Reportagem de Capa

 

SEGURANÇA depois da colheita

Manter uma estrutura de armazenagem na propriedade requer um investimento alto, mas o retorno pode chegar até mesmo antes do esperado. É a possibilidade, entre outras vantagens, de comercialização da safra em um momento de melhores preços e o alívio no gargalo do pós-colheita, que tanto atrapalha o escoamento da produção. Para quem já tem o silo na propriedade, a atenção deve ficar por conta da qualidade do processo, afinal, o grão também precisa de cuidados especiais depois que sai da lavoura

Denise Saueressig denise@agranja.com

A capacidade de armazenagem evolui muito pouco em comparação com a produção gerada nos campos do Brasil. O déficit atrapalha a renda do produtor e toda a logística de escoamento da safra. Os investimentos vêm sendo constantes, é verdade, mas ainda é preciso avançar muito mais para mudar o cenário no País. Basta comparar os números da colheita com a estrutura disponível para perceber o descompasso. No ciclo 2004/2005, a produção de grãos foi de 113,5 milhões de toneladas. Na mesma época, a capacidade estática dos armazéns cadastrados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) era de 106,5 milhões de toneladas.

Dez anos depois, a safra brasileira foi estimada em 209,5 milhões de toneladas e tem potencial para chegar a até 213 milhões de toneladas em 2015/2016. Enquanto isso, o sistema de armazenagem tem capacidade para 151,5 milhões de toneladas, segundo dados levantados em outubro. “Com base nos investimentos previstos, talvez em 2016 os números alcancem 160 milhões de toneladas”, observa o consultor Carlos Cogo, diretor da Carlos Cogo Consultoria Agroeconômica. “De qualquer forma, se for confirmada a projeção de expansão para o ano que vem, a capacidade ainda estará longe do ideal, que deveria ser a soma da colheita mais os estoques de passagem. Considerando essa conta, o País teria um déficit absoluto de mais de 70 milhões de toneladas”, completa o especialista.

Se for levada em conta a recomendação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), a defasagem fica ainda maior. Segundo o órgão internacional, o espaço disponível deveria ser de 1,2 safra, ou 20% superior à produção, o que ocorre, por exemplo, nos Estados Unidos. Outro índice que distancia o Brasil do seu principal concorrente no mercado de commodities é a estrutura de armazenagem nas mãos do produtor. Enquanto no Brasil apenas 16% da capacidade estão nas propriedades, nos EUA, esse volume chega a 56%. A vizinha Argentina também tem números superiores aos do Brasil, com 21% dos silos nas fazendas.

Viabilidade – Ainda que os números estejam abaixo do que seria positivo em um país com tanta competência para produzir, é inegável que os últimos anos foram movimentados em investimentos na área. O Governo Federal lançou, em 2013, o Plano Nacional de Armazenagem, com linhas de crédito específicas de R$ 25 bilhões até 2017/2018. O PCA (Programa para Construção e Ampliação de Armazéns) iniciou com disponibilidade de R$ 3,5 bilhões, enquanto o PSI-Cerealistas ofertou R$ 1 bilhão. Os dois programas foram lançados com atrativos 15 a n o s d e prazo, três anos de carência e taxa de juros de 3,5% ao ano. “Este i n c e n t i v o foi como uma luz no fim do túnel, mas os recursos foram cortados praticamente pela metade para a temporada 2015/2016”, salienta Cogo.

No novo Plano Safra, o pacote passou para R$ 2 bilhões no PCA e para R$ 400 milhões no PSI-Cerealistas. As taxas de juros também foram reajustadas, para entre 7,5% e 10% ao ano. “Sabemos que vivemos em um ambiente econômico hostil, mas é um corte inoportuno em um momento em que a safra continua com previsão de crescimento e tendo em vista que os recursos do PCA tiveram demanda além da oferta nos últimos anos”, avalia o consultor.

Milho estocado a céu aberto no Norte do Mato Grosso: consequência da carência de estruturas no maior produtor de grãos do País

A procura mais frequente pelo programa, no entanto, continua tendo origem nas cooperativas. “Apenas entre 15% e 20% das contratações são feitas por produtores. Esse número revela um desafio, que é fazer com que o produtor entenda os benefícios que terá com uma estrutura própria, que vai oferecer a ele mais liberdade e segurança para trabalhar”, ressalta Cogo. Entre as vantagens listadas pelo consultor está a possibilidade de comercialização da safra no mercado de lotes, optando pelo melhor momento, sem a ação de intermediários. “A diferença média de preços da soja entre as modalidades balcão e lotes tem ficado em 9,8% nos últimos anos. São números como esse que mostram a viabilidade e o retorno do investimento em armazenagem”, revela.

Para driblar os problemas do déficit de capacidade no País, produtores de alguns estados vêm usando a criatividade e optando por associações para a instalação conjunta de estruturas. Outra alternativa em crescimento é a utilização do silo- -bolsa. A estimativa é de que em torno de 20 milhões de toneladas de grãos sejam armazenadas nesse tipo de equipamento em 2015. “É um mercado que cresce cerca de 20% ao ano, principalmente em regiões como o Centro-Oeste e o Matopiba”, assinala o consultor.

Produção ao relento – No Centro-Oeste, região que respondeu por mais de 40% da produção brasileira no período 2014/2015, o déficit de armazenagem fica ainda mais evidente a cada nova safra. Pela falta de estruturas para guardar a colheita, a cena do milho estocado a céu aberto, ao lado de silos já lotados ou sobre as carrocerias dos caminhões, infelizmente se tornou frequente. “Mato Grosso tem condições de dobrar a produção nos próximos anos, mas vamos armazenar a colheita em silos ambulantes?”, questiona o gerente da Comissão de Política Agrícola da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja), Frederico Azevedo.

 

O Centro-Oeste tem capacidade para a estocagem de 53,6 milhões de toneladas diante de uma safra que chegou a 88 milhões de toneladas no último ciclo. Em Mato Grosso, estado que mais produz soja e milho no País, a capacidade é calculada em 32,8 milhões de toneladas, enquanto a colheita é de 51,6 milhões de toneladas.

Produtores mato-grossenses, com a intenção de investir em armazenagem, relataram dificuldades para acessar os recursos do PCA. Segundo o gerente da Aprosoja, os obstáculos surgem nas agências bancárias, onde há complexidade nas exigências para a tomada de crédito. “O PCA deve continuar porque é um estímulo importante. No entanto, precisamos de mais agilidade e ajustes junto aos bancos intermediários. A análise deve ser rigorosa, claro, mas também efetiva. O custo de produção aumentou, mas não ouvimos falar em inadimplência entre os produtores. Ou seja, há segurança para a continuidade dos investimentos”, destaca. Azevedo ainda considera importante o Governo promover uma avaliação individual das necessidades e direcionar os recursos proporcionalmente às regiões onde o déficit é maior. “A armazenagem é estratégica para o País e para o bolso do produtor”, resume.

Retorno antes do previsto – É a visão empresarial do negócio agrícola e a necessidade de minimizar os riscos que vêm motivando projetos de produtores em sistemas de armazenagem nos últimos anos. Trabalhando na área desde a década de 1980, o consultor Adriano Mallet, diretor técnico da Agrocult, percebe que existe a preocupação de ampliar as margens com a agregação de valor ao produto em forma de qualidade e de preços melhores. “Foi essa percepção que ajudou a modificar em parte os investimentos no País, que há 30 anos eram realizados quase que totalmente pelas cooperativas”, menciona.

A família Pozzobon, que tem propriedades em Mato Grosso, precisou de algum tempo para reequilibrar as finanças depois da crise enfrentada pelo agronegócio no ciclo 2004/2005. Quando conseguiu colocar as contas em dia, em 2008, os planos de novos investimentos começaram a sair do papel. A compra de um pulverizador foi o primeiro passo. Em seguida, veio a decisão por instalar um sistema de armazenagem na Fazenda Jaçanã, em Vera, no Norte do estado.

Produtor Moises Schmidt: melhor controle interno das operações da propriedade é um dos principais benefícios da estrutura própria

Na propriedade, Rodrigo Pozzobon e o pai, Elso Vicente Pozzobon, cultivam 2,4 mil hectares com soja, milho e feijão. Em 2009, quando os dois silos começaram a operar, os primeiros resultados já foram notados. “Na hora de fazer as contas, concluímos que a produtividade média da soja havia subido quatro sacas”, cita Rodrigo. O incremento de 57 sacas para 61 sacas por hectare, segundo ele, não foi apenas consequência do clima favorável, mas sim das perdas que deixaram de ocorrer no processo de classificação quando o grão era entregue a terceiros.

Outro ganho veio com a supressão do pagamento pelo frete que era preciso contratar durante a colheita até o município de Vera, distante cerca de 20 quilômetros da fazenda. “Agora, conseguimos escalonar a venda ao longo do ano sem precisar ter pressa para negociar o transporte”, relata. A diferença de preço também entra na soma dos benefícios. Na última safra, a saca de soja vendida a R$ 52 na colheita chegou a R$ 58 no mês de junho.

Rodrigo e o pai precisaram investir em torno R$ 2,3 milhões na estrutura, sendo que 75% foram pagos com recursos próprios. Os silos têm capacidade para estocagem de 7,2 mil toneladas, ou 80% da produção de soja da propriedade. O produtor conta que imaginava que o retorno do investimento seria possível em um prazo de dez anos. “No entanto, nas três primeiras safras de uso, percebemos que isso aconteceria já no sétimo ano”, prossegue. Um funcionário fixo cuida da operacionalização dos equipamentos, enquanto outras duas pessoas são contratadas temporariamente quando necessário. Uma vez por ano, a estrutura também recebe um trabalho de manutenção terceirizada. No total, o custo de operação da unidade armazenadora é avaliado em torno de 4,5% do valor da produção. “O certo é que não perdemos dinheiro, tanto que pensamos em ampliar a estrutura nos próximos anos”, declara Rodrigo.

Diferencial positivo – Um dos tantos empreendedores que deixaram o Sul para desbravar as terras ao Norte do País, o produtor Paulo Ambrosio Schmidt foi um dos precursores na instalação de armazéns no Oeste da Bahia. A estrutura para 200 mil sacas foi construída na década de 1990, na fazenda em Barreiras que integra a Schmidt Agrícola, empresa com 11 mil hectares cultivados com soja, milho e algodão. “Aprendemos com nosso pai que o investimento em armazenagem é um diferencial positivo para o resultado da atividade”, justifica o produtor Moises Almeida Schmidt, que junto com os três irmãos cuida dos negócios da família. Para ele, as principais vantagens estão relacionadas ao maior controle interno da propriedade, com a organização da logística de colheita e armazenamento; à possibilidade de separar a soja de acordo com a variedade colhida em cada talhão; e à liberdade de vender os grãos no momento que julgar o mais apropriado. “Na última safra, em plena colheita, a saca de soja era comercializada por valores entre R$ 54 e R$ 55. Hoje, o que ainda está disponível pode ser vendido por até R$ 82 a saca”, diz Schmidt.

O retorno positivo com o silo instalado pelo pai motivou o investimento em uma nova unidade que ficou pronta recentemente. Os irmãos aproveitaram o crédito do PCA em um projeto para 330 mil sacas, com custo de R$ 10 milhões. “É uma estrutura mais moderna, que vai qualificar nosso processo”, acrescenta o produtor.

Com uma colheita de 480 mil sacas de soja e 228 mil sacas de milho na safra 2014/2015, e uma capacidade de estocagem de 530 mil sacas, os irmãos pensam, no futuro, em trabalhar também com a prestação de serviços de recepção, secagem e armazenagem de grãos de outros produtores. “Na nossa região, os investimentos na área ainda são tímidos, especialmente em função do excesso de exigências para novos projetos”, observa Schmidt, que também é presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Barreiras e vice-diretor de Desenvolvimento Agropecuário da Federação da Agricultura da Bahia (Faeb).

Produtor Rodrigo Pozzobon: resultados positivos com a armazenagem fazem pensar em ampliação da estrutura nos próximos anos

Grão bem cuidado = lucro garantido – Ao mesmo tempo em que a definição pela instalação de uma estrutura própria de armazenagem deve considerar cálculos e planejamento criterioso, a manutenção adequada deve ser a prioridade quando o sistema estiver em funcionamento. Como as correções saem mais caro e podem atrasar o recebimento da safra, o aconselhável é sempre trabalhar preventivamente para garantir o melhor desempenho dos equipamentos. “Pelo menos uma vez por ano a unidade deve passar por uma revisão geral”, orienta o consultor Adriano Mallet, que realiza cursos e treinamentos na área.

Entre as ações básicas que devem ser executadas antes do recebimento da safra está a limpeza do armazém, com a remoção de resíduos de grãos existentes e depositados sobre pisos, moegas, poços e túneis. “É fundamental retirar o pó acumulado, que é um dos principais agentes de contaminação e de proliferação de pragas. Na sequência, é importante realizar ações mecânicas, como revisão de rolamentos, correias e motores, assim como reapertos, lubrificações e trocas de peças desgastadas”, recomenda.

Um sistema de armazenagem está alicerçado em módulos básicos, explica o consultor: 1) recepção (moega/classificação/ laboratório); 2) limpeza (máquina de pré-limpeza); 3) secagem (secador de grãos); e 4) armazenagem (silos verticais ou armazéns graneleiros). “Para compor uma unidade de pequeno porte, observando a área plantada e a região de atuação, existem no mercado várias opções de unidades com capacidade de estocagem a partir de 5 mil sacas”, descreve Mallet. Independentemente da capacidade de estocagem escolhida, o módulo deverá ser composto de três itens fundamentais para a conservação do material guardado. São eles: monitoramento da massa de grãos (termometria); aeração (ventilação); e sistema de exaustão.

A atualização e capacitação dos profissionais envolvidos com a armazenagem devem ser prioridade, na opinião do especialista. “O Brasil está muito bem servido em máquinas e tecnologias, mas ainda precisamos avançar no conhecimento das pessoas que trabalham no processo”, alega.

Exemplo de larva de praga que danifica o grão da soja: principal problema da armazenagem deve ser combatido com prevenção

Necessidade de qualificação – A preocupação é fundamentada no fato de que as perdas no pós-colheita ainda são consideráveis no País. São prejuízos quantitativos e qualitativos que impactam negativamente a rentabilidade do produtor. “Não podemos esquecer que o grão é um elemento vivo, que vai responder aos cuidados dentro do silo. É difícil falarmos de ‘perda zero’, mas sempre podemos nos esforçar para reduzir esses índices”, argumenta Mallet.

O professor da Universidade Federal de Viçosa/MG (UFV) e consultor técnico do Centro Nacional de Treinamento em Armazenagem (Centreinar), Tetuo Hara, concorda que, assim como deve trabalhar para ampliar a capacidade de armazenagem e o número de estruturas nas propriedades, o Brasil precisa focar em capacitação. “Além de treinamento, é imperiosa a atuação dos técnicos da extensão rural”, defende.

Com 40 anos de atuação completados em 2015, o Centreinar capacitou cerca de 24 mil técnicos do Brasil e do exterior. Instalado na UFV, o centro foi criado por uma parceria entre a instituição de ensino e a Conab. No roteiro de qualificação estão incluídas as determinações do Programa de Certificação de Unidades Armazenadoras, do Governo Federal. “A certificação exige, para sua manutenção, a exigência mínima de 24 horas de treinamento por ano em todos os níveis”, enumera o professor.

Atenção especial às pragas – Especialista na área e um dos autores do livro “Manejo Integrado de Pragas de Grãos e Sementes Armazenadas”, lançado em setembro, o pesquisador Irineu Lorini, da Embrapa Soja, alerta que os problemas causados pelos insetos representam em torno de 10% das perdas contabilizadas na armazenagem. “Quanto mais eficiente for a higienização da unidade, mais prolongada será a armazenagem”, conclui. Segundo ele, o ideal, depois de varrer e aspirar os resíduos, é fazer a lavagem com água em alta pressão. Para u m a p r o t e ç ã o extra, também é recomendada a aplicação de inseticida específico nas paredes da estrutura.

Besouros e traças representam entre 95% e 98% das pragas detectadas na armazenagem. Chama a atenção que, além de provocarem perdas na qualidade dos grãos, esses insetos podem sobreviver ao processo de industrialização dos alimentos, chegando até a mesa do consumidor ou à ração destinada aos animais. “É a larva ou o besouro que pode ser encontrado no pacote de macarrão ou na barrinha de cereal. É um problema para o mercado interno e pode representar uma barreira para as exportações”, frisa Lorini.

A questão ainda é séria no Brasil, constata o pesquisador. Na última safra, por exemplo, em torno de 15% do trigo levado até os moinhos foi rejeitado por ocorrência de pragas. “Esses insetos depreciam muito a qualidade do grão, que será selecionado pelo mercado”, complementa.

Duas questões principais criam desafios para a qualificação dos processos de armazenagem. A primeira delas é a falta de compreensão da importância do problema por parte do armazenador, que também precisa entender que a praga pode ser eliminada com um tratamento correto. Outra dificuldade é a falta de estruturas adequadas para o controle das pragas. “Há pouco tempo e condições para a segregação dos grãos. Como há carência de estruturas de armazenagem em relação ao tamanho da produção, muitas vezes acontece de uma safra ser guardada sobre resíduos de outra”, continua o especialista.


Modernização das estruturas públicas

Como parte do Plano Nacional de Armazenagem, o Governo anunciou, em 2013, investimentos de R$ 500 milhões nas estruturas públicas. Instaladas em diferentes regiões, as 94 unidades mantidas pela Conab somam uma capacidade de 2,2 milhões de toneladas. Com a aplicação dos recursos, a meta é ampliar o volume em 850 mil toneladas.

Do total da verba destinada, R$ 350 milhões serão utilizados para a construção de dez novas unidades e R$ 150 milhões na reforma de 80 estruturas. “Nossa intenção é que os novos armazéns possam atender, prioritariamente, as regiões onde há grande consumo de grãos devido à produção de carnes, como as criações de aves e suínos”, explica o superintendente de armazenagem da Conab, Rafael Bueno. “Queremos melhorar as condições de atendimento e ampliar o fornecimento de milho a balcão para os pequenos pecuaristas”, acrescenta.

As dez novas unidades serão instaladas em Eliseu Martins/PI, Luís Eduardo Magalhães/ BA, Petrolina/PE, Quixadá/CE, São Luís/MA, Campina Grande/PB, Anápolis/ GO, Viana/ES, Xanxerê/SC e Estrela/RS. Segundo Bueno, os projetos seguem o cronograma definido e passaram pelos estudos de viabilidade necessários. A primeira estrutura a ser construída deverá ser a de Xanxerê, onde o início das obras está previsto para março de 2016 e o término, em dezembro de 2017. Em março do ano que vem também deverão começar os reparos na unidade de Rio Verde/GO. “Das 80 estruturas que serão restauradas, 22 terão condições para recebimento de produtos a granel, além dos ensacados”, detalha o superintendente.

Hoje o índice de ocupação dos armazéns da Conab está em torno de 70% da capacidade construída. Segundo Bueno, a ociosidade de 30% não se refere apenas a problemas estruturais, mas também a questões de demanda e de movimentação de cargas.


Sistema integrado com as cooperativas

Com atuação fortalecida principalmente nos estados do Sul, as cooperativas respondem por 21% da capacidade estática de armazenagem no Brasil. E os investimentos na área não param. Recursos específicos, como o Prodecoop, até 2012, e o PCA, atualmente, ajudaram a alavancar a participação das cooperativas no segmento. “Acreditamos que mais de 60% de todos os recursos aportados do PCA foram originários de projetos de cooperativas”, afirma o coordenador do Ramo Agropecuário da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), Paulo Cesar Dias do Nascimento Júnior (foto).

“Houve incremento na especialização da prestação de serviços aos cooperados, com atuação na recepção, classificação, padronização, armazenagem, beneficiamento e industrialização”, descreve. Nos próximos anos, os projetos devem continuar em expansão como orientação estratégica. “A necessidade de adequação das antigas estruturas e equipamentos faz com que a necessidade de modernização seja constante”, considera Nascimento.

O dirigente da OCB lembra que, do total da capacidade estática do País, em torno de 23 milhões de toneladas são classificadas como unidades armazenadoras convencionais, não adequadas ao estoque de cereais e oleaginosas. “Assim, a capacidade disponível para estocagem da safra nacional é de cerca de 128 milhões de toneladas. Em teoria, esse volume é suficiente para estocar apenas 61,75% da produção. Do ponto de vista prático, entretanto, fatores como a necessidade de segregação dos produtos, ocupação parcial das instalações com estoques governamentais ou mesmo a localização das unidades armazenadoras fazem com que a capacidade disponível seja consideravelmente menor”, aponta.

Além disso, ele cita que 44% das unidades armazenadoras localizam-se em zonas urbanas e, portanto, têm restrições de uso em função da adjacência com áreas comerciais e habitacionais e dificuldade no acesso e na trafegabilidade. “Para se garantir eficiência na logística e na comercialização, é necessária a existência de um sistema integrado, com capacidades e localizações estratégicas. Nesse sentido, o modelo cooperativista representa uma solução eficaz”, reflete.


A importância da prevenção – Em um programa de capacitação de 16 horas ministrado pelos pesquisadores da Embrapa, técnicos e operadores recebem informações sobre a aplicação do Manejo Integrado de Pragas (MIP) nos grãos armazenados, o que inclui orientações como a identificação das pragas e a pulverização com produtos específicos. Entre os métodos preventivos está o físico, com o uso de um pó à base de algas marinhas, e o químico, com uso de inseticidas. No método curativo, ou seja, quando existe a detecção da presença de pragas, o indicado é a utilização de gás como a fosfina no ambiente hermeticamente fechado. “Todas as medidas precisam estar acompanhadas de monitoramento, que deve ser feito, no mínimo, a cada 15 dias, quando deve ser retirada uma amostra dos grãos para análise”, ensina Lorini.

Professor Tetuo Hara, do Centreinar: além de trabalhar pela ampliação da capacidade, País precisa investir em mais qualificação na área

Não existe um levantamento oficial, mas a estimativa é de que as perdas na armazenagem fiquem entre 15% e 20% da produção com causas em diferentes problemas. Em ordem, os maiores prejuízos são relatados no milho, no trigo, no arroz e na soja. Além das pragas, os grãos podem sofrer danos com a ocorrência de fungos e com altas temperaturas. O aquecimento pode provocar fermentação e consequente deterioração. “O controle periódico poderá determinar a ligação do sistema de aeração para retirar a umidade presente”, atesta o pesquisador, lembrando que o aconselhável é que os grãos sejam reservados no silo com 13% de umidade.

Uma aeração adequada requer alguns cuidados, completa o professor Tetuo Hara. “O operador deve prestar atenção a alguns aspectos, como a vazão excessiva ou insuficiente, ventiladores e sistema de aerodutos dimensionados inadequadamente, paredes dos silos sem vedação devida, entre outros. São fatores que podem comprometer não só a qualidade do produto, mas também representam desperdício de dinheiro”, sustenta.