Glauber em Campo

QUANDO DEIXAREMOS DE SER IMPORTADORES DE PESCADO PARA SERMOS EXPORTADORES?

GLAUBER SILVEIRA

Como disse a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Kátia Abreu, temos 12% da água doce do mundo e 8 mil quilômetros de costa, temos que produzir peixes para o Brasil e o mundo, mas, ao contrário, somos importadores. Temos uma grande oportunidade devido à qualidade de nossa água e à disponibilidade de matéria- prima interna para a produção de uma ração altamente competitiva, mas por outro lado temos entraves ambientais, altos impostos e a falta de uma política governamental eficiente.

O peixe é a proteína animal mais consumida mundialmente, e também a que tem uma grande viabilidade para crescer. A piscicultura, seja de água doce, seja de água marítima, oferece uma gama muito grande de sabores e opções. O brasileiro consome apenas 10,6 quilos de peixe ao ano, e isso se deve a um crescimento expressivo nos últimos cinco anos, mas que ainda é bem abaixo da média mundial, que é de 19 quilos/ano, e da recomendação da FAO para um mínimo de 12 quilos/ano. Porém, na Europa, por exemplo, o consumo médio é de 54 quilos/ano.

Infelizmente, o brasileiro come peixe apenas em ocasiões especiais. O acesso é limitado a classes sociais mais altas devido ao alto preço do peixe no supermercado. Ao contrário do resto do mundo, onde é uma das carnes mais acessível ao consumidor, no Brasil, chega a ser três vezes mais caro que a carne de frango. O que não se justifica, afinal, o produtor recebe hoje, em média, R$ 4 por quilo de peixe vivo e no supermercado esse peixe fica, em média, R$ 20, lembrando que o peixe tem alto rendimento de carcaça.

Pesquisas apontam que o brasileiro gosta muito de comer carne de peixe. Tanto que o Brasil gasta mais de US$ 1,5 bilhão em pescado para atender a demanda interna, peixes esses que são bacalhau, salmão, pangasius e merluza. Se formos observar, o potencial é gigantesco, não só para substituir o que já importamos. Mas se imaginarmos um crescimento de um quilo por habitante ao ano até chegarmos à média mundial de 19 quilos/pessoa/ano, o aumento da demanda é simples de ser resolvida, basta o preço ser acessível.

Hoje, 45% da nossa produção de carnes é a de frango; seguida da bovina, com 35%; suína, com 12%; e peixes, com 7,7%. Sendo assim, as carnes de frango e bovina correspondem por mais de 80% da proteína consumida pelos brasileiros, e chegamos ao limite do consumidor. Sendo assim, peixe é a melhor opção, pois o consumidor precisa variar no consumo de proteína.

A produção de peixes no Brasil caracteriza- se por dois grandes grupos de peixes, a tilápia e os redondos. No grupo dos redondos estão o pacu e o tambaqui, principalmente. A tilápia é uma das espécies mais consumidas no mundo e tem um grande potencial produtivo no Brasil, mas mesmo sendo um peixe onívoro, que é predado por outros peixes, sofre restrições em alguns estados por ser um peixe exótico.

Peixes como pacu, pintado, tambaqui e outros cruzados, como o tambacu (tambaqui com pacu), têm uma ótima aceitabilidade pelo brasileiro. O desafio é o mercado internacional, mas mesmo no mercado interno a demanda não aumenta devido ao alto custo. Um exemplo é quando comparamos o preço de restaurantes. Ao compararmos uma churrascaria com uma peixaria especializada, o preço médio das peixarias é em média 35% mais cara.

Como podemos ver, o peixe, no Brasil, para quem não é pescador ou ribeirinho, concentra-se nas camadas de maior poder aquisitivo, o que é diferente do resto do mundo. Apesar de termos o maior potencial de crescimento da piscicultura mundial, sofremos por ser um País burocrático, das licenças que não saem, dos altos impostos e da falta de um programa de incentivo à produção da melhor carne para consumo e a mais eficiente na conversão. A falta de frigoríficos e os altos impostos são também os principais gargalos para a expansão da piscicultura.

O setor precisa organizar melhor e cobrar políticas que saiam do papel. Não se justifica a realidade atual. Precisamos ter maior eficiência na produção, um programa de pesquisa direcionada regionalmente considerando renovação de água, temperatura da água e as espécies nativas e exóticas, incentivo à indústria de ração e para frigoríficos regionais, pois só assim o brasileiro terá acesso ao peixe não só na Semana Santa. E deixaremos de ser importadores para nos consolidarmos como exportadores, já que o potencial nos foi dado por Deus.

Presidente da Câmara Setorial da Soja, diretor da Aprosoja e produtor rural em Campos de Júlio/MT