtos possibilitam uma defesa mais eficiente de nossas lavouras e, consequentemente, uma produtividade maior.

A Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), entidade que reúne as indústrias fabricantes de defensivos agrícolas, também defende maior agilidade na aprovação de novos produtos, sem abrir mão de avaliações rigorosas, sempre pautadas pela ciência. Atualmente, o tempo médio para registro de um novo defensivo agrícola chega a quatro anos. Para acabar com a fila existente hoje, estima-se que seriam necessários quase 12 anos. São números inaceitáveis para um País com DNA agrícola como o nosso.

Ninguém mais do que o agricultor sabe a importância dessa tecnologia para a sustentabilidade do agronegócio brasileiro. Na cidade, porém, distante da realidade imposta pela lida árdua nas lavouras, a percepção é a de que os defensivos são dispensáveis. Não são, segundo afirma relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAOONU): cerca de 40% dos alimentos são perdidos todos os anos devido a ataques de pragas e doenças das plantas. Em áreas não tratadas com defensivos, esse número pode chegar a 80% e até a perda total. Diante de fatos tão relevantes, econômicos e sociais, é impossível pensar que alguém, por mais ideológico que seja, possa ser contra a defesa vegetal.