Irrigação

Produção e rentabilidade sob PIVÔ

Estudo baseado em lavouras na Bahia e em Brasília apontou que o retorno do investimento em pivôs se dá em 3,4 anos, e a área irrigada mostra-se 3,2 vezes mais rentável ao longo de uma década. Mas os ganhos vão além, como a garantia antiestiagem e valorização da terra

Eng. agrônomo Hiran Medeiros Moreira, MSc. Irrigação, diretor da Irriger Gerenciamento e Engenharia de Irrigação, empresa do Grupo Valmont

Comparando com o sistema de produção de sequeiro, ou seja, sem a utilização da tecnologia da irrigação, as áreas irrigadas propiciam forte aumento da produção por hectare, maximiza a eficiência do uso da terra e da rentabilidade do produtor. Alguns números são impressionantes: 18% das áreas de produção são irrigadas, sendo responsáveis por 44% da produção mundial de alimentos. Especificamente no Brasil, segundo estimativa da Agência Nacional de Águas (ANA) de 2012, são cerca de 5,8 milhões de hectares irrigados, correspondendo a 8,3% da área de produção agrícola e superando 40% do valor econômico gerado.

Considerando o crescimento da área irrigada dos últimos dois anos, estimado pela Associação Brasileira da Indústria de Máquinas – Câmara Setorial de Equipamentos de Irrigação (Abimaq- CSEI), projetam-se cerca de 6,2 milhões de hectares irrigadas, atualmente. Levantamentos oficiais coordenados pela ANA e pela Secretaria Nacional de Irrigação (Senir) indicam que o potencial de irrigação no Brasil é de 29 milhões de hectares, ou seja, são utilizados apenas 21% do potencial disponível. Como ainda há um longo potencial para ser realizado, pode-se fazer muito mais ainda com a adoção dessa tecnologia.

Devido a adaptabilidade, eficiência de operação e fácil manutenção, o uso de equipamentos tipo pivôs centrais tem se consolidado cada vez mais no Brasil, recomendados para campos de produção em que toda a área tem de ser irrigada, como grãos, pastagem, algodão e hortaliças (tomate, cenoura, batata, cebola, etc.) e plantio circular de café. Atualmente, é o sistema de maior expansão em novas áreas instaladas no País, cobrindo, em média, mais de 100 mil novos hectares/ano, nos últimos três anos, segundo dados da Abimaq-CSEI. Um amplo levantamento realizado pela ANA, em 2013, concluiu que o Brasil possuía 18 mil equipamentos, irrigando uma área total de 1,18 milhão de hectares.

O que é agricultura irrigada — É importante enfatizar o conceito de agricultura irrigada. Agricultura irrigada não é “sequeiro + água”. A adoção da irrigação promove forte transformação no planejamento agrícola, na gestão financeira, no treinamento e no preparo da equipe e do padrão tecnológico adotado. A garantia do suprimento hídrico à plantação faz com que seja necessário definir novos parâmetros para o sistema de produção, garantindo novos e maiores patamares de investimento. Os critérios técnicos precisam ser repensados, desde o preparo de solo, definição da cultura e material, definição de estande, maquinário, recomendação de adubação, operação de plantio, de aplicação de adubos e defensivos, manejo integrado de pragas e doenças, etc.

Nos países de regiões de clima temperado, como Argentina, EUA, Canadá, Rússia e Ucrânia, mesmo em áreas irrigadas, consegue-se produzir apenas uma safra por ano devido à limitação imposta pelo inverno rigoroso. Como na maior parte das regiões brasileiras há inverno leve e seco (entre maio e outubro), com disponibilidade de luz e temperatura amena, a irrigação permite grande incremento de produtividade por hectare, melhorando o uso da terra, podendo-se produzir o ano todo, utilizando culturas de maior valor agregado e auxiliando a regularizar o preço dos alimentos que se equilibram nas dinâmicas diárias de oferta e demanda.

Muitas vezes, o produtor de grãos habituado a produzir no sequeiro, tem receio de investir em instalação de pivôs centrais por ter dúvidas quanto ao retorno do investimento e por achar complexo manejar o equipamento. Dois questionamentos importantes e que requerem uma reflexão e estudo adequado.

De início, a grande vantagem que se tem em adotar a irrigação é a garantia de não haver quebra de safra durante a safra de “verão”, pois, na maior parte das regiões produtoras de grãos do País, devido à irregularidade de chuvas, ocorre, pelo menos, um veranico que provoca significativa perda produtiva a cada quatro anos. Garantindo o fornecimento suplementar de água durante o período chuvoso, o agricultor pode elevar o nível de investimento e o padrão tecnológico da área de produção, elevando a produtividade e a rentabilidade.

Um estudo realizado pela Irriger em áreas de produção de soja do Oeste da Bahia e altiplano de Brasília, submetidas à gestão de irrigação do sistema Irriger (apenas monitoramento do balanço hídrico, no caso das áreas de produção de sequeiro), comparando produtividade em áreas de sequeiro e irrigada, produzidas no período chuvoso, apresentou os seguintes resultados: a produtividade média das áreas de sequeiro foi de 49,26 sacas/hectare, enquanto que a produtividade média das áreas irrigadas foi de 67,8 sacas/ hectare. Além de produzir quase 18,5 sacas a mais, as áreas irrigadas apresentaram maior estabilidade.

O desvio padrão de produtividade em áreas de sequeiro foi de 11,9 sacas/ hectare, enquanto que em área irrigada, 7,8 sacas/hectare. Uma outra conclusão relevante do estudo indica que, devido à maior produtividade obtida, o custo médio de produção por saca de soja irrigada caiu 10% em relação à soja não irrigada, fator crucial para aumentar a rentabilidade.

Normalmente os produtores de sequeiro conseguem fazer a safrinha entre 30% e 60% da área total cultivada. Logo, é possível realizar, no máximo, 1,5 ciclo/ano. Ainda assim, o segundo ciclo tem potencial de produção de, no máximo, 50% a 70% se comparado com a primeira safra, com muito maior probabilidade de haver forte restrição hídrica ao longo do ciclo (de fevereiro a junho) e a produtividade baixar muito. Utilizando pivôs centrais, a perspectiva de produtividade do segundo ciclo passa a ser potencial, utilizando ainda a irrigação de forma suplementar. Há várias estratégias viáveis em termos de rotação de culturas, quando inclui a irrigação. Cada uma delas precisa ser estudada de acordo com o perfil do produtor, clima, manejo de pragas e doenças, vazio sanitário estabelecido pelos órgãos competentes e horizonte de viabilidade de retorno financeiro.

De modo geral, vários produtores atendidos pela Irriger conseguem realizar de 2 a 2,5 ciclos por ano sob pivôs. Alguns preferem priorizar melhores janelas de produção e culturas de maior valor agregado como feijão, sementes de milho, algodão e hortaliças (batata e tomate, principalmente) e outros preferem trabalhar com culturas que apresentam menor risco de produção, mas produzindo potencialmente em ambas. A tabela 2 apresenta uma estratégia de sucessão de plantios utilizada para um produtor com foco de produção de milho semente praticada em diversos polos de produção irrigada do cerrado Brasileiro.

A Tabela 5 apresenta os indicadores financeiros que resultaram da análise de viabilidade comparando cenário de produção de sequeiro e irrigado com pivôs centrais elétricos. Neste estudo, já foi considerado o reajuste das tarifas de energia elétrica realizados no início de 2015, a qual representou, em média, 72% de aumento final do custo do milímetro irrigado. Para a produção de sequeiro, foi considerado 50% da área de produção com milho safrinha (produção média de 90 sacas/hectare) e produtividade média ao longo de cinco anos (tanto para a primeira, como para a segunda safra).

Retornos — Logo, o tempo de retorno do investimento em pivôs centrais, considerando a conservadora estratégia de sucessão de plantios apresentada na tabela 2, é de 3,4 anos. Comparando com a relação de viabilidade da agricultura de sequeiro, a área irrigada resulta em 3,2 vezes mais rentável em dez anos de projeção. Há, no entanto, vários ganhos correlatos que precisam ser considerados na análise, como os seguintes:

1) o investimento em pivôs centrais pode realizado com juros subsidiados (7,5%/ano, como um ano de carência e cinco anos para pagar, dependendo da análise da instituição financiadora);

2) valorização do preço da terra;

3) segurança no investimento por garantir suprimento de água às culturas (o insumo mais importante);

4) para contexto de sequeiro há risco de os veranicos diminuirem muito o valor presente líquido do investimento;

5) produção de sequeiro apresenta menos opção de culturas, bem como restringe muito as janelas de plantio; 6) possibilidade de diversificação e promover implantação de culturas de maior valor agregado, como sementes, feijão, tomate, hortaliças e algodão.

Manejo preciso e à distância — Outro aspecto relevante para a decisão de se investir em pivôs centrais é o desconhecimento de como manejar o dia a dia desses equipamentos. Além dos sistemas de automação, que permitem controlar e monitorizar à distância o funcionamento, os irrigantes têm adotado sistemas de gerenciamento de irrigação disponíveis no mercado e que permitem estimar diariamente a necessidade hídrica das culturas, fazendo com que a decisão de irrigação seja realizada adotando-se critérios técnicos.

Com isdo, evitam-se irrigações excessivas, suprindo adequadamente a demanda hídrica, reduzindo doenças, diminuindo as perdas de nutrientes do solo por lixiviação e garantido maior produtividade e qualidade da produção. Assim, mesmo o irrigante inexperiente, poderá alcançar alto desempenho em termos de gestão de equipamentos, utilizando equipamentos com recursos tecnológicos e a prestação de serviços especializada.

Devido a fácil adaptação, eficiência de operação e fácil manutenção, o uso de equipamentos tipo pivôs centrais tem se consolidado cada vez mais no Brasil